Super-tempestade em Campinas-SP: tornado e microexplosão



Casas destelhadas no bairro do Taquaral, em Campinas-SP. Foto de 05/06/2016. Fonte: G1
Casas destelhadas no bairro do Taquaral, em Campinas-SP. Foto de 05/06/2016. Fonte: G1

Mudei minha programação de posts para falar um pouquinho do fenômeno meteorológico que aconteceu em Campinas-SP. Vou usar as notícias do site G1 para termos uma espécie de ‘linha do tempo’ do que aconteceu.

Um fenômeno meteorológico extremo aconteceu em Campinas-SP na madrugada do dia 5 de junho (último domingo). Até aquele momento, os técnicos da Defesa Civil da cidade afirmaram que havia chovido 92,7mm em 72h. Para se ter uma ideia, a média histórica de chuva fica entre 40 e 50 mm para a localidade. Os ventos durante a madrugada do dia 5 de junho ultrapassaram os 100km/h em alguns pontos da cidade e durante o domingo, a cidade contabilizou a destruição em diversos bairros. Muitos raios foram registrados também.

A grande dúvida era: tratou-se de um tornado ou de uma microexplosão? Ou será que foram os dois? Os dois fenômenos são muito parecidos, ambos se originam de nuvens de tempestade (Cumulonimbus – Cb) e os dois causam muitos danos. A seguir, vou falar da diferença entre os dois fenômenos.

A tempestade que atingiu Campinas foi provocada por uma área de forte instabilidade com se diz em Meteorologia. Quando os meteorologistas falam de área de instabilidade, referem-se a uma região da atmosfera em que há condições de desenvolvimento rápido de tempestades violentas.

E quando a gente fala em tempestade violenta, se referem a fenômenos com chuva muito forte em um pequeno intervalo de tempo, com descargas elétricas e em alguns casos podendo conter granizo e vir a desenvolver fenômenos como microexplosão (microburst ou downburst) ou tornado.  E sempre que a gente fala em tempestade violenta, estamos falando em nuvem Cumulonimbus (Cb):

Nuvem Cumulonimbus com raio. Fonte: David Pepper wiki
Nuvem Cumulonimbus (Cb) com raio. Fonte: David Pepper wiki

Para quem é novo no blog ou em pesquisas sobre meteorologia: as nuvens possuem nomes. Clique aqui para aprender.

 

Os tornados se originam na base de uma nuvem de tempestade (nuvem Cb), que é a única que pode provocar raios e trovões, pancadas fortes de chuva, queda de granizo e ventos intensos abaixo da sua base. O fenômeno se inicia quando parte da base da nuvem começa a girar devido ao vento, criando um pequeno funil giratório de nuvem, que vai se estendendo e aumentando de diâmetro se as condições forem favoráveis, atingindo diâmetros de algumas dezenas de metros a até 2.000m, que são os maiores.

O formato afunilado e a rápida rotação do funil, faz com que no seu interior, a pressão atmosférica fique menor do que a pressão atmosférica na parte externa ao redor do funil.  Então, a diferença de pressão entre o interior e exterior do funil do tornado, faz com que haja uma forte sucção do que houver ao redor, arrancando árvores, destruindo telhados e mesmo arrastando facilmente, até mesmo um automóvel de 1.200 kg!

Um tornado categoria F5 em Elie, Manitoba, Canadá. O tornado em sí é o estreito funil que vai da nuvem ao solo. A parte inferior deste tornado está rodeada por uma nuvem de pó translúcida, que foi levantada pelos fortes ventos do tornado na superfície. Fonte: Legenda/Imagem da Wikimedia Commons
Um tornado categoria F5 em Elie, Manitoba, Canadá. O tornado em sí é o estreito funil que vai da nuvem ao solo. A parte inferior deste tornado está rodeada por uma nuvem de pó translúcida, que foi levantada pelos fortes ventos do tornado na superfície. Fonte: Legenda/Imagem da Wikimedia Commons

 

Para mais informações sobre a formação dos tornados, leia esse post.

O outro fenômeno denominado de “micorexplosão” ou microburst, é causado pelo fluxo descendente do ar sob a base da nuvem, que frequentemente pode atingir até mais de 100 km/h, e ao atingir o solo é forçado a desviar para as laterais, provocando uma violenta rajada de vento que pode derrubar facilmente árvores, arrancar telhados, arrastar e até mesmo tombar, veículos pesados.

Tanto o tornado quando a microexplosão são fenômenos de curta duração e são bem pontuais. Nas notícias sobre o ocorrido em Campinas, a gente nota que a destruição maior ocorreu em apenas uma pequena área da cidade. Na atmosfera, fenômenos menores duram menos tempo e fenômenos maiores, que tem mais energia, duram mais. Tornados e microexplosões estão compreendidos entre a microescala e a mesoescala (depende do tamanho e da duração) e isso quer dizer que são fenômenos “pequenos”, embora destrutivos. Eu falei sobre escalas na atmosfera nesse post.

Um nome mais geral para microburst é downburst. Na verdade, microburst é um downburst pequeno e ainda existe o macroburst, que é um downburst maior. A imagem abaixo (créditos: NASA/Wikimedia Commons) ajuda a compreendemos o fenômeno:

Microburstnasa

Na maioria das vezes o fenômeno não é visível (não conseguimos ver a nuvem “descendo”), mas a concepção artística é apenas para indicar o fluxo de ar. O fluxo de ar intenso vem de baixo pra cima (vem da nuvem Cb em direção ao solo) e se espalha de maneira radial, fazendo estragos consideráveis.

No evento de Campinas, só poderia ser caracterizado como “tornado”, se houver comprovação da existência do funil característico. No entanto, o fenômeno ocorreu de madrugada, então fica difícil saber o que aconteceu, já que provavelmente ninguém observou “com seus próprios olhos”.

Outra caraterística  para  comprovar um tornado, é observar a trajetória do seu rastro, que geralmente é irregular. enquanto que na microexplosão, a destruição é causada por um fluxo horizontal de ar, como se fosse “uma onda”, levando tudo o encontra pela frente.

Microexplosões e tornados não são fenômenos muito frequentes aqui no Brasil, então é natural que os meteorologistas fiquem em dúvida. Muita gente “atira pedras” no profissional, mas precisamos ter calma e compreensão. Assim como um médico que atua em um determinado local há muitos anos e está acostumado com as doenças típicas dos habitantes daquele local, o mesmo ocorre conosco. Um meteorologista que atua em São Paulo-SP há muitos anos talvez não tenha muita familiaridade com a seca do Sertão Nordestino, por exemplo. Lembro que existiu uma polêmica quando ocorreu o Furacão Catarina, pois havia uma dúvida se trava-se de um ciclone extratropical ou de um furacão. E essa dúvida tem um fundamento, já que furacões nunca haviam ocorrido na costa brasileira até aquele momento (e até hoje o Catarina foi o único registrado).

Por essa razão, inicialmente, o prefeito de Campinas afirmou que se tratava de um tornado. Claro que ele não tirou essa informação ‘do nada’. Provavelmente os meteorologistas e outros técnicos devem ter cogitado isso, já que, como vimos, são fenômenos bem parecidos. E imaginem a pressão da imprensa por informações! Mas depois da análise de dados e da documentação fotográfica por parte dos técnicos e meteorologista, concluiu-se que tratava-se do fenômeno de microexplosão.  Muitas vezes, nosso trabalho se assemelha ao trabalho de um perito criminal. A criminosa, é a Dona Atmosfera (com um microburst, em Campinas).

A importância da análise das imagens é bastante importante para determinar os danos e compreender qual fenômeno aconteceu na região. Também no fim de semana, a cidade de Jarinu (também no interior paulista) foi também atingida por ventos fortes. Até a conclusão desse post, os meteorologistas estavam avaliando se o estrago foi causado por um tornado ou microexplosão.

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Gostaria de agradecer ao Prof. Mario Festa (além de professor, é colega e amigo!) que com sua experiência e didática me ajudou a escrever esse post. E gostaria também de parabenizar todos os meus colegas de profissão que atuam diretamente com previsão de tempo de curto prazo, atendendo a imprensa e que muitas vezes ficam sob uma extrema pressão para dar informações e conclusões que ainda não existem.