Um pouco mais sobre downburst/microburst e granizo



Quando estamos falando de um acontecimento recente (como o caso da microexplosão em Campinas), é natural que mais informações cheguem a todo momento. O objetivo do Meteorópole não é caçar tempestades e correr contra o tempo! O que pretendo aqui é fazer uma análise dos fatos, tentar esclarecer conceitos e discuti-los, com o objetivo de sempre usar os acontecimentos como gancho para divulgação científica em Meteorologia!

Antes de falar mais sobre o fenômeno de downburst/microburst, quero mostrar uma foto que minha cunhada me mandou. Ela mora na região de Campinas e uma de suas amigas (moradora da cidade) enviou para ela:

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A imagem acima é do domingo (dia 05) de noite e observem o tamanho do granizo! Supondo que a amiga de minha cunhada tenha dedos parecidos com os meus, deduzo um diâmetro de algo entre 3,5cm e 4,0cm aproximadamente. Como comparação, veja a imagem abaixo. Trata-se de um granizo registrado na Estação Meteorológica do IAG-USP em 05 de fevereiro de 2016 e divulgada no release de Fevereiro/2016.

Granizo observado na Estação Meteorológica do IAG-USP em 05 de fevereiro de 2016. Imagem de Edvaldo Gomes.
Granizo observado na Estação Meteorológica do IAG-USP em 05 de fevereiro de 2016. Imagem de Edvaldo Gomes.

Ou seja, o granizo que ocorreu durante a tempestade severa da madrugada do último domingo (05/06/2016) é significativamente maior que um granizo de uma tempestade ‘menos severa’, digamos assim. E por menos severa, falo de uma tempestade apenas com chuva intensa e raios, em que não há microexplosão e/ou tornado. Outro exemplo: em 3 de Abril de 2014, a cidade de Denton, no Texas, foi atingida por uma tempestade severa, com tornado e granizo. Olhem o tamanho do granizo que precipitou durante essa tempestade:

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Granizo em Denton, Texas, em 03 de Abril de 2014. Fonte: Strange Sounds

Como eu comentei no post anterior, em situações de tempo severo, podemos ter tudo o que uma nuvem Cb pode nos dar: chuva forte, raios, granizo, downburst, tornados, etc.  Nuvens Cb (Cumulonimbus) são nuvens de intenso desenvolvimento vertical, ou seja, são bastante “profundas”, ocupando boa parte da troposfera. Quanto maior e mais constante o movimento ascendente, mas é possibilitado que as gotas d’água se movimentem verticalmente no interior da nuvem, favorecendo a formação de granizo. Em um post recente, expliquei melhor a formação do granizo.

Voltando a questão do microburst, mencionei também no post anterior que nem sempre ele é visível, tratando-se apenas de uma rajada de vento forte. Esse é o dry microburst ou microexplosão seca. No entanto, o forte vento vertical pode trazer consigo também muita água de uma vez só, como se um balde fosse derramado bruscamente de uma altura elevada. Esse é o wet microburst ou microexplosão úmida.

Dry microburst

Quando a chuva precipita diretamente da base da nuvem (não vem de alturas mais elevadas da nuvem) ou se mistura com ar seco, ela começa a evaporar enquanto cai. No processo de evaporação, o ar se resfria. O ar frio é mais pesado, portanto desce em direção a superfície. E essa descida é bem acelerada, e vai aumentando sua aceleração conforme vai se aproximando do solo (que é o que acontece quando qualquer objeto cai nas proximidades da superfície terrestre).

Assim que o ar frio chega na superfície, ele diverge em todas as direções (radialmente, como mencionei no post anterior).

Wet microburst

O processo de formação de um wet microburst é bem semelhante ao do dry microburst, a diferença é que junto com a parcela de ar frio que desce em alta velocidade, desce também um total bem considerável de chuva. Ou seja, o ar frio acaba arrastando chuva com ele. E isso nos possibilita observar algo assustador, embora interessantíssimo:

O vídeo acima me foi indicado pelo Vinícius, do Monolito Nimbus (quem gosta do formato do Meteorópole vai gostar desse blog!). No vídeo, a gente consegue ver um wet microburst clássico, com muita chuva descendo junto com as rajadas de vento.

A microexplosão seca normalmente vai apresentar ventos com intensidade maiores, já que ao arrastar a água, a intensidade do vento fica menor. Entretanto, os dois tipos de microexplosão são potencialmente destrutivos.

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Espero que tenham gostado do post. E para quem quiser saber mais sobre a matemática desses fenômenos, clique nesse texto da Wikipedia. Está bem escrito, na minha opinião.