Aquecimento global: consenso de 97% na comunidade científica

Fonte: Free Digital Photos

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No post anterior, mencionei o assunto mudanças climáticas bem brevemente e relembrei de um texto de Martin Wolf  (falei dele aqui). Vou mencionar um trecho abaixo:

Uma análise dos resumos de 11.944 artigos científicos revistos por pares, publicados entre 1991 e 2011 e redigidos por 29.083 autores, conclui que 98,4% dos autores que adotaram uma posição confirmaram o aquecimento global provocado pelo homem (antropogênico), 1,2% o rejeitaram e 0,4% se disseram incertos. Análises alternativas dos dados renderam proporções semelhantes.

Uma resposta possível consiste em insistir que todos esses cientistas se equivocaram. Isso é concebível, é claro. Cientistas já se equivocaram no passado. Mas rejeitar este ramo da ciência unicamente porque suas conclusões são tão incômodas é irracional, embora seja compreensível.

Isto nos conduz a uma segunda linha de ataque: insistir que esses cientistas foram corrompidos pelo dinheiro e a fama. A este argumento eu respondo: será mesmo? É plausível que uma geração inteira de cientistas tenha inventado e defendido um logro evidente para obter ganhos materiais (modestos), ciente de que a fraude será descoberta?

Leia o texto na íntegra aqui. O texto argumenta que os “céticos do clima” já venceram, uma vez que os resultados são bem robustos, correspondem a conclusões da maioria dos cientistas e já são amplamente conhecidos pela população leiga. No entanto, os governantes precisam agir. É necessário implantar políticas para limitar as emissões dos gases de efeito estufa.

Uso da palavra cético

Não lembro qual negacionista do aquecimento global começou com isso, mas muitos deles se auto-intitulavam “céticos do clima”. Cética é a pessoa que questiona tudo o que é apresentado, mas que aceita evidências. Os tais negacionistas não são céticos, uma vez que rejeitam evidências científicas. É por isso que eu adoro o subtítulo do site Skeptical Science:

skeptc

“Tornando-se cético sobre o ceticismo do aquecimento global”

Ou seja, os céticos do clima são aqueles que recebem e avaliam as evidências científicas.

Metodologia e resultados do artigo de Cook et al (2013) 

E a análise mencionada por Martin Wolf trata-se do artigo de Cook et. al (2013). Conforme mencionado anteriormente, o artigo fez uma revisão de mais de 11.944 resumos de artigos científicos revisados por pares, na área de climatologia. É importante destacar a metodologia da pesquisa.

Voluntários que contribuem para o site Skeptical Science foram contatados. Os autores do artigo fizeram uma busca no ISI Web of Science por artigos científicos usando as palavras chave  ‘global warming’ e ‘global climate change’. Em seguida, criaram uma tabela de classificação, com uma numeração que indicava diferentes graus de endosso, neutralidade ou diferentes graus de rejeição ao aquecimento global por causas antropogênicas.

Os resumos desses artigos foram distribuídos para os 12 voluntários avaliadores do  Skeptical Science. É interessante mencionar que os avaliadores tiveram acesso apenas ao título do artigo e ao seu resumo, ou seja, eles não souberam quem eram os autores dos artigos. Isso diz muita coisa. Seres humanos são sujeitos a picuinhas e antipatias e eliminando os nomes dos autores, a neutralidade na avaliação ficaria mantida. E não foi apenas um avaliador para cada resumo: outro avaliador também lia o resumo, para manter o processo o mais livre possível de falhas.

Curiosidade: técnica semelhante é usada inclusive na correção das redações do ENEM. Tenho amigas que corrigem as redações e elas não tem acesso ao nome do autor. Além disso, a redação é corrigida por mais de uma pessoa, para evitar discrepâncias na nota.

Além disso, os resumos que foram classificados como ‘neutros’ com relação a opinião de que o homem é o responsável pelo aquecimento global foram re-avaliados. Isso foi importante para determinar se os autores estavam realmente “em cima do muro” ou se eles estavam dando uma olhadinha para um dos lados.

Em seguida, os pesquisadores obtiveram os e-mails dos autores de todos os artigos (muitas vezes, o e-mail é divulgado no próprio artigo) e pediram para que cada um deles avaliassem seus artigos como um todo, a partir da mesma tabela de classificação usada pelos voluntários. Isso foi importante para obter o ponto de vista de cada um dos autores, que muitas vezes não fica bem claro no artigo. Mais detalhes dessa metodologia, pode ser lida no artigo.

Como resultado, Cook et al (2013), obtiveram a seguinte tabela (que consta no artigo e foi reproduzida aqui no blog):

tabelacook

É importante aqui fazer uma distinção. De todos os 11.944  resumos avaliados, 32,6% endossam o aquecimento global antropogênico, 66,4% não tem nenhuma posição declarada sobre o assunto, 0,7% rejeitam o aquecimento global antropogênico e 0,3% estão incertos sobre isso. Considerando apenas aqueles artigos que tem uma posição sobre o assunto (ou seja, os 32,6%, os 0,7% e os 0,3%), temos que 97,1% endossam o aquecimento global e 2,9% rejeitam ou estão incertos sobre isso. E são esses 97,1% (ou 97%) que são mencionados no texto de divulgação do Skeptical Science (veja aqui). O pessoal da divulgação científica passou a chamar de ‘o consenso de 97%’. O Prof. Alexandre Costa, da Universidade Estadual do Ceará, mencionou também esse consenso em um texto do ano passado.

Observem que na tabela que reproduzi do artigo também há informações sobre o posicionamento dos autores. De maneira bem semelhante, dos 29.083 autores dos artigos mencionados, 34,8% endossam o aquecimento global antropogênico, 64,6% não tem nenhuma posição declarada sobre o assunto, 0,4% rejeitam o aquecimento global antropogênico e 0,2% estão incertos sobre isso. Considerando apenas aqueles artigos que tem uma posição sobre o assunto (ou seja, os 34,8%, os 0,4% e os 0,2%), temos que 98,4% endossam o aquecimento global e 1,6% rejeitam ou estão incertos sobre isso.

Note que há mais autores do que artigo, isso é super comum, é muito mais fácil publicar um artigo em grupo, pois você conta com as expertises de diversas pessoas, contribuições de autores de outras instituições e até de outros países. A ciência é um esforço em conjunto, as pessoas trabalham em grupo. E antes de ser publicado em uma revista científica de renome e boa classificação, um artigo ainda é avaliado por outros pesquisadores da área, para verificar se está bem escrito, se a metodologia é sólida, se não há nenhuma violação ética, etc. Claro que nem sempre há harmonia na comunidade científica, há várias discussões nos bastidores dos departamentos, dos congressos e workshops, mas normalmente essas discussões são importantes para “colocar fogo” em certos assuntos e melhorar ainda mais a pesquisa. Ou seja, aquela ideia de cientista trabalhando sozinho em seu porão isolado, é totalmente equivocada. Cientistas socializam, conversam nos happy hour dos congressos 🍻🍸🍹🍷 e quando tem um tempinho livre em seus departamentos ☕.

Apesar de haver algum otimismo com relação a opinião pública, Cook et. al (2013) afirmam que ainda há muito o que fazer, já que cerca de 57% dos norte-americanos discordam do aquecimento global como causa antropogênica ou estão completamente desinformados sobre o tema. Além disso, a mídia muitas vezes acaba confundindo a população, com propagandas contrárias (financiadas por empresas do ramo dos combustíveis fósseis) ou com debates sem cabimento, como se a questão fosse algo relacionado a opinião pessoal. Foi o que aconteceu na mídia brasileira também, quando “negacionistas” conseguiram destaque em famosos programas de TV.

Observem que esses debates infrutíferos (apenas criados para gerar polêmica) acontecem também em outras áreas. Já ouvi falar sobre debates entre criacionistas x evolucionistas também, por exemplo. Não é questão de ‘dar espaço igual para todo mundo’. A questão é que o povo precisa de educação, de conhecimento, para que o ceticismo seja a norma e debates como esses nem tenham espaço.

Vale também relembrar de um interessante link entre fé , ‘negacionismo’ e criacionismo. Comentei sobre isso nesse post.

Opinião Pública no Brasil

Cook et. al (2013) menciona, conforme escrevi nos parágrafos anteriores, a opinião pública dos norte-americanos. E no Brasil? Encontrei esse texto que menciona uma pesquisa do Data Folha. As perguntas feitas para os populares durante a pesquisa estão divulgadas aqui e o texto descrevendo os resultados, no site do Data Folha, está aqui. Vou reproduzir e destacar a pergunta n°20 da pesquisa, que pergunta se o homem tem responsabilidade no aquecimento global:

Untitled 6

Aparentemente, estamos bem melhores que os norte-americanos. Dos entrevistados, 75% concordam que o ser humano contribuem muito para o aquecimento do planeta. Acredito que aqui temos um lobby muito menor das indústrias de petróleo, comparando com os EUA, e talvez isso tenha refletido no resultado. Além disso, a Rede Globo, a maior emissora do país, não se posiciona contra o aquecimento global por causas antropogênicas. Pelo contrário, muitos dos artistas da emissora tem um discurso ambientalista e vários programas e reportagens da emissora falam abertamente sobre temas ambientais diretamente relacionados às mudanças climáticas.

Outros artigos com resultados semelhantes

Eu falei sobre alguns nessa resposta do meu Curious Cat. Como essas redes sociais tendem a sumir do dia para a noite (quase que literalmente), vou reproduzir o que escrevi nos próximos parágrafos, com algumas edições.

A existência do consenso entre os especialistas sobre o aquecimento global causado pelo homem é uma realidade. Alguns artigos a respeito:

– Doran e Zimmerman (2009) encontraram um consenso de 97%, em um levantamento feito sobre cientistas ativos em publicações em revistas climáticas;
Anderegg et al. (2010) analisou declarações assinadas publicamente apoiando ou rejeitando a causa humana como responsável pelo aquecimento global  e novamente encontrou mais de 97% consenso entre os especialistas;
Cook et al. (2013) encontraram o mesmo resultado 97% através de uma pesquisa de quase 12000 resumos em periódicos especializados no tema (esse estudo é o mais conhecido, talvez o mais completo na área e o que mencionei ao longo de todo esse post).

Além desses estudos-síntese mencionados, órgãos nacionais de ciências de 33 países diferentes endossam esse consenso. Dezenas de organizações científicas também o fazem, com exceção da American Association of Petroleum Geologists (hahaha por que será?) e até eles mesmos acabaram ficaram neutros no assunto, acredito que para não passar vergonha.

Outra coisa: os “negacionistas” não conseguem publicar nada negando definitivamente o aquecimento global em nenhum periódico revisado pelos seus pares. Assim como os criacionistas, muitos dizem que são vítimas de perseguição. Mas perseguição por parte de quem? Se eles realmente tivessem dados robustos e uma pesquisa sólida, certamente qualquer periódico teria interesse em publicar o estudo.

A propósito, há semelhanças muito grandes entre criacionistas e negacionistas do aquecimento global (falei sobre isso aqui e aqui). Por exemplo, muitos criacionistas reconhecem a microevolução e muitos negacionistas reconhecem as alterações no microclima. Além da ideia absurda de perseguição/conspiração.

Há outros artigos semelhantes a Doran e Zimmerman (2009), Anderegg et al. (2010) e Cook et al. (2013), quero dizer, há outras pesquisas com objetivos bem semelhantes, que é verificar qual o consenso da comunidade científica sobre o tema. Inclusive há um texto na Wikipedia compilando todos os artigos com esses objetivos (veja aqui).  Os resultados desses artigos foram colocados no gráfico abaixo (veja informações sobre o gráfico nesse link):

Climate_science_opinion2

Observe que em todos os levantamentos colocados no gráfico (o gráfico foi feito antes da publicação de Cook et. al 2013) apontam para mais de 80% de concordância no impacto do homem no aquecimento global.

Conclusão

O texto está enorme e evidentemente não dá para tirar apenas uma conclusão, mas diversos levantamentos feitos por vários cientistas (sendo o mais famoso o de Cook et al 2013), mostram que o aquecimento global por causas antropogênicas é um consenso na comunidade científica. Claro que há fatores naturais que sempre afetaram o clima, como vulcanismo, manchas solares, inclinação do eixo da Terra, etc. A questão é que excluindo todos esses fatores naturais e conhecidos há muito tempo, o ser humano tem uma contribuição significativa nas mudanças climáticas que estamos vivendo nos últimos séculos, principalmente depois da Revolução Industrial. E claro, o ritmo dessas contribuições aumentou muito nas últimas décadas.

Portanto, não há necessidade de um “debate” entre “dois times”: o time dos ‘negacionistas’ ou ‘quase negacionistas’ (esses últimos reconhecem alterações locais no clima) e o time daqueles que reconhecem a contribuição significativa da humanidade nas mudanças climáticas. Esse debate é infrutífero e já não faz sentido. O debate  agora consiste em definir metas para a redução das emissões de gases de efeito estufa, levando em conta as populações mais vulneráveis e o desenvolvimento das nações mais pobres, por exemplo. Além disso, o debate também tem que focar nas ações de mitigação.  E para esse tópico, acho que vale ler os textos sobre os impactos do aquecimento global na América Latina (parte 1 e parte 2).