O que é esse colar que os bebês estão usando?

Talvez alguns de vocês tenham notado que alguns bebês estão usando um colarzinho de pedrinhas marrom-amareladas. A primeira vez que vi, achei que tratava-se de algum item religioso. Depois observei que muitos bebezinhos estavam usando. Eu vi inclusive filhos e filhas de celebridades utilizando o colar e talvez isso tenha feito com o uso fosse disseminado. E também já faz alguns anos que esse item tem aparecido em blogs gringos do universo materno.

Gisele Bündchen com sua filha, usando o famoso colar. Fonte: Reprodução do Facebook

A modelo Gisele Bündchen com sua filha, usando o famoso colar. Fonte: Reprodução do Facebook

Seria moda? Religiosidade? Resolvi investigar e vi que trata-se de um colar de âmbar.  Resolvi fazer um dossiê sobre o assunto. Acompanhem =)

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O que é âmbar?

O âmbar é uma resina fóssil usada na confecção de jóias e ornamentos. Ela não é um mineral,  como muitas das pedras preciosas que vemos por aí. Apesar de não ser um mineral, é possível ser “lapidado” na forma de gemas.

Trata-se de resinas de árvores que foram submetidas a altas pressões e temperaturas produzidas por sedimentos que encobriram essa resina. Se essa resina ficasse exposta às intempéries, seria desintegrada e consumida por microorganismos. Mas quando é coberta por sedimentos e submetida a altas pressões e temperaturas, ocorre um processo chamado polimerização molecular, reação química na qual um grande número de moléculas formam uma molécula maior, uma macromolécula.  O uso do âmbar como objeto ornamental remonta o Neolítico.

Âmbar do Mar Báltico, o âmbar que é usado na confecção dos colares para bebês. Observe que ele pode ser de diversas cores, de marrom a amarelo alaranjado. A coloração é tão específica que muitos usam o nome âmbar para descrever essa tonalidade. Fonte: Wikimedia Commons

Âmbar do Mar Báltico, o âmbar que é usado na confecção dos colares para bebês. Observe que ele pode ser de diversas cores, de marrom a amarelo alaranjado. A coloração é tão específica que muitos usam o nome âmbar para descrever essa tonalidade. Fonte: Wikimedia Commons

E como o colar ajudaria os bebês? Afinal, é ciência ou não?

Já vi todo o tipo de alegação sobre o colar. Nesse site, encontrei duas menções muito curiosas, uma atribuindo poderes “mágicos” e outra atribuindo total nonsense pseudocientífico. Traduzo e reproduzo as duas menções abaixo:

Permite que o próprio corpo se cure / irradia energia calmante e absorve energia negativa, portanto deve ser limpado com frequência/ acalma os nervos e estimula o intelecto / alinha energia etérea e física, limpa o ambiente / Trata desordens dos rins e da bexiga com sucesso

.

As contas de âmbar para dentição funcionam com a teoria do magnetismo leve, que tem potencial para curar dores leves, como a que acompanha a erupção dos dentinhos.

Quem já leu meu texto sobre como identificar pseudociência, deve ter identificado isso nos relatos acima. O autor desse texto encontrou outros relatos sobre o poder desses colares que faz soar um alerta em todo cético:  pensamento mágico, sabedoria ancestral, esoterismo, etc. Apesar de ser cristã, sou muito cética com relação a essas coisas que na minha opinião, são prato cheio para incautos gastarem dinheiro e muitos deixam de procurar soluções médicas efetivas para os problemas de saúde.

Apesar das alegações implausíveis mencionadas acima, há uma hipótese até que razoável para o suposto funcionamento do colar de âmbar. O âmbar contém uma substância analgésica chamada ácido succínico. Em latim, succinum significa âmbar, nos fazendo compreender de onde ele é extraído. Entretanto, em um texto do site Skeptcon, o autor menciona que não encontrou nenhum estudo científico comprovando o poder analgésico, apenas esse estudo falando que há evidências de que o ácido succínico poderia causar um efeito anti-ansiedade em ratos. Eu fiz uma busca por periódicos científicos sobre o tema e também não encontrei.  Muitos alegam que  funcionam sim, porque testaram na prática. Acontece que para que algo seja cientificamente comprovado, é necessário conduzir testes controlados que possam ser reproduzidos várias vezes por diversas equipes de cientistas.

Outro ponto: não é todo âmbar que contém ácido succínico. Alguns estudos apontam que apenas o âmbar da região do Mar Báltico possui a substância, o que torna o produto ainda mais específico e certamente mais caro. E outra questão ainda mais interessante: o ácido succínico derrete a uma temperatura de 187°C (vi aqui). O corpo humano tem uma temperatura de aproximadamente 37°C. Será que é o suficiente para liberar uma quantidade de ácido succínico a ponto de ser absorvido pela pele? Bom, a substância é moderadamente solúvel em água, então talvez um pouco de ácido succínico poderia ser solubilizado no suor. E se isso acontecer, seria a dose correta para a criança? E em dias frios, em que a criança transpira menos? Em outras palavras, não há um controle para a dose absorvida!

Lembrando que, conforme mencionado acima, parece não haver estudos que comprovem o poder analgésico da substância.

O Dr. Andrew Weil, nesse link, recomenda ouros métodos para aliviar a dor e os incômodos relacionados com a erupção dos dentinhos, como o uso de cubos de gelo feito com suco de uma ou de maçã e camomila (esse cubos devem ser envoltos e bem amarrados por uma fralda de pano limpa). Pessoalmente, acredito que a gente pode dar um mordedor para a criança, para aliviar a coceira. Claro, tem que ser um produto certificado pelo INMETRO e sem Bisfenol-A. São produtos bem baratos, normalmente custam cerca de R$10,00. É possível colocar esses mordedores no congelador por algum tempo, para ficarem geladinhos e aliviarem ainda mais.

No mesmo link, o Dr. Andrew Weil ainda menciona que algumas crianças podem ter febre baixa, gengivas inchadas e falta de apetite (acredito que é porque a comida incomoda a gengivinha já inchada) durante a erupção dos dentinhos. Mas se a febre for superior a 37,8 °C e vir acompanhada de outros sintomas, é provável que não tenha relação nenhuma com a dentição e os sintomas precisam ser investigados por um médico.

Já decidi: vou comprar um colar de ambar para o meu filho. Quais os cuidados que devo tomar?

Se você decidiu que quer comprar um colar de âmbar para o seu filho, precisa tomar alguns cuidados muito importantes. Pesquisando a respeito, cheguei a três pontos muito importantes, que listo em seguida:

1) Segurança

Bebês colocam tudo na boca. E eventualmente vão querer colocar o colar, se conseguirem arrancar do pescoço. Dessa maneira, cada conta de âmbar do colar deve ser individualmente presa. Ou seja, haverá um nó entre cada conta, para evitar que as contas se esparramem caso o colar arrebente.

Outra coisa: tome cuidado para o colar não ficar muito apertado no pescoço do bebê. Se o seu colar for de um fabricante sério, certamente você terá a possibilidade de ajustá-lo para que fique de maneira segura no pescoço do seu bebê. E se o fabricante for sério, o colar deve se romper em caso de uma puxada mais brusca, por razões de segurança também.

Uma opinião pessoal minha: acho que o colar deve ser removido durante o sono noturno ou durante a sonequinha. Eu não tenho coragem de deixar meu filho nem com o babador durante o sono, imagine com um colar.

Em outras palavras: esse colar não deve ser usado sem a supervisão de um adulto!

2) Higiene

O colar precisa ser higienizado, assim como a pele que fica em contato com ele. Na minha opinião, se esse cuidado não for tomado teremos o cenário perfeito para a proliferação de fungos e bactérias. Sendo assim, precisa ser removido na hora do banho. Para limpá-lo, basta colocar o colar numa bacia com água morna e algumas gotas de sabonete líquido neutro. Não use nada abrasivo, pois pode danificar a gema. Seque com tecido de algodão. Para deixar a pedra bonita, basta besuntar um pouquinho de azeite de oliva. Vi essas informações nesse link do WikiHow e essas dicas valem para qualquer jóia com âmbar.

3) Autenticidade do Âmbar

Eu criei um pequeno mal estar em um grupo de mães ao falar sobre meu ceticismo e a questão da autenticidade do âmbar. Acontece que uma das mães do grupo vendia o tal colar, risos. Acreditem em mim, claro que eu não disse que aquela vendedora comercializava colares falsificados. Apenas compartilhei algumas informações que coletei em pesquisas, com o objetivo de ajudar a identificar se trata-se de âmbar verdadeiro ou falso.

Atualmente qualquer gema é falsificada. Numa busca rápida em sites chineses de compras, é possível encontrar colares de esmeralda por preços baixíssimos, que evidentemente não se tratam de esmeraldas verdadeiras. O mesmo ocorre com o âmbar, que apesar de ser mais barato que uma esmeralda, não é extremamente barata: um bracelete simples pode custar cerca de 60 dólares.

E como fazer para verificar se o âmbar é verdadeiro? Há alguns testes muito simples:

  • Teste do fogo: se não for âmbar, mas sim uma resina/plástico falsificada qualquer, ela vai derreter quando tiver contato com a chama de um isqueiro. O lugar ficará enegrecido e você sentirá um cheiro característico de plástico queimado. Se for âmbar mesmo, ao contato com a chama do isqueiro, a gema vai liberar um odor agradável. Tanto que o âmbar é muito utilizado como incenso.
  • Teste do atrito: se for âmbar verdadeiro, ao esfregar a gema várias vezes em um tecido macio, a gema ficará eletrostaticamente carregada. Isso significa que ela vai atrair pequenos “pedacinhos de papel”, como na experiência da caneta que a gente esfrega no cabelo. Se for âmbar falso, ele não ficará eletrostaticamente carregado e pode até ficar meio “derretido”, com a consistência alterada após o atrito
  • Teste da acetona:  esse teste é complicado de fazer, porque os removedores de esmalte comercializados atualmente não possuem acetona em sua formulação e talvez o teste torne-se inconclusivo por essa razão, mas não custa tentar. O âmbar falso é atacado pela acetona, ficando opaco, isso porque provavelmente trata-se de um plástico coberto por um verniz e a acetona irá atacá-lo. O âmbar verdadeiro não sofre nenhum efeito ou dano. Basta pingar algumas gotinhas de acetona na gema para verificar.
  • Teste da água salgada: o âmbar é leve, flutua na água salgada. Tanto que é encontrado assim no Mar Báltico, flutuando e é “empurrado” para a praia. Faça uma solução de 2 partes de água e 1 parte de sal. Se flutuar, é âmbar verdadeiro!
  • Teste do sabor:  lave bem a peça com água e sabão neutro. Em seguida, lamba a peça algumas vezes. Dizem que o âmbar deixa um sutil “formigamento” na língua. Achei esse teste curioso e não sei se faria. Li sobre ele nesse link.

Lembrando que para que tenha o tal ácido succínico, precisa ser âmbar do Mar Báltico. Um vendedor sério certamente terá certificados de autenticidade e garantia.

Diferença entre âmbar e copal

O copal é muitas vezes usado como substituto do âmbar na joalheria, por ser mais barato. É uma resina fossilizada, assim como o âmbar, porém é mais jovem. Além disso, em minhas pesquisas percebi que o copal é mais comum na América Central e a África, tendo sido usado em ornamento produzidos pelos maias e ainda hoje é utilizado em artesanato mexicano.

O copam também é uma resina proveniente de árvores. Ela pode acabar encapsulando alguns insetos, assim como o âmbar.

O copal também é uma resina proveniente de árvores. Ela pode acabar encapsulando alguns insetos, assim como o âmbar. Fonte: Wikimedia Commons

Muitas vezes, o copal é confundido com o âmbar.  Com o teste da acetona (que mencionei anteriormente), é possível distinguir se trata-se de copal ou âmbar. O copal é atacado pela acetona, fica opaco. Já o âmbar não fica.

Diferença entre âmbar e âmbar gris 

O âmbar gris ou âmbar cinza, como o nome já sugere, é uma substância com a coloração cinzenta. É uma substância gordurosa que vem do intestino da baleia (eca!). Trata-se de uma secreção biliar que encapsula materiais não digeridos pelo organismo da baleia, para evitar ferimentos nas entranhas do animal. É eliminado pelas fezes da baleia. A espécie de baleia que mais produz âmbar gris é a cachalote.

A substância tem um aspecto acinzentado, marmóreo e em nada se parece com o âmbar que estamos mencionando ao longo do texto. Não é usado como jóia, porém foi por muito tempo usado na indústria de perfumes como agente fixador .

Também é encontrado boiando nos mares e tem uma flutuabilidade maior que a do âmbar (gema).

Ambar gris: olha para a cara disso! Eca rsrs! Fonte: Wikimedia Commons

Ambar gris: olha para a cara disso! Eca rsrs!
Fonte: Wikimedia Commons

Conclusão

O uso do colar de âmbar para amenizar dores e incômodos no nascimento dos dentinhos ou para minimizar efeitos de enxaqueca em adultos, não tem efeito comprovado pela ciência moderna.

Aparentemente, seu uso disseminou-se com a internet e com o fato de que algumas celebridades usarem em seus filhos.

Pessoalmente (isso não é um trabalho acadêmico, posso dar minha opinião) acho perigoso colocar um colar de contas no bebê. Claro que se você comprar uma jóia de qualidade, fabricada levando em conta a segurança (contas presas individualmente e outros pontos que mencionei anteriormente), esse risco é reduzido.

Entretanto, se ainda assim decidir comprar para seu bebê usar, é importante observar as questões de segurança e autenticidade da gema, mencionadas ao longo desse texto.

Apesar do uso do colar de âmbar não ser comprovado pela medicina moderna, se a pessoa escolheu usá-lo, merece adquirir um produto de qualidade e autêntico. Ser mãe é fazer escolhas e cada mulher tem sua história e suas opiniões sobre a maternidade.  Fabricantes sérios vão apresentar certificado de qualidade e de origem e certamente o artesão que fez o colar terá como apresentar esse certificado para você, pois ele deve ter recebido do seu fornecedor.

Eu talvez não deveria escrever isso, mas é meu blog e acho que tenho direito de dar uma opinião pessoal (isso aqui não é um trabalho acadêmico!). Acredito que as mães tem seguido muitos “modismos” divulgados pela internet, sem raciocinar sobre a utilidade desses hypes. A internet apresenta diversas opções para nós, mães, a gente não precisa aceitar e acatar todas as opções. É necessário observar, dentro daquilo que é apresentado, o que melhor serve para o seu estilo de vida. Eu tenho a impressão que as pessoas estão ficando cada vez mais ansiosas, porque sentem a necessidade de seguir todas as tendências apresentadas sobre todos os segmentos da vida. E não é por aí! Vamos maternar com calma e tranquilidade, pensando com carinho sobre o que é melhor para você e sua família.

Bibliografia

Boa parte da bibliografia acabei apresentando como links, ao longo do texto. Abaixo coloco outras fontes de consulta para a elaboração desse post: