Escrever em um perfil de rede social x Escrever em um blog



Você já deve ter encontrado por aí, os famosos textões. Um textão não é simplesmente um texto grande. É um texto grande escrito em um perfil de rede social, normalmente um rant sobre qualquer coisa.  E qualquer coisa mesmo, desde o atendente da sorveteria que mal olhou na sua cara até cotas nas universidades.

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Nada contra textões, acredito que a dinâmica dos relacionamentos mudou. Antes a gente alugava o ouvido de um amigo em particular com as nossas reclamações. Hoje a gente prefere desabafar nas redes sociais, escrevendo textos enormes, muitas vezes mal interpretados ou que geram algum mal estar. Porque quando a gente escreve algo para que nossos contatos leiam, dependendo do assunto, algumas pessoas podem interpretar como uma mensagem ou como uma indireta, e então o estrago está feito.

Ocorre que nem sempre meus contatos estão interessados nos meus textões. E muitas vezes meus textões na verdade não dizem respeito a ninguém, era até melhor que seu conteúdo se mantivesse apenas nas ideias de quem escreveu.

Fui por algum tempo adepta dos textões no Facebook. Tentei até emplacar textões no Twitter, dividindo o assunto do rant em diversos tweets. Eu percebi que estava ficando chata e a mensagem que eu queria passar muitas vezes se perdia. E por razões assim, decidi deixar meus textões para o blog. Razões:

  • Mais seletividade: eu observei que quando escrevo no blog, eu tento ser mais seletiva. Procuro escrever coisas que realmente interessam, porque quero atrair leitores;
  • Mais possibilidades de edição: consigo colocar imagens, mudar a fonte, colocar títulos, realçar, colocar links etc. É infinitamente melhor! O texto fica realmente explicado, didático.
  • Alcance diferenciado: quem chegar até meu texto, conseguiu chegar através de um mecanismo de busca. Ou porque realmente já era leitor fiel do blog. Na maioria das vezes, isso é muito bom, principalmente porque evita em grande parte as pessoas que tomam tudo como uma indireta.
  • Possibilidade de arquivamento e categorização: o texto não se perde na timeline, ele fica guardado e organizado por data e assunto. Muito mais fácil encontrá-lo para enviar para alguém ou para usar como referência.

Depois dessas constatações até que óbvias, decidi que não vou mais escrever textões em nenhuma rede social. Meus textões ficarão aqui no Meteorópole. E claro, vou compartilhar o link nas redes sociais. Bem mais fácil!

Com tantas possibilidades de interação com as pessoas, percebi que as pessoas estão deixando de escrever em seus blogs. Muitos geradores de conteúdo estão se dedicando apenas às suas redes sociais e aos seus canais no Youtube.  O Snapchat, por exemplo, é uma rede social que permite uma interação tão rápida, que se não me engano, o que é postado lá se apaga logo em seguida (não uso o Snapchat, mas sei que é bem mais ou menos assim, não sei se me enganei). Isso me leva a algumas reflexões que disponho como perguntas retóricas:

  • Será que eu quero compartilhar algo tão efêmero e tão sem importância que logo vai se apagar?
  • Será que preciso compartilhar todos os momentos de minha vida, de modo que preciso de uma ferramenta para facilitar esse oversharing? Será que minha vida é tão interessante assim?
  • Será que não prefiro escrever algo que vai perdurar por bastante tempo, pelo menos enquanto eu continuar pagando a hospedagem e o domínio, de modo que outras pessoas poderão ler sem se preocupar com a interação em tempo real?

Acho que não estou conseguindo acompanhar a “nova internet”, estou envelhecendo rs.

Se você tem um blog e ele está paradinho, empoeirado e com teias de aranha, te convido a voltar a escrever. Volte a compartilhar seus pontos de vista, suas ideias e suas emoções sem a preocupação de fazer tudo ‘em tempo real’. Escreva com calma, para guardar para a posteridade. Acho que escrever em um blog tem tudo a ver com algo que venho almejando: uma vida mais simples e sem correria, sem a necessidade de consumir tudo junto naquele instante. Escrever é tão gostoso que ainda hoje mantenho um bloquinho de notas físico sempre comigo, mesmo usando o Evernote.

Escolhi uma profissão que justamente estuda a atmosfera, o melhor exemplo de comportamento caótico. Fenômenos meteorológicos dos mais diversificados possíveis acontecem a todo momento no planeta. Quando comecei a escrever no Meteorópole, eu queria ter essa obrigação de falar sobre tudo a todo momento. Percebi que isso seria impossível em se tratando de um blog escrito por uma única pessoa. Também percebi que falar só sobre Meteorologia era muito cansativo, os textos vão perdendo a qualidade devido a obrigação. Descobri que o bacana pra mim era variar, escrever sobre outras coisas de meu interesse e estou muito mais feliz com esse formato. Posso falar sobre uma coisa de cada vez, com mais cuidado e sem a pressa lá do começo do blog.

Por uma vida mais simples e menos rápida.