Nevou em São Paulo: um toque de literatura



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Minha resposta é: não, não há registros de neve na cidade de São Paulo. Há registros de neve em pontos mais altos do Estado de São Paulo, como na cidade de Campos de Jordão. No entanto, desde que começaram a observar sistematicamente o tempo na cidade de São Paulo, não há nenhum registro de ocorrência de neve.

Pode até ser que tenha ocorrido neve, antes das observações sistemáticas. Por isso tomei todo cuidado ao redigir a resposta: não que nunca tenha ocorrido, mas nunca foi registrado.

No entanto,  há inúmeras lendas sobre a ocorrência de neve em São Paulo. O dia 25/06/1918 é muito mencionado como um dia em que o fenômeno teria ocorrido, mas já expliquei nesse post que não houve registro.

No mesmo post, recebi alguns comentários curiosos. Uma pessoa disse que “acredita de coração” que a neve ocorreu nesse dia. Mas meteorologia não funciona com crenças do coração ou intuição. Precisamos de registros sistemáticos, feitos por profissionais capacitados e treinados. Entretanto, recebi um comentário muito bacana do leitor Thiago:

Olá! Muito legal seu texto. Acho que esse artigo aqui da Ilustríssima (Folha de S. Paulo) tem a ver com essa notícia de que nevou em 25 de junho de 1918, dá uma olhada:

http://arte.folha.uol.com.br/ilustrissima/2015/12/20/oswald-de-andrade/

Thiago, muito obrigada! Que matéria maravilhosa. Que aula de história e literatura. Fazendo um breve resumo sobre a matéria, ela fala das pesquisas de José Roberto Walker, historiador e escritor paulistano. Walker queria descobrir onde ficava a garçonnière de Oswald de Andrade. No pequeno apartamento/studio, Oswald se reuniu com outros intelectuais e expoentes do Modernismo. Eles tinham um caderno, um diário da  garçonnière, que funcionava como um blog colaborativo dos dias de hoje. Rascunhos, esboços, poemas, piadas… tudo era escrito nesse diário.

Walker pesquisou as numerações antigas das ruas do centro velho, leu material escrito por Oswald e outros frequentadores do endereço, comparou as informações e descobriu que o prédio onde ficava a garçonnière ainda está de pé, embora mal cuidado e decadente. Uma das personagens mencionadas na reportagem é Maria de Lourdes Pontes, a musa da garçonnière, também conhecida por vários pseudônimos (Miss Cyclone, Miss Tufão, Miss Terremoto, Tufãozinho e, no final, Gracia Lohe). Essa moça é surpreendente, muito a frente de seu tempo. Seu comportamento, chocava a sociedade paulistana da época. Eu diria que essa moça era tão vanguardista que ainda hoje sua liberdade chocaria alguns lares brasileiros.

E claro, me apaixonei por Daisinha. Infelizmente a história é trágica, ela acabou morrendo aparentemente vítima de um aborto mal sucedido. Sim, olha há quanto tempo essa discussão é presente (se você tem curiosidade sobre minha opinião sobre o assunto, leia aqui).

Á direita, Maria de Lourdes Pontes, importante figura do Modernismo (a foto é da segunda década do século XX). Imagem retirada desse texto indicado por um leitor, que fala sobre a história dessa mulher incrível.
Á direita, Maria de Lourdes Pontes, importante figura do Modernismo (a foto é da segunda década do século XX). Imagem retirada desse texto indicado por um leitor, que fala sobre a história dessa mulher incrível.

 Eu antecipei que iria falar de Daisinha nesse post sobre o frio do dia 12 de junho de 2016 =).

Daisinha era amante de Oswald e assídua frequentadora da garçonnière, junto com outros intelectuais da época. Daisinha mesmo, apesar de muito jovem (aparentemente começou a frequentar o studio com 17 anos), era uma dessas intelectuais. Ao ler a reportagem da Folha, senti vontade de fazer parte daquele grupo de pessoas, tão a frente de seu tempo.

Walker fez descoberta fantástica sobre a garçonnière e isso o moveu a escrever um romance inédito: “A Neve em uma Manhã de São Paulo”. Ele se baseou em documentos e fatos históricos para elaborá-lo. Acredito que esse livro ainda não esteja concluído (pelo que eu pesquisei), mas já fiquei bastante curiosa.

E porque esse título? Porque as pessoas REALMENTE acreditam que em 25 de junho de 1918 houve queda de neve na cidade de São Paulo. Vou extrair um trecho da matéria:

O título se refere ao dia real de 25 de junho de 1918, quando a temperatura caiu para 3,2 graus negativos e nevou na cidade. Ao longo do dia gelado, segundo o pesquisador, provavelmente Oswald e Cyclone (pronunciava-se com acento na primeira sílaba) se amaram com uma intensidade nunca reprisada na sala de pé-direito alto, desprovida de lareira, estirados sobre o tapete macio e amparados pelas grandes almofadas. O ápice, porém, seria sucedido por uma tragédia que vincaria o futuro de Oswald e sua literatura, marcada pela ousadia —mas também pela culpa.

A matéria fala numa temperatura de -3,2°C. No Observatório da Avenida, ou Observatório de São Paulo, que era localizado na Av Paulista (ao lado de onde hoje é o MASP), foi registrado -3,0°C ao relento. A página do caderno de observação está reproduzida abaixo:

Lembrando que falei desse assunto nesse post e destaquei na figura a ocorrência de geada (e não de neve).  A ocorrência de geada pela madrugada ou manhã está relacionada com noites sem nebulosidade, quando há maior perda radiativa.

Neve e geada são fenômenos diferentes! No entanto, pessoas leigas podem confundir, ao acordar pela manhã e ver o gramado totalmente coberto por gelo. Além disso, neve é um fenômeno que está associado a passagem de uma frente fria, um fenômeno de maior escala. Dessa maneira, teríamos nuvens cobrindo uma grande faixa do Estado de São Paulo e provavelmente teríamos registrado neve nos pontos mais altos da cidade (onde a temperatura é mais baixa). Assim, a neve provavelmente teria ocorrido e sido registrada na Av. Paulista. A ausência de nuvens no registro da caderneta mostra exatamente o contrário.

Ok, não quero ser estraga-prazeres da literatura. Na imaginação do escritor e no coração dos apaixonados pelo Modernismo pode ter ocorrido neve e isso pode ser inspiração para lindos devaneios e romances de época. Na imaginação do escritor, tudo é possível. E isso é lindo na ficção. Mas de acordo com os registros meteorológicos, não houve neve em 25/06/1918.