Dica de livros: História Ilustrada da Ciência [4 volumes]

Eu estava passeando pela biblioteca do meu bairro, quando encontrei uma coleção muito interessante. Trata-se de História Ilustrada da Ciência, de Colin A. Ronan.  É uma coleção de 4 livros, que contam a história da ciência em ordem cronológica desde a Antiguidade até o século XX.

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Cada volume possui aproximadamente 150 páginas. A narrativa é bem gostosa, lembra textos de história ou informações dispostas em painéis de museu. Ou seja, é um texto que pode despertar o interesse de pessoas de diversas áreas do conhecimento, desde que tenham interesse no tema.

Uma das riquezas dos livros é que eles traçam um panorama histórico da época. Contam como viviam uma determinada civilização se estabeleceu e como as pessoas viviam, de maneira resumida, porém com as informações mais essenciais para situar o desenvolvimento científico da época descrita. E sempre é feito um paralelo com a religião e a espiritualidade da época. Em muitos casos, é difícil distinguir ciência e religião, principalmente na Antiguidade. Há um momento em que o autor dá um exemplo muito interessante. Imagine um curandeiro, que faça poções para finalidades diversas. Ele faz as poções usando ervas e raízes e faz uma cerimônia durante a preparação. Seu trabalho é de certo modo ‘científico’ ou protocientífico, pois certamente o curandeiro faz um trabalho de tentativa e erro até chegar na poção que realmente faz algum efeito curativo.

Além disso, na Antiguidade, muitos fenômenos da natureza eram associados a divindades. E a observação do céu tinha um papel essencial. Os egípcios, por exemplo, determinavam seu calendário usando como referência a estrela Sirius. Durante o Médio Império, os egípcios usavam um calendário que levava em conta o nascer helíaco dessa estrela. Nascer helíaco é o dia em que uma estrela torna-se visível pouco antes do nascer do nascer do Sol, porem suficientemente afastada do Sol para que o brilho dessa estrela seja visível. Acontece que o nascer helíaco de Sírius ocorria um pouco antes da inundação anual do rio Nilo, após a estrela ter ficado cerca de 70 dias sem aparecer.  E vejam como os egípcios relacionavam isso com sua religião: a estrela Sirius era relacionada a deusa Ísis, que é a deusa da fertilidade. Ocorre que com a cheia do Nilo, as margens desse rio eram alimentadas por sedimentos nutritivos que possibilitariam uma colheita farta.  E esse período de 70 dias em que Sirius não aparecia no céu era relacionado com a passagem de Ísis e Osíris pelo submundo, o tuat. Além dos egípcios, no Volume I da série também são mencionados outras civilizações da Antiguidade. As civilizações que habitaram a Mesopotâmia, como os Sumérios e os Babilônios, são lembrados como observadores contumazes dos astros, usando-os para determinação de calendários e consequentes festividades religiosas.

O Volume II chamou muito minha atenção por mencionar os cientistas do Oriente Médio. Fiquei interessada no tema depois que vi um episódio de Cosmos: A Spacetime Odyssey, em que a importância da ciência no Oriente Médio é mencionada com uma animação muito bonita. Esse volume também fala da ciência o Império Chinês e de sua relação com as filosofias religiosas da época (que persistem até hoje, como o Confucionismo).

É importante lembrar que enquanto a Europa estava mergulhada nas “trevas” durante a Idade Media, com pouco (ou nenhum) espaço para o pensamento livre, a ciência florescia no Oriente Médio. Neil DeGrasse Tyson, aclamado astrofísico e apresentador da série, menciona esse fato em suas palestras também (e no vídeo abaixo, faz uma comparação com o pensamento em algumas escolas americanas que pretendem colocar o Criacionismo em suas grades curriculares).

E mais uma vez, a religião também é mencionada. Assim como a “quebra”, acho que posso chamar assim, entre ciência e religião é mencionada no Volume III, quando a ciência da Renascença e as características desse período são descritas. E se a gente for observar, mesmo após a Renascença, o pensamento religioso ainda  persiste em discussões científicas. Basta pensarmos em debates como o uso de células tronco de embriões, por exemplo. Ou ainda, há muitos casos de praticantes da seita dos Testemunhas de Jeová que se recusam a receber transfusão de sangue ou transplante de órgãos. Dentre outros debates que ainda persistem na nossa sociedade. E ainda há os exemplos como o do vídeo acima, em que legisladores religiosos pretendem incorporar o ensino do Criacionismo (que é pseudociência) nas escolas.

A persistência desse embate entre ciência e religião é compreensível. A Renascença, o ‘rompimento’ entre ciência e religião, aconteceu há apenas 500 anos e a escrita surgiu há cerca de 5000 anos (em 3200 a.C. aproximadamente).

[Amigos historiadores, desculpem se cometi alguma incorreção ao usar o termo “rompimento” ou “quebra” nos parágrafos acima ;)]

Ao longo dos quatro livros, sempre é lembrado que a ciência está diretamente relacionada com avanço tecnológico, com a necessidade de dominar um saber para construir melhor, guerrear melhor, demonstrar a hegemonia ou poderio de uma sociedade, viver melhor, etc. Ou seja, o saber era (ainda é) uma ‘arma’ importante, algo concentrado nas mãos de poucos (sacerdotes, escribas, doutores, etc) e não era partilhado com grupos inimigos. Esses poucos sábios serviam apenas aos ricos e poderosos. Um exemplo bem bacana mencionado também na série Cosmos: A Spacetime Odyssey é o de  Joseph von Fraunhoffer. Depois de ter sido acolhido por um nobre, tornou-se desenvolvedor de vidros e lentes para a realeza da Bavaria. Suas descobertas eram “segredo de Estado” e por muitos anos seu laboratório desenvolveu os melhores vidros ópticos da Europa. Ele descobriu linhas escuras no espectro do Sol e descobriu que cada corpo celeste tinha em seu espectro linhas escuras com posicionamentos diferentes. Anos depois, descobriu-se que essas linhas escuras eram linhas de absorção atômica, o que possibilitava determinar quais elementos químicos compunham aquele corpo celeste.

Gosto do exemplo de Fraunhoffer porque mostra duas coisas: a primeira é a que mencionei, o conhecimento científico-tecnológico como segredo de Estado, sinônimo de poderio. A segunda é a ascensão pessoal pelo investimento no conhecimento, nos estudos. Fraunhoffer era uma pessoa pobre, um menino órfão que era explorado por seu patrão, com um trabalho análogo ao escravo. Após ser acolhido pela nobreza e ter a oportunidade de estudar, seu talento como fabricante de vidros especiais floresceu e ele tornou-se um grande nome da ciência do século XIX. É uma importante lembrança de que os pais devem incentivar para que seus filhos estudem e ascendam socialmente. E claro, uma importante lembrança para que os governantes mantenham ações para tirar os jovens de situação de vulnerabilidade e desenvolver maneiras para que eles sejam incentivados a estudar para melhorar suas condições de vida.

Mas voltando ao assunto do conhecimento muitas vezes servir apenas aos ricos e poderosos, isso fica bem evidente com relação aos avanços da medicina. Uma pessoa que fica muito doente mas tem boas condições financeiras, tem mais possibilidade de ter um tratamento digno, usufruindo dos avanços da indústria farmacêutica e da medicina. Situações escandalosas do sistema de saúde público chegam a nós todos os dias. Acredito que o maior desafio do conhecimento científico é torná-lo acessível a todos. Não só acessível na forma de conhecimento (isso praticamente já temos, com a internet), mas também acessível para que todas pessoas possam usufruir das tecnologias disponíveis.

Mas voltando a série História Ilustrada da Ciência, no Volume IV, a história do Programa Espacial é bem descrita, falando de fatos muito recentes de nossa história. Acredito que se o autor fosse ainda vivo, caberia um Volume V, falando das descobertas dos últimos 40 anos. No entanto, o volume IV, por estar tão “cronologicamente próximo” de nós, já trata diversas coisas que vivemos no cotidiano.

É interessante mencionar que embora os livros apresentem uma sequência cronológica, é possível ler os livros fora de ordem sem nenhum prejuízo para a compreensão. Tanto que no site da Editora, os livros são vendidos separadamente. E confesso que achei o preço meio salgadinho, pois se eu comprar todos os livros da coleção pela editora, vou desembolsar duzentos reais! Vi alguns volumes de edições antigas disponíveis em sebos (veja aqui) com precinhos bem amigos.

Apesar da coleção ter sido lançada na década de 1980, não há nenhum prejuízo na compreensão. Os livros contém muitas imagens e fotografias, que tornam a leitura agradável e aguçam nossa curiosidade. Recomendo =).

Quem foi Colin A. Ronan?

O autor de História Ilustrada da Ciência é o renomado  especialista em história e filosofia da ciência, Colin A. Ronan. Um aclamado autor, publicou mais de 30 livros. Além de livros sobre história e filosofia da ciência, Ronan também publicou títulos que exploravam a popularização da ciência.

Eu conheci o autor através da coleção História Ilustrada da Ciência e confesso que fiquei muito curiosa em ler outros livros do autor. A lista de livros publicados por ele (ou em colaboração com outros autores) pode ser consultada aqui.

O autor faleceu na década de 1990.