Dirigindo novamente: medos, traumas e processo de superação

Ainda quando estava grávida, mencionei aqui no blog que voltei (ou recomecei?) a dirigir. Criei até uma série a respeito do tema (veja todos os posts relacionados). E claro, esse post fará parte dessa série.

Vou tentar resumir minha história no volante até chegar aos dias atuais.

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Quando eu tinha uns 18 ou 19 anos, meu pai decidiu que eu deveria tirar a carteira de motorista. Isso mesmo, ele decidiu. Confesso que tive um misto de empolgação e indiferença. Eu não via necessidade em tirar a carta, uma vez que eu sabia que demoraria muitos anos até que eu pudesse adquirir meu carro. Mas eu queria aprender a dirigir por curiosidade. Por isso essa “mistura de sentimentos”.

Logo vi que eu não tinha a menor afinidade com o carro e com o ato de dirigir. Escolhemos uma autoescola péssima, desorganizada, com atendimento que deixava a desejar. Talvez se eu tivesse trocado de autoescola na época e escolhido uma melhor, talvez eu teria ficado mais interessada em dirigir. Não troquei pois me lembro que o processo era burocrático e mais dinheiro deveria ser gasto (matrícula, taxa disso, taxa daquilo, etc).

Hoje, 15 anos depois, percebo o quanto fui desrespeitada. Um dos instrutores ficava me assediando verbalmente, outra instrutora ficava conversando com conhecidos do lado de fora do carro enquanto eu fazia a baliza sem nenhuma instrução ou supervisão (e eu ainda ouvia uns risinhos debochados), a autoescola ficava insistindo no pagamento do “quebra” (taxa para conseguir a carteira sem passar pelo exame, corrupção), eu ouvia desaforos desrespeitosos machistas por parte de outros motoristas enquanto estava treinando, dentre outros absurdos e irregularidades. Tudo isso somado ao fato de eu ser inexperiente, muito ansiosa e nervosa. Também percebo que havia até uma arrogância de minha parte: eu, moça inteligente que havia passado na USP, não conseguia aprender a dirigir. Era dessa forma que eu me enxergava, como “alguém superfoda”, e claro que isso não ajudava nada. E é óbvio que mudei MUITO em 15 anos!

Acabei concluindo o processo de obtenção da habilitação entre 19 e 20 anos. E eu tinha um documento que eu não usava! Meus pais não tinham boa vontade em me ajudar a obter prática, demonstravam medo quando eu finalmente conseguia que saíssem comigo depois de muita insistência. Talvez perceberam que eu não estava pronta, mas a atitude deles não ajudava. Cheguei a fazer aulas extras, mas eu concluí que estava gastando dinheiro à toa, já que não tinha carro e nem iria dirigir tão cedo. Eu me sentia completamente desmotivada.

Meu irmão, 3 anos mais novo, tirou carta e recebeu um apoio maior. Até autorização para usar o carro da família ele tinha. Isso me machucou bastante. Não tinha raiva de meu irmão, até porque ele sempre dirigiu melhor do que eu, mas fiquei muito chateada com meus pais. Não entendo essa “lógica” da sociedade em geral, que dá todo tipo de incentivo e facilidades para quem já está na frente e não tem cuidado com quem está lá atrás e claramente precisa de mais ajuda.

Quando eu tinha uns 24 anos (acho), fui trabalhar em um local fora de mão e percebi que eu precisava dirigir. Fiz algumas aulas em uma autoescola ótima, com um instrutor que era um cara muito bacana. Ele incentivava, tinha paciência e eu já estava quase dirigindo na Rodovia Raposo Tavares (com o carro da autoescola) quando acabei saindo desse emprego e mudando de cidade.

Esse negócio de “local fora de mão” é interessante mencionar. Aqui em São Paulo, o transporte público é razoável quando a gente compara com outras cidades. Claro que precisa melhorar, precisamos de mais linhas de metrô e ônibus de melhor qualidade. Mas de um modo geral, sempre consegui me deslocar na cidade, pois os locais que costumo frequentar sempre eram próximos a minha casa ou próximos de estações de metrô. Em alguns casos, eu pegava um táxi. E isso me fazia pensar que dirigir não era necessário. Se Freddie Mercury não dirigia e era fabuloso, porque eu iria precisar dirigir?

Até que fiquei grávida. Meu companheiro e eu já tínhamos o plano de comprar um carro para viajar. Depois da gravidez, isso ficou mais urgente. Compramos o carro, maridão estava meio enferrujado no volante, porém logo pegou prática novamente. E ele me incentivou. Ele sentou do meu lado, me apoiou, disse que eu era capaz. Em nenhum momento foi impaciente ou demonstrou insegurança. Na cabeça sábia dele, se o carro batesse a gente simplesmente assumiria a parcela de responsabilidade. Sem nenhuma neura ou acusações.

Então, eu finalmente estava indo para o trabalho de carro. Não consigo descrever minha emoção quando comecei a ir sozinha. E quando peguei uma avenida movimentada pela primeira vez, embora por apenas 1km hehehe. Foi quando minha barriga começou a crescer bastante e o cinto começou a incomodar. Até que eu bati o carro. Pois é, gente! Até contei a história nesse post.

Decidi parar de dirigir por algum tempo, pois tive medo de sofrer um acidente mais sério e arriscar a vida do meu filho. Meu menino nasceu, fiquei alguns meses em casa e nem toquei no volante. Até que minha licença estava quase acabando e meu marido ficou chamando minha atenção, dizendo que eu precisava voltar a dirigir.

Não tive traumas com relação ao acidente que tive. O fato é que eu percebi que DETESTO dirigir, mas é necessário. Eu tenho que levar meu filho para a escolinha e depois ir trabalhar. Peguei o carro algumas semanas antes de voltar a trabalhar e percebi que eu estava bem mais calma e paciente. Hoje consigo pelo menos fazer as coisas que preciso, sempre pedindo a Deus que me dê calma, paciência e tolerância. E sempre pedindo a Deus que me livre do mal e que me ajude a ter reflexos rápidos e inteligência.

Esse relato é para incentivar você, moça que quer dirigir. E que de repente tem um pai, um irmão, um tio, etc que solta frases como “tinha que ser mulher” ou “êeee Dona Maria”. Colocações que são claramente machistas e que machucam mais quando partem de pessoas que você ama. Esse relato é para incentivar você que recebeu um tratamento diferente do dado ao seu irmão. Nós temos que ocupar as ruas!

A @amiga_ursa, uma querida amiga que conheci pelo Twitter, é uma pessoa linda que sempre me incentiva. Ela gosta de dirigir e gosta de incentivar todas as mulheres a fazer o mesmo. Dirigir é independência de locomoção! Você vai deixar de precisar do seu marido, pai, namorado, etc para ir aos lugares. Você não vai precisar da carona daquele colega que talvez aproveite o trajeto para te assediar. Você vai se sentir livre!

Se precisar, pague uma escola especializada no ensino para pessoas que tem medo de dirigir. Eu cogitei fazer isso e ainda cogito, pois pretendo dirigir em avenidas como Radial Leste e Marginais (para quem não conhece São Paulo, são avenidas atoladas de carros e motoristas estressados). Pretendo pegar a estrada, viajar! Hoje eu acredito na minha capacidade. Antes eu só enxergava minhas limitações (eu realmente tenho dificuldades para dirigir), mas hoje percebo que posso superar essas limitações, com paciência, humildade, fé e perseverança. E posso dizer que no meu caso específico, meu filho me motiva muito a superar essas dificuldades, pois quero dar o exemplo para ele. E quero levá-lo nos lugares legais em que o transporte público não é suficiente =)

Por outro lado, não se apresse. Respeite seu tempo. Você não precisa correr para tirar a carta aos 18 anos se não quiser. Pode ir com calma, respeitando seus limites e sua realidade. Eu lembro que com 18 anos eu tinha um milhão de tarefas: curso de inglês, estágio, cursinho e autoescola! Quem aguenta tanta coisa assim? É muita pressão, é muito cansativo e acho que meus pais não enxergavam isso. Ok, vocês vão dizer: mulher, você tinha 18 anos, como VOCÊ não enxergava isso? Pois bem, hoje também percebo que com 18 anos eu não tinha a maturidade que eu achava que tinha.

Para finalizar, deixo uma mensagem: Mulheres, ocupem as ruas, aprendam a dirigir! Dirigir é liberdade e independência. Vamos encher as ruas de motoristas simpáticas e gentis. O trânsito também precisa da gente.