Precisamos falar sobre o WhatsApp



Há um episódio de Star Trek TNG que eu gosto bastante (como se fosse o único rs) e que vai ser vir para ilustrar o meu ponto.

O episódio em questão é o The Neutral Zone, episódio 26 da primeira temporada da série.

Satélite de criogenia, estrutura utilizada para armazenar corpos que passaram pelo processo de criogenia. Os corpos ficavam com as baixas temperaturas necessárias, mas mantê-los no espaço era menos dispendioso. A estrutura é do século XXI, levando em conta a linha do tempo de Star Trek.
Satélite de criogenia, estrutura utilizada para armazenar corpos que passaram pelo processo de criogenia. Os corpos ficavam com as baixas temperaturas necessárias, mas mantê-los no espaço era menos dispendioso. A estrutura é do século XXI, levando em conta a linha do tempo de Star Trek.

Nesse episódio, um satélite de criogenia do século XXI (Star Trek se passa no século XXIV) é encontrada pela tripulação. Essa estrutura encontrada servia como depósito de corpos que passaram pelo processo de criogenia. A estrutura ficou a deriva e os corpos ficaram preservados por esse processo.

Três corpos foram recuperados e com a tecnologia média do século XXVI, foi possível “revivê-los” e curar as doenças que os fizeram morrer. Não vou dar muitos detalhes sobre esses três personagens. Lembro que um era uma jovem mãe que morreu muito cedo e a família quis preservá-la; o outro era um homem de meia idade muito rico e o outro era uma estrela da música que teve uma vida de abusos e morreu relativamente cedo.

Na Enterprise, há comunicadores espalhados pela nave, onde é possível falar com qualquer tripulante. No século XXIV, as pessoas sabem usar esse recurso com critério e não ficam chamando Picard a cada dúvida ou a Dra. Crusher a cada ressaca num happy hour no Ten Forward.

O senhor rico de meia idade estava muito preocupado com seus investimentos. Acho que ele não se deu conta de que havia passado mais de 200 anos. O mundo mudou muito e como Star Trek mostra uma realidade da Terra com toques bem comunistas, muito ptovavelmente homens ricos e poderosos como ele já não existem mais.

Esse senhor também estava acostumado a ser servido. Ele estava acostumado a ter o mundo aos seus pés, empregados fazendo tudo por ele. Quando ele vê Riker usando o comunicador, ele também resolve usá-lo. Ele o usa para fins particulares e sem urgência, atrapalhando Picard em uma reunião.

Talvez no século XXI, de onde esse senhor veio, as pessoas não tem esse mesmo bom senso. Esse tipo de comportamento é normal, as pessoas não tem muito critério para classificar um assunto como urgente.

É, bem vindo ao século XXI. Bem vindo ao WhatsApp.

O WhatsApp é uma ferramenta maravilhosa, como tantos outros serviços de mensagens que surgiram antes ou depois dele. Permite a comunicação rápida, literalmente ao alcance das mãos. Além do uso particular, trabalhadores de todas as áreas tem usado a ferramenta para se comunicar profissionalmente. E médicos tem usado bastante.

Acho muito válido que um médico forneça seu celular para seus pacientes. Nós vivemos um tempo de medicina tão impessoal, com médicos que mal olham para você enquanto examinam. Acredito que fornecer o telefone mostra um cuidado, uma atenção especial. Para ter esse privilégio, o paciente precisa se consultar com um médico particular, pelo menos é o que observo. Nunca ouvi dizer de que um médico do SUS tenha fornecido esse tipo de canal de comunicação.

E agora entra a questão do bom senso. Eu estava conversando com uma moça que conheci, que também é mãe, sobre os excessos. Essa moça conhece pessoalmente pediatras e ela me contou umas coisas absurdas. Por exemplo, mães que mandam foto das fezes da criança para que o médico analise (?), mãe que pede receita de remédio tarja preta para a avó da criança (?), etc.

Eu sei, mães de primeira viagem ficam desesperadas. Se vocês tivessem acesso ao meu histórico de buscas do Google entenderiam muito bem o que quero dizer. Mas eu gostaria de entender onde fica o bom senso. A criança está bem, está se alimentando, está sorrindo, mas deu um espirro. Seria isso motivo para mandar uma mensagem ao médico às 3h da manhã? Será que o WhatsApp não é um canal indicado para casos fora da normalidade? Será que a gente está muito desesperada e precisa manter a calma? Além disso, acredito que nenhum médico vai chegar a diagnósticos ou prescrever medicamentos pela internet, já que existe uma resolução proibindo isso. Ou seja, as consultas devem ser feitas apenas presencialmente. E ponto. Nenhum profissional sério quer ter o seu registro cassado.

Pergunte para sua mãe ou para suas tias como elas faziam no passado. Ficavam desesperadas? Ficavam, mas elas perguntavam coisas para outras mães. A gente pode fazer o mesmo. Eu sei que tem muita gente com noção equivocada das coisas, que receita simpatias, indica medicamentos com base em “a vizinha usou e deu certo”, etc. Mas a gente pode se tranquilizar com relação a comportamentos da criança.

Por exemplo, recentemente meu filho descobriu que consegue virar da posição de barriga para cima para a posição de bruços. Só que ele ainda não consegue virar de volta. Então ele acorda chorando, porque está de bruços e não consegue voltar para a posição original. Fiquei preocupada, mas entrei em fóruns e vi que é um marco normal do desenvolvimento dele e quase todas as crianças passam pela mesma coisa mais ou menos na idade dele (ele tem quase 4 meses). Conversei com minha mãe também e fiquei despreocupada. Claro que no meio dessas leituras li umas coisas meio doidas (simpatias para ele não fazer isso, significados, encher a cama de cobertores enrolados, etc), mas eu apenas segui o bom senso. E em caso de dúvidas adicionais, pergunto para as pediatras em que levo o Joaquim. Como temos consulta todos os meses, é difícil acumularem muitas dúvidas.

Um bom conselho!
Um bom conselho!

Talvez alguém chegue até esse post e me ache insensível. Vão dizer que “ah, você não precisa do WhatsApp do médico, mas eu preciso” ou “você não tem acesso a isso, está com recalque”. Pensem o que quiserem. Eu estou tentando me colocar no lugar do médico. A profissão é nobre, orienta sobre a saúde,  cura e trata doenças, salva vidas, etc, só que o profissional tem uma vida, sabe? Como qualquer pessoa, ele precisa equilibrar momentos de trabalho e descanso. Sei que alguns médicos (obstetras e cirurgiões em geral, por exemplo), precisam estar com o celular do lado o tempo todo. Mas nesse caso, o profissional se organiza para isso. Agora coloquem-se no lugar de um pediatra ou clínico geral que trabalha 10h por dia. Acho que quando ele esta fora do consultório, quer fazer outras coisas e só aceitaria ser interrompido em casos muito sérios.

Falta bom senso. E falo isso não apenas pensando no trabalho do médico. Vejo muita falta de bom senso em diversos grupos do WhatsApp. Muitas vezes acho que uma ferramenta que poderia ajudar acaba criando mais problemas, com discussões tolas e atualizações desnecessárias. Vejo também muita falta de bom senso em grupos do Facebook e em outras redes sociais. Recentemente eu saí de um grupo de mães do Facebook porque eu não aguentava mais aquela competição velada de “quem teve o parto mais perfeito”. Um dia escrevo sobre isso, embora o assunto seja muito polêmico e suscite questões que mexem com sentimentos muitas vezes mal resolvidos.