A Biblioteca de Alexandria ainda existe!



A Biblioteca de Alexandria foi uma das maiores bibliotecas do Mundo Antigo. A cidade de Alexandria, às margens do Mediterrâneo, foi o principal centro da cultura mundial entre os séculos III a.C. e IV d.C. Era uma cidade cosmopolita em que pessoas de diferentes origens étnicas e culturais conviviam em paz e trocavam saber entre si. A famosa biblioteca da cidade continha praticamente todo o saber da Antiguidade. Estima-se que continha cerca de 700 mil rolos de papiro e pergaminhos.

Acredita-se que a Biblioteca de Alexandria pode ter sido fundada no início do século III a.C. pelo faraó Ptolemeu I Sóter ou durante o reinado de seu filho Ptolomeu II. A cidade de Alexandria tinha esse nome em homenagem a Alexandre, o Grande. Acontece que por volta do século IV a.C. o Egito não estava com essa bola toda, pois os persas dominavam importantes cidades egípcias. Alexandre expulsou os persas e logo foi considerado um herói libertador do Egito, que já possuía diversos povoados de gregos nas margens do Mediterrâneo. No ano seguinte a vitória de Alexandre sobre os persas, construíram a cidade de Alexandria, que ficou famosa no Mundo Antigo por possuir a aclamada Biblioteca de Alexandria e o Farol de Alexandria, que esteve listado entre as 7 maravilhas do Mundo Antigo. Pode-se dizer que tratava-se de um importante destino turístico da época, uma espécie de “Nova York do Mundo Antigo”. Uma cidade cosmopolita, que atraia visitantes e estudiosos de diversas localidades.

A famosa biblioteca continha praticamente todo o saber da Antiguidade, em cerca de 700 mil rolos de papiro e pergaminhos. O lema era “adquirir um exemplar de cada manuscrito existente na face da Terra”. E claro, uma biblioteca desse porte atraia intelectuais de todo o mundo antigo. Uma das celebridades de Alexandria foi Hipatia, filósofa, neoplatonista e uma das primeiras matemáticas das quais se tem notícia.

Hipatia, desenho de Jules Maurice Gaspard (1862–1919). Fonte: Wikimedia Commons
Hipatia, desenho de Jules Maurice Gaspard (1862–1919). Fonte: Wikimedia Commons

Hipátia também realizou estudos de Astronomia e foi diretora da Biblioteca de Alexandria por volta do século IV d.C. Ela foi morta por uma multidão de cristãos enfurecidos. Alguns dizem que ela foi morta por ser pagã (não-cristã). Outra versão diz que ela foi morta porque pouco tempo antes um religioso cristão tinha sido condenado a morte pelo prefeito de Alexandria. Como ela tinha enorme influência política na cidade, pessoas que protestavam contra a morte desse religioso acabaram a torturando e matando. Há historiadores que consideram a morte de Hipátia como o fim da Antiguidade Clássica. A história de Hipátia me cativa porque em diversos momentos da história da humanidade, mulheres inteligentes e poderosas eram vistas como grandes ameaças e acabavam sofrendo retaliações. Isso acontece ainda hoje, só lembrarmos da história de Malala Yousafzai, garota que desde a pré-adolescência milita pela educação e sofreu um atentado.

Bom, mas continuando sobre a história da Biblioteca de Alexandria, há diversas histórias sobre sua destruição e eu pude apurar algumas elas. Por volta de 48 a.C, Julio Cesar teria queimado acidentalmente a biblioteca, quando ele incendiou seus próprios navios para frustrar a tentativa de Achillas de limitar a sua capacidade de comunicação por via marítima. O historiador Plutarco narra que o incêndio acabou se espalhando pelas docas do porto de Alexandria e chegou até a biblioteca. Entretanto, outros historiadores dizem que esse incêndio teria queimado apenas algumas casas próximas às docas.

De qualquer maneira, a biblioteca continuou existindo após esse incidente. Quando a cidade de Alexandria foi tomada pelo imperador Aureliano (por volta de 270-275 d.C), que estava tentando conter uma revolta provocada pela Rainha Zenóbia de Palmira, houve alguns combates e áreas da cidade de Alexandria foram destruídas, incluindo a biblioteca. Entretanto havia duas bibliotecas (uma maior e uma menor). Após esses confrontos, algumas fontes afirmam que a biblioteca menor, localizada no Serapeum, teria resistido.

O Paganismo tornou-se ilegal por um decreto do Emperador Teodósio em 391 d.C. O historiador Socrates de Constantinopla narra que templos pagãos da cidade foram fechados ou destruídos, incluindo o Serapeum. Muitos historiadores acreditam que foi nesse momento que todo o acervo da biblioteca foi destruído, mas isso nem sempre é mencionado diretamente. Então há uma corrente de pesquisadores que acreditam que mesmo com o fechamento ou destruição dos tempos pagãos, parte do acervo teria sobrevivido.

Em 642 d.C, o exército árabe-muçulmano de ‘Amr ibn al-‘As teria destruído a biblioteca completamente a mando do Califa Omar, que teria dito: “Se esses livros estão em acordo com o Alcorão, não precisamos dele; e se esses livros estão em discordância com o Alcorão, temos que destruí-los”. No entanto, essa história e essa frase famosa são tratadas com algum ceticismo, já que as opiniões dos pesquisadores sobre quem teria destruído a biblioteca por muito tempo dependeu muito das motivações políticas e religiosas desses pesquisadores.

A versão “oficial”, ensinada por diversos professores nas escolas, é de que a biblioteca teria sido destruída aos poucos por diversos grupos e por diversas motivações político-religiosas. Acredito que esses relatos fragmentados que coletei em minhas pesquisas nos fazem realmente pensar que deve ter sido isso que aconteceu. Infelizmente a afamada Biblioteca de Alexandria foi destruída ao longo dos anos, mas e o título desse post? Como assim ela ainda existe se foi destruída?

Bibliotheca Alexandrina. Fonte: Wikimedia Commons
Bibliotheca Alexandrina. Fonte: Wikimedia Commons

 

Vista panorâmica da Bibliotheca Alexandrina, em frente ao Mar Mediterrâneo.
Vista panorâmica da Bibliotheca Alexandrina, em frente ao Mar Mediterrâneo.

Na década de 1970, surgiu a ideia de “re-construir” a Biblioteca de Alexandria ou de pelo menos homenageá-la com uma nova construção, com o objetivo de “reavivar o brilho e a importância da antiga biblioteca”.

Claro que é impossível reconstruir a biblioteca, já que infelizmente a humanidade perdeu todo o acervo que ela continha. Mas essa nova construção, que foi inaugurada em 2002 e ficou conhecida como Biblioteca Alexandrina, possui espaço para 8 milhões de livros. A Bibliotheca Alexandrina foi construída na cidade de Alexandria, Egito, próxima de onde a  Biblioteca de Alexandria teria existido. Claro que nesses mais de 1500 anos o litoral da cidade de Alexandria modificou-se, parte da cidade foi engolida pelo mar, mas a construção foi feita no ponto o mais próximo possível.

Atualmente boa parte do acervo da biblioteca é digital, com integração entre outras bibliotecas ao redor do mundo e com  foco na inclusão (há uma biblioteca para deficientes visuais, por exemplo). Há livros e manuscritos raros também, salas de leitura, planetário, salas de conferência, etc.

O maior financiador para a construção do prédio foi a UNESCO. O projeto do prédio foi criado por uma empresa norueguesa e estima-se que o custo total da obra ultrapassou os 200 milhões de euros.

Eu fiquei morrendo de vontade de um dia conhecer este lugar, que certamente não recupera a glória e as histórias da Antiguidade, mas centraliza boa parte do saber da humanidade em um lugar que ficou marcado na História.

Bibliografia