Perguntas e respostas sobre previsão do tempo



Fonte: Free Digital Photos
Fonte: Free Digital Photos

Eu estava revirando alguns arquivos do meu computador e encontrei um texto que mandei para um jornalista. Acredito que foi para algum jornalista do Portal Terra, mas não tenho muita certeza (foi o Terra sim, o Vinícius achou o link, obrigada 😘) , pois o arquivo tem mais de 3 anos! Comecei a ler e percebi que o conteúdo era muito interessante e muito provavelmente o jornalista não deve ter usado na íntegra. Então resolvi compartilhar aqui com vocês.

Como trata-se de uma série de perguntas e respostas sobre previsão do tempo, nomeei o post como “Perguntas e respostas sobre previsão do tempo”. Porque sou super criativa 😂.

Vocês vão reparar que ao longo do texto eu vou linkar outros textos daqui do Meteorópole mesmo. Na versão original, enviada para o jornalista, também está assim. O blog tem me servido de imenso apoio para quando preciso explicar algo. Por isso, sugiro aos professores que mantenham um blog. Uma fanpage no Facebook também ajuda, mas o blog permite separar os posts por assunto e deixar tudo melhor diagramado. E se você tem talento e um equipamento mínimo, pode criar vídeos para o Youtube ou podcasts. Morro de vontade de ter um canal no Youtube (e até tenho alguns vídeos gravados), mas me falta tempo para gravar os vídeos. Eu precisaria sentar, escolher um assunto, gravar com calma diante de uma câmera mais ou menos razoável (até tenho). Para mim, escrever flui de maneira melhor e é mais prático.

Agora sem mais delongas, vamos para as perguntas e respostas.

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Como é feita a previsão do tempo no Brasil? E qual a diferença de tecnologia para outros países?

A previsão do tempo no Brasil é feita de maneira muito semelhante a feita em outros países. A atmosfera, como tudo no universo, segue as leis da física: leis da Termodinâmica, leis de Newton, etc. Essas leis naturais podem ser expressas em equações matemáticas. E essas equações podem ser resolvidas.

Conseguimos prever o que vai acontecer na atmosfera resolvendo as  equações dessas leis da física. Essas equações precisam ser resolvidas para todos os locais do planeta. São muitos cálculos, matemática muito pesada. Institutos de pesquisa ao redor de todo o mundo (incluindo institutos e colaboradores brasileiros) desenvolvem programas de computador chamados modelos meteorológicos. Esses modelos meteorológicos possuem essas equações escritas. Os meteorologistas programam o computador para resolver essas equações.

E não é qualquer computador! È necessário um computador rápido, com alta capacidade de processamento. São computadores enormes, com muitos processadores, para que os cálculos sejam feitos o mais rapidamente possível. Se usarmos um computador comum, desses que temos em casa ou no escritório, é provável que uma previsão para daqui 12h demore mais de 12h para ficar pronta, e já não terá mais importância.

Só que para resolver estas equações, precisamos de informações sobre a condição atual da atmosfera.  Para fazer uma previsão do tempo para daqui 12h, eu preciso contar ao computador como a atmosfera está agora: qual a temperatura no instante atual nos diversos pontos da minha área de interesse, onde está chovendo agora, qual a umidade relativa dos meus pontos neste momento, etc.  E é aqui que entra a diferença entre os países! Os EUA, por exemplo, possuem satélites meteorológicos monitorando seu território, possuem muitos radares meteorológicos, possuem mais estações meteorológicas, etc. Com mais informações sobre a condição atual, melhor será minha previsão do futuro. É exatamente isso que falta no Brasil: dados. Faltam estações meteorológicas, pontos de medição.

Os modelos meteorológicos e até mesmo os supercomputadores são basicamente os mesmos tanto aqui quanto em outros países. Hoje em dia é bem mais fácil adquirir um computador de última geração. O que falta mesmo é investimento em medições. Não temos um satélite meteorológico, por exemplo.

Eu escrevi alguns posts sobre o assunto aqui no Meteorópole, e destaco dois textos em particular, que servirão de apoio para essa postagem:

Por que às vezes essa previsão é errada?

Essa história de ‘previsão errada’ é bastante cíclica e sempre re-aparece no verão, quando a previsão do tempo é de fato mais difícil de ser realizada.

Em primeiro lugar, trata-se de uma previsão e não de uma observação. Os modelos meteorológicos permitem que a gente consiga ter uma ideia do comportamento da atmosfera, mas não uma certeza. E isso deve-se a natureza caótica da atmosfera. Eu vou fazer um paralelo com uma viagem de carro.

Vamos supor que você tenha que ir a um lugar localizado a 70km de distância de sua casa. Se seu carro desenvolver uma velocidade média de 70km/h, você chegará no local em 1h, supondo que a estrada que você pegará permita uma velocidade de até 70km/h. Só que muitas coisas podem acontecer pelo caminho: congestionamentos, o carro pode quebrar, você pode parar para ir ao banheiro, etc. Essas coisas não estavam previstas, são acontecimentos aleatórios.

Do mesmo modo, a previsão dá uma ideia do que pode acontecer. Mas algum acontecimento aleatório que não foi bem simulado matematicamente pelo modelo meteorológico pode acontecer. E quando isso ocorre, temos um erro. Além disso, o modelo meteorológico ‘divide’ a área onde a previsão sera feita em diversos quadradinhos. Vamos supor que um certo modelo meteorológico tenha quadradinhos espaçados de 1km  em 1km (há modelos com espacinhos maiores e outros com espacinhos menores, depende da aplicação). O fato é que muita coisa pode acontecer no espaço de 1km, muita coisa que o modelo meteorológico não consegue prever. Essa é uma das razões que faz com que a previsão de chuva dê errado. O modelo prevê chuva em diversas áreas sobre São Paulo, mas numa cidade tão grande como a nossa, fica complicado determinar exatamente em qual bairro vai chover.

Apesar desta limitação computacional que mencionei acima (que infelizmente é normal, não é um problema apenas dos computadores brasileiros), se tivéssemos dados, se tivéssemos mais pontos com medidas (mais estações meteorológicas e mais radares), certamente a previsão seria melhor. Sendo assim, o grande problema mesmo é a falta de dados. E muitas vezes até existem dados, mas por razões políticas eles não são compartilhados e não entram no modelo meteorológico durante o processo de previsão do tempo.

Mencionei um pouco mais sobre o assunto nesse post.

Há 30, 40 anos atrás a tecnologia disponível não era tão eficiente, imagino que devia ser bem complicado definir uma previsão à longo prazo. O que mudou de lá para cá?

Os meteorologistas do passado contavam com os dados medidos (estações meteorológicas, informações das forças armadas, etc) e com a experiência. Os meteorologistas de hoje ainda usam a experiência, claro. Mas no passado ela era essencial. Com esses dados medidos, os meteorologistas desenhavam a mão cartas sinóticas, que possuem informações sobre as variações de pressão e vento. Através destas cartas sinóticas e de sua experiência, determinavam como o tempo de uma região iria variar.

Quando falo em experiência, notamos que até um agricultor tem sua experiencia. Ele conhece os sinais que indicam a mudança no tempo de uma região. Sabe quando vai chover, observando a direção do vento e até o comportamento dos animais. Ele também sabe o clima daquela região, pois sabe a melhor época para plantar/colher, já que por observação (ao longo dos anos morando naquela região), conhece o regime de chuvas do local. O meteorologista precisa saber um pouco disso e no passado isso era essencial, já que tinham bem menos estações meteorológicas, não existiam satélites ou radares. E os computadores ainda estavam se desenvolvendo.

Aliás, os satélites meteorológicos e a melhora na capacidade de processamento dos supercomputadores foram essenciais para a melhoria da previsão do tempo. Imagine que a gente precisa de informações do mundo inteiro para iniciar a previsão. Há regiões em que não temos estações meteorológicas, por exemplo, no meio do Oceano Atlântico. O satélite permite monitorar essas áreas sem dados.

 

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 Link para a reportagem que utilizou essas informações.