Artigo recém publicado mostra quais os pontos de maior ocorrência de raios no mundo



Na região do Lago Maracaibo, na foz do Rio Catatumbo, rio localizado na Venezuela, ocorre um fenômeno muito curioso. São raios e relâmpagos muito intensos, localizados em uma região relativamente pequena (que é a foz deste rio). Esses relâmpagos são observados 140-160 dias por ano e normalmente ocorrem durante a noite. Em alguns casos, são 10h seguidas de atividade elétrica! Em um post de 2013, falei sobre essa curiosa região na Venezuela (confira aqui).

Relâmpago de Catatumbo, na Venezuela. Foto de 19 de Agosto de 2008. Fonte: Wikimedia Commons
Relâmpago de Catatumbo, na Venezuela. Foto de 19 de Agosto de 2008. Fonte: Wikimedia Commons

Estou mencionando essa localidade novamente porque ela aparece em um recente artigo publicado no BAMS (Bulletin of the American Meteorological Society). A pesquisadora Rachel I. Albrecht e seus colaboradores estudaram os principais hotspots de relâmpagos daqui da Terra. Para esse estudo, utilizaram dados de 16 anos do TRMM (Tropical Rainfall Measuring Mission) Lightning Imaging Sensor (LIS), da NASA e da JAXA.

O TRMM é uma missão conjunta da NASA e da JAXA (Japan Aerospace Agency) que tem como objetivo observar a chuva para estudar o tempo e o clima. o TRMM é um satélite, mas que deixou de coletar dados em 15 de Abril de 2015. Foi lançado no final de novembro de 1997, e tinha previsão de vida útil de apenas 3 anos. Como percebemos, a expectativa de vida do satélite foi bem maior do que isso e felizmente foram coletados mais de 17 anos de dados científicos de vital importância, para estudar principalmente a região tropical do planeta, região que infelizmente não tem muitas estações meteorológicas, já que é uma região ocupada por muitos países em desenvolvimento, além de regiões oceânicas e florestas.

O TRMM carregava alguns instrumentos/sensores, dentre eles o LIS (Lightning Imaging Sensor), que detecta relâmpagos e foi utilizado no estudo mencionado. Esse satélite foi um importante marco para medições científicas desse tipo e serve até hoje como uma espécie de “padrão” para medidas de chuva via satélite. Entretanto, a gente precisa lembrar que as modernas observações de chuva via satélite ainda dependem muito do uso do pluviômetro, para calibração e verificação dos dados

A análise feita pela equipe da Dra. Rachel revelou que o principal hotspot de relâmpagos acontece no Lago Maracaibo, na Venezuela, como já se desconfiava. É a primeira vez que isso é confirmado usando dados do mundo inteiro, graças ao TRMM/LIS. Anteriormente, com uma climatologia de baixa resolução (0,5° de espaçamento) pensava-se que a região com a maior ocorrência de raios no planeta era a região da Bacia do Rio Congo, na África. Atualmente, com uma climatologia de alta resolução (0,1° de espaçamento), concluiu-se que a região com a maior ocorrência de raios no planeta é o Lago Maracaibo, na Venezuela.


Visualizar Lake Maracaibo em um mapa maior

No post sobre o Relâmpago do Catatumbo, mencionei que  pesquisador Angel Muñoz, da Universidad del Zulia, acredita que uma substância chamada querogênio pode ter um importante papel na formação das impressionantes e duradoras descargas elétricas na foz do Catatumbo. O substrato do lago Maracaibo é rico em depósitos de petróleo. Além do metano liberado pela decomposição da matéria orgânica nos pântanos, gases do substrato do lago podem vazar e aumentar a ionização do ar. Isso explicaria porquê a quantidade de relâmpagos na região aumenta quando ocorrem terremotos na região. Os terremotos poderiam favorecer no vazamento do metano preso no fundo do lago.

Entretanto, no artigo da Dra. Rachel, é lembrado que a região do Lago Maracaibo apresenta um padrão de convergência do vento muito característico. Ali naquele ponto, ocorre brisa lacustre, marítima e circulação vale-montanha. Essa convergência ocorre em cima do lago, que possui águas mornas quase que o ano todo. Dessa forma temos as condições ideais para a formação de nuvens de tempestade: a convergência do vento é uma das maneiras de se formar nuvens e as águas mornas do lago fornecem umidade através da evaporação.

Observe que a convergência do vento é o principal fator que contribui para o crescimento das nuvens na região do  Lago Maracaibo e não a convecção (aquecimento da superfície pelo ciclo diurno, com consequentes chuvas no final da tarde), que é a principal maneira como as chuvas de verão se formam aqui em São Paulo por exemplo, dando origem às tempestades de verão. Estou reforçando esse ponto, porque uma das curiosidades observadas no Lago Maracaibo é justamente a atividade elétrica noturna. O processo de convecção ocorre durante o dia, quanto temos a energia solar para aquecer a superfície da Terra. Um local com intensa convergência de vento, como é o Lago Maracaibo, pode apresentar tempestades tanto de dia quanto de noite. E como a convergência no caso do lago é em decorrência da circulação de brisa (lacustre e marítima) e da circulação vale-montanha (chamada também de brisa de vale-montanha), essas circulações são intensificadas no final da tarde.

O estudo feito pela Dra. Rachel mostrou que na região do Lago Maracaibo, a média anual de dias de tempestades severas (com atividade elétrica) é de 297 dias. São tempestades persistentes e muito bem localizadas, que é exatamente o que distingue a região. O estudo também mostrou outras regiões com características semelhantes as do Lago Maracaibo, onde a presença de convergência do vento, calor e umidade favorecem a formação de nuvens de tempestade carregadas eletricamente.

No artigo há inclusive um ranking das regiões, em todos os continentes, com a maior ocorrência de raios:

– na América do Sul, claro que trata-se do Lago Maracaibo, com 232 raios por km² por ano. É interessante notar também que muitas das outras localidades listadas no ‘top 10’ da América do Sul são regiões que ficam em vales e em sopés de montanhas ao longo dos Andes, indicando que a circulação de vale-montanha tem papel importante na formação de tempestades na região. Das localidades listadas no ‘top 10’, sete ficam na Colômbia. Nenhuma localidade brasileira foi listada na lista dos 10 lugares com maior densidade de raios na América do Sul.

– na África, é Kabare, na República Democrática do Congo, com 205 raios por km² por ano. Das 10 localidades africanas com maior ocorrência de raios, 8 ficam na República Democrática do Congo. De acordo com o artigo, com a climatologia de baixa resolução (espaçamento de 0,5°), o A República Democrática do Congo era considerado o local com maior ocorrência de raios no mundo. Agora, com a climatologia de alta resolução (espaçamento de 0,1°), é o Lago Maracaibo que detém esse título.

– na Ásia, é Daggar, no Paquistão, com 143 raios por km² por ano. Na Ásia, as localidades listadas no “top 10” são muitas delas regiões onde ocorre o fenômeno de monções. Falei desse fenômeno em alguns posts, como nesse.

– Na América do Norte, é Patulul, na Guatemala, com 117 raios por km² por ano.  No artigo, não há distinção entre América do Norte e América Central (como normalmente vemos  na escola, por razões geopolíticas). Então todas localidades listadas no top 10 da América do Norte são localidades da América Central. Na América Central temos a ocorrência de ciclones tropicais (furacões), com chuvas intensas e atividade elétrica.

– Na Oceania trata-se de Derby, na Austrália, com 92 raios por km² por ano.

Esses valores de “raios por km² por ano” mencionados acima são uma média, usando os 16 anos de dados do TRMM, conforme mencionado anteriormente. As localidades mencionadas são as áreas habitadas mais próximas do ponto do dado, uma vez que o estudo usou dados com resolução de 0,1° de latitude/longitude. Ou seja, uma “malha” de dados com esse espaçamento para todo o planeta e um ponto não necessariamente coincide com uma região habitada.

Raios Noturnos

Uma curiosa característica, conforme foi mencionado anteriormente, é que no Lago Maracaibo a atividade elétrica ocorre de noite. E isso proporciona imagens espetaculares. Em uma simples busca, encontramos vídeos como esse abaixo:

A maioria dos outros hotspots de raios apresentam o padrão conhecido por muitos de nós aqui no Brasil: tempestades de final de tarde, resultados da convecção. É o caso de Kabare (República Democrática do Congo), Patulu (Guatemala) e Derby (Oceania). Em Daggar (Paquistão), temos um padrão “misturado”, com raios acontecendo tanto no final da tarde quanto de madrugada. O artigo mostra as “top 10” localidades de todos os continentes com padrões variáveis, basicamente esses três padrões:

– Maior ocorrência de raios de madrugada;

– Maior ocorrência de raios no final da tade;

– Mistura dos dois padrões anteriores.

O tipo de padrão vai depender das características da circulação atmosférica do local: se predomina a convecção devido ao ciclo diurno, presença de circulações de brisa (marítima, lacustre, vale-montanha ou fluvial), variação anual extrema (como a ocorrência de monções). A propósito, nas localidades onde ocorrem monções é bem notado esse “padrão misturado”.

Outra coisa interessante que podemos “subentender” a partir desse artigo é que nesses locais de intensa atividade elétrica, a probabilidade de uma pessoa ser atingida por um raio é maior de madrugada e/ou no final da tarde, dependendo do padrão apresentando.

Finalizando…

Esse post ficou enorme, pois o artigo é realmente muito interessante. Eu poderia escrever mais, mas acredito que aqui temos os pontos mais marcantes do artigo. Leia o artigo completo aqui. E gostaria de agradecer a autora por me fornecer algumas explicações e incentivar a divulgação de seu artigo aqui no Meteorópole.