“Mas é só uma crítica construtiva”



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Fonte: Free Digital Photos

Você está andando na rua e encontra uma pessoa qualquer que está usando uma roupa que você não acha bonita. Você apontaria o dedo e diria em alto em bom som: “Oi, sua roupa é horrível”? Espero que não. Espero que você ache isso inaceitável. E porque pela internet muitas vezes isso parece aceitável? E porque muitas vezes isso ganha o contorno de “crítica construtiva”?

Ontem eu estava assistindo um vídeo de um youtuber famoso. Ele dava uma série de explicações sobre sua aparência e estilo de vida, pois estava sendo cobrado por alguns “fãs” que só estavam dando “críticas construtivas”. Assistindo aquele vídeo, eu me senti triste! Transformaram a vida do rapaz em um circo, em um Big Brother. Até o relacionamento do rapaz com a mãe era alvo de debate.

Imagino que quando o rapaz criou o canal ele só queria dividir o estilo de vida dele com outras pessoas e encontrar pessoas que se identificassem. Imagino que ele tenha encontrado pessoas assim, mas encontrou vários desses “fãs” estranhos. Eu nem gosto da palavra fã, vem de “fan”, fanatic, fanático. E a palavra fanática é assustadora, pelo menos em minha opinião, pois para mim remete delírio religioso.  Sempre penso no livro Misery, do Stephen King.

É bacana ter admiradores, pessoas com que você se identifica. Fã (pelo menos desse tipo louco) não, Deus me livre!  Para mim, fã que faz esse tipo de “crítica construtiva” é o mesmo que hater. A diferença é que o hater muitas vezes se esconde atrás de um perfil falso, mas a ofensa ocorre do mesmo jeito, talvez em níveis diferentes, mas é ofensivo também. “Fulano, como você engordou!” ou “morre, gordo” são frases com impactos diferentes? Talvez, porém percebo que muitas pessoas escondem crueldade em sutilezas.

E a situação vivida por esse rapaz não é a primeira que vejo na internet. Há muito tempo atrás uma blogueira que eu acompanhava (acho que ela nem tem mais o blog) era alvo de críticas sobre a cor de seu cabelo e sobre seus dentes. Ela, uma mulher mais velha e muito inteligente, disse algo que eu nunca vou me esquecer.

Ela dizia que não se importava, pois era uma mulher vivida, com autoestima legal e feliz com a vida que levava. Mas ela chamava a atenção para a leviandade de quem faz comentários desse tipo. Um comentário negativo sobre a aparência de alguém pode ser o ingrediente que faltava para uma crise depressiva, por exemplo.

Você tem o direito de pensar o que quiser sobre a aparência dos outros. Mas mantenha as coisas dentro da sua cabeça. Não é necessário dizer tudo o que se pensa. A gente tem o direito de pensar várias coisas e várias coisas erradas, injustas. E então a gente continua pensando e vê que aquela ideia não está certa, precisa ser mudada. O que vejo por aí é gente coçando o dedo para digitar qualquer coisa ou gravar um vídeo de qualquer coisa. E depois que a palavra é divulgada, o resultado pode ser devastador para você e para outras pessoas.

E vamos ser justos: isso não acontece só na vida real. Eu conheço pelo menos duas pessoas que todas as vezes que me veem comentam meu peso, normalmente afirmando que eu engordei. Aparentemente elas têm um sensor nos olhos que calcula minha massa, talvez um espectrômetro, não sei?  Então elas detectam as quantidades de cada um dos elementos que compõe meu corpinho. Em seguida, usando tabelas de densidade, somam tudo e chegam ao valor de minha massa. Vou escrever melhor sobre essa teoria.

Essas pessoas nunca perguntam se estou feliz, como andam meus projetos, como anda meu trabalho, etc. A observação inicial é sempre sobre meu peso! Isso me incomoda muito e estou aqui pensando na melhor maneira de dizer que isso me incomoda. Acontece que uma dessas pessoas tem problemas. Não sei o nome do problema, mas vocês vão entender. É o tipo de pessoa que não vai reconhecer que está errada e ainda é capaz de me convencer que a errada sou eu em criar caso com algo tão besta, pois eu sou uma pobre coitada que não vai pra igreja. Como não sei como abordar o assunto e acabar com essa atitude, decidi deixar para lá por enquanto. E decidi não me importar e engrandecer minha auto-estima, ignorando comentários do tipo. Só que se eu não tivesse bem, se eu não tivesse uma rede de apoio, se minha vida não estivesse boa no momento, esse tipo de comentário poderia ser o estopim para o desenvolvimento de doenças como depressão, anorexia ou bulimia!

Um apelo: vamos pensar mais! Não vamos dizer coisas sem pensar! É um exercício que todo mundo tem que fazer. Vamos deixar certas opiniões pessoais guardadinhas dentro das nossas cabeças. Porque dependendo do que você falar, pode ofender alguém. Não, não estou falando de pessoas cheias de melindres, que se ofendem quando você educadamente diz que não gosta de um artista ou de uma bebida. Estou falando de ofensas MESMO, ofensas relacionadas ao bem-estar e a aparência. Coisas que podem ser devastadoras!

Se você quer ajudar alguém, torne-se amigo desse alguém. Ouça seus anseios, suas necessidades e então intervenha de maneira particular. Isso e gentil e delicado! Já fizeram isso por mim em outras situações e eu só tenho a agradecer, pois graças a isso tenho amizades duradouras.