O que é um artigo científico? – visão bem geral

Quem não é da área acadêmica, pode concluir erroneamente que um artigo científico é um texto do caderno de ciências de um jornal de grande circulação ou o texto de uma revista de divulgação científica, como Galileu, Scientific American ou Superinteressante. Mas isso não é um artigo científico revisado por seus pares (já vamos falar disso). Esses textos são no máximo textos de divulgação científica.

Esse post tem vários objetivos:

  • explicar como um arquivo científico é escrito;
  • esclarecer quem pode escrever um artigo científico;
  • explicar o que é revisão por pares;
  • entender como os periódicos científicos são classificados;
  • e compreender qual a diferença entre um artigo científico e um texto de divulgação científica.

Vou falar sobre cada um desses tópicos de maneira bastante simplificada, já que nunca escrevi um artigo para um periódico grande, porém tenho alguns artigos modestos que enviei para Workshops, Simpósios e Congressos:

artigos

E por que não tenho muitos artigos publicados e nenhum em revistas científicas? Porque eu parei no mestrado. Não quis fazer doutorado, tenho minhas razões para isso (e um dia posso escrever um post a respeito). Mesmo com poucas publicações, tenho amigos que publicam ou são revisores e eu convivo nesse tipo de ambiente, participando de rodas de conversas informais. Dessa maneira, tenho uma pequena visão de como as coisas funcionam e vou explicar aqui no blog em linhas bem gerais. Se alguém quiser acrescentar alguma coisa em meu texto, fique a vontade e será muito bem-vinda(o).

Como publicar um artigo científico?

Em primeiro lugar, você precisa estar vinculado a alguma Instituição de ensino e/ou pesquisa. Pode ser professor/pesquisador dessa instituição, aluno (de graduação, fazendo uma Iniciação Científica por exemplo), de pós-graduação (Mestrado ou Doutorado) ou até mesmo com uma bolsa de pós-doutorado. Em outras palavras, você deverá estar participando ativamente de alguma linha de pesquisa da Instituição e sob a orientação de um professor/pesquisador (se você for aluno).

Vou falar do ponto de vista de aluna, pois foi como publiquei. Seu orientador vai acompanhar o andamento de sua pesquisa e provavelmente vai te sugerir um artigo para uma revista científica da área, caso haja um bom andamento. Você também vai acompanhar os e-mails do departamento e vai conversar com colegas, para ficar por dentro de congressos, simpósios ou workshops na sua área.

Agora vamos supor que você é um pesquisador e é docente de uma Universidade importante. Você tem uma área de especialidade e certamente conhece pesquisadores (de sua Instituição ou de outras, dentro ou fora do Brasil) que atuam em sua área de especialidade também. Esses outros pesquisadores são colegas que você conheceu em congressos, ex-orientadores, ex-colegas da época da graduação, etc. O cientista acaba fazendo uma rede de contatos, o networking é importante na profissão.  Você, como pesquisador, vai poder pedir verbas para agências de fomento (FAPESP,  CNPq e outras, por exemplo). Essas verbas vão financiar seus projetos de pesquisa: vão permitir que você compre computadores, instrumentos científicos e outros materiais relacionados com sua pesquisa. O projeto precisa ser bem escrito e normalmente não é feito por apenas um pesquisador. Você vai escrever esse projeto com outros colegas, tudo bem discriminado e explicado. Se o projeto for aceito, você recebe a verba que vai permitir desenvolvê-lo. Ao longo do projeto, artigos podem (e devem) ser publicados a cada etapa. Alunos de iniciação científica, mestrado, doutorado e pesquisadores de pós-doutorado poderão estar vinculados ao projeto, aumentando o número de pesquisadores que colocam seus esforços em pesquisar aquele tema. Como eu disse nesse post, a ciência é um trabalho em grupo.

A avaliação e a aceitação (ou não-aceitação) de projetos de pesquisa submetidos para as agências de fomento é feita de maneira muito parecida (quase igual) a revisão por pares dos artigos científicos. Ao longo do texto, vou falar mais sobre essa revisão por pares.

O ambiente da Academia pode ser muito agradável. Você faz amigos, conversa e se descontrai nos laboratórios, com os amigos dos grupos de pesquisa. Claro que é necessário manter uma produtividade e seriedade e isso é verificado através de relatórios. Esses relatórios são enviados para os chefes dos Departamentos e para as agências de fomento, para que o andamento do projeto seja sempre verificado. Em outras palavras, é para verificar se o pesquisador está agindo com seriedade e se sua pesquisa está dentro do cronograma estabelecido no projeto inicial.

Dentro de todas essas condições, você poderá escrever um artigo. Se você for um aluno, um jovem pesquisador, o artigo não sairá apenas com seu nome (e talvez você nem seja o primeiro autor), principalmente se for um periódico científico bem classificado (já falo disso). Esse artigo, que será publicado em um periódico ou nos anais de um congresso do qual você vai participar (e nesse congresso você fará uma apresentação em poster ou em slides), estará sujeito a normas de formatação e organização da revista ou da organização do congresso.  Então você terá que escrever esse artigo dentro dessas normas. Você, seu orientador e demais autores do artigo (caso haja), vão revisar a escrita e o conteúdo do artigo e enviar para a organização e pagar as taxas. Mas isso não é garantia de publicação!

O artigo então passará por uma banca examinadora, composta por outros pesquisadores (chamaremos de árbitros) da área que não tenham conflito de interesses (que não sejam também autores o artigo, já que não faz sentido você aprovar ou não aquilo que você mesmo escreveu). Essa é a revisão por pares, ou seja, revisão feita por pesquisadores da mesma área. Esses árbitros vão analisar o trabalho com cuidado, contribuindo para a qualidade do mesmo, uma vez que eles vão escrever sugestões para que os autores possam melhorar o trabalho.

Do verbete da Wikipedia sobre Revisão por Pares:

Nos meios acadêmicos, a revisão por pares, também chamada revisão paritária ou arbitragem (peer review, refereeing, em inglês) é um processo utilizado na publicação de artigos e na concessão de recursos para pesquisas. Consiste em submeter o trabalho científico ao escrutínio de um ou mais especialistas do mesmo escalão que o autor, que na maioria das vezes se mantêm anônimos ao autor. Esses revisores anônimos frequentemente fazem comentários ou sugerem revisões no trabalho analisado, contribuindo para a qualidade do trabalho a ser publicado. No caso da publicação de artigos científicos, o diálogo entre os autores e os revisores é arbitrado por um ou mais editores, afiliados à revista científica em causa. Aquelas publicações e prêmios que não passaram pela revisão paritária tendem a ser vistos com desconfiança pelos acadêmicos e profissionais de várias áreas.

Os “árbitros” são, nas publicações e pelos membros da comunidade científica, usualmente designados por “referees”.

É comum que o artigo fique num “vai e vem” entre autores e árbitros. O artigo pode ser inicialmente rejeitado, mas os autores podem submetê-lo novamente com as melhorias e esclarecimentos propostos pelos árbitros. Há casos de artigos que são totalmente rejeitados, mas isso é incomum. Para isso acontecer, tem que realmente estar mal escrito, sem uma boa metodologia, possuir indícios de fraudes ou problemas éticos (plágio, por exemplo) ou totalmente fora do escopo do periódico científico. E se o artigo é aceito, ele é publicado no periódico científico.

Conteúdo: o que é necessário ter em um artigo científico?

A língua “universal” da ciência é o inglês. Então normalmente todas as revistas aceitam artigos nesse idioma. Para revistas locais (exemplo, a Revista Brasileira de Meteorologia), normalmente é também aceita a língua do país de origem e a mesma lógica vale para eventos científicos (congressos, simpósios, workshops, etc).

Num artigo, normalmente você tem que discriminar bem o nome dos autores, seus endereços de contato e as instituições de pesquisa onde esses autores trabalham. Em seguida, há um resumo do artigo. Esse resumo precisa ser bem claro, de modo que até uma pessoa de outra área consiga compreender, em linhas gerais e superficiais, do que se trata o artigo.

Em seguida, o artigo apresenta uma introdução teórica sobre o tema apresentado e o objetivo do artigo. Depois, os autores devem apresentar a metodologia, que são os meios utilizados para chegar nos resultados (softwares utilizados, instrumentos científicos, dados utilizados etc). Em seguida, são apresentados os resultados obtidos (tabelas, gráficos, mapas, etc) e textos explicando esses resultados. Depois os autores devem escrever a conclusão do que foi obtido, normalmente colocando uma perspectiva futura para a pesquisa. Para finalizar, são colocados os agradecimentos (a instituições que forneceram dados, agências de fomento, etc) e as referências bibliográficas.

Cada revista científica tem um padrão de nome para os títulos e uma formatação específica para os seus artigos. O que coloquei aqui em linhas gerais são os itens que precisam ser abordados no texto do artigo. Ele é escrito de maneira diferente de um texto para um Caderno de Ciências de um jornal de grande circulação (como Estado de São Paulo ou Folha). O “jargão científico” de cada área é mantido, já que o público alvo de um artigo científico são os pesquisadores daquela área.

O artigo foi publicado. E agora?

Há sites como o Science Direct, Web of Science ou Google Scholar que permitem fazer buscas em diversos periódicos científicos usando palavras-chave. Muitas vezes, esses sites tem seu acesso limitado aos IPs de Universidades ou outros Institutos de Pesquisa. Dessa maneira, outros pesquisadores podem encontrar seu artigo e usá-los como referências em suas pesquisas. Eles vão poder ler sua metodologia e melhorá-la, aplicá-la em outras circunstâncias/locais. É dessa maneira que a ciência progride, com essa “competição”, tentando sempre reproduzir os resultados, sempre tentando melhorar, inovando, criando novas aplicações, etc.

Artigos podem ser publicados e depois podem ser ‘despublicados’, caso haja alguma evidência de fraude ou erros na metodologia. Foi o que aconteceu, por exemplo, com um artigo do periódico científico da área de saúde Lancet, artigo esse que afirmava que a vacina Tríplice causava autismo e doenças gastro-intestinais (saiba mais sobre esse caso aqui  e veja também esse vídeo do Yuri Grecco que fala sobre o assunto).  A revista reconheceu a fraude (o autor principal fraudou resultados para, dentre outras coisas, conseguir vender testes de detecção de um problema de saúde que ele inventou) e anos depois a Lancet publicou uma nota rejeitando o artigo (como se estivesse “despublicando”), pedindo desculpas aos leitores.

Ou seja, no processo de publicação de um artigo científico, podem sim haver erros e injustiças, de modo que artigos sem qualidade  e/ou fraudulentos são publicados. Entretanto, esse erro não perdura por muitos anos, uma vez que outros pesquisadores (que eventualmente vão ler o artigo, pois realizam pesquisas semelhantes) vão questionar os resultados e encontrar os erros. Como bem disse o Yuri no vídeo que mencionei no parágrafo anterior, como o avanço da tecnologia esses erros e fraudes são mais rapidamente detectados.

Classificação dos periódicos ou revistas científicas

Exitem revistas científicas de mais renome do que outras e isso ocorre em todas as áreas das ciências naturais. Aqui no Brasil, a CAPES tem o Qualis, que é um sistema de avaliação desses periódicos. A classificação possui atualização anual e segue uma série de critérios definidos pela CAPES, como número de exemplares circulantes, número de bases de dados em que está indexado, número de instituições que publicam na revista, etc. Para um pesquisador brasileiro, seu artigo terá mais impacto se ele conseguir publicá-lo em uma revista de sua área que tenha uma boa classificação no Qualis.

Internacionalmente, temos o Journal Citation Reports, do ISI (Institute for Scietific Information), que funciona de modo semelhante ao Qualis. Talvez existam outros sistemas de classificação, mas só conheço esses dois.

Artigo Cientifico x Texto de Divulgação Científica

Vamos usar o exemplo do artigo de Albrecht et al (2016), artigo que mencionei nesse post. É um artigo sobre os locais com mais incidências de raios no mundo.

O artigo original pode ser consultado aqui. Ele foi publicado no periodico BAMS (Bulletin of the American Meteorological Society). Esse periódico tem a máxima classificação no Qualis:

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Vou tirar um print da “capa” do artigo no site da American Meteorological Society, que publica esse periódico:

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Artigos científicos tem várias páginas, com cada um dos itens que mencionei anteriormente (resumo, introdução, metodologia, resultados, conclusão, agradecimentos e referências bibliográficas). Esse artigo mencionado não é diferente (veja aqui). Artigos científicos não são feitos para o público leigo: são publicações feitas de cientista para cientista daquela determinada área. Uma pessoa com uma pequena bagagem científica vai ler o resumo (ou abstract) e vai compreender algumas coisas em linhas gerais.

Agora, vou mostrar alguns textos de divulgação científica que falam sobre esse artigo. O primeiro, foi o que eu escrevi (veja aqui):

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No meu texto em que divulgo o trabalho de Albrecht et al (2016). O público-alvo é o público leigo, pessoas que gostam de ciência, mas não são pesquisadores daquela área. Muitas nem são acadêmicas e são profissionais de outras áreas.

Claro que eu não fui a única a mencionar essa pesquisa e esse artigo especificamente. O Hype Science também escreveu:

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E a BBC também:

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Esses dois são apenas alguns exemplos. O que quero mostrar? Vários veículos de comunicação podem comentar os resultados de um mesmo artigo. Inclusive a Rachel I. Albrecht, autora principal desse artigo, atendeu a solicitações de entrevista de diversos jornais, revistas, portais, blogs, etc. Ela inclusive me esclareceu alguns pontos mais técnicos, para que eu pudesse escrever o meu post de divulgação.

Muitas vezes, Universidades e Institutos de Pesquisa possuem pessoas especializadas em comunicação, assessorias de imprensa. Esses profissionais fazem a ponte entre os pesquisadores e os meios de comunicação.

Conclusões

Um artigo científico é voltado para cientistas da mesma área, como uma maneira de divulgar a pesquisa dentro da comunidade científica daquela área. Artigos Científicos são revisados por pares, ou seja, pesquisadores da mesma área que não tem conflitos de interesse (que não são autores ou co-autores do artigo, por exemplo) vão revisar o artigo e dar sugestões para que ele possa ser melhorado. O artigo pode ser rejeitado num primeiro momento, mas pode ser aprovado depois que as melhorias forem feitas.

Um artigo cientifico pode ser “despublicado” (em inglês, o termo é retracted), se houver evidência posterior de fraude, conflito de interesses ou outros problemas éticos. A própria comunidade científica se regula dessa maneira.

Periódicos Científicos ou Revistas Científicas são classificadas de acordo com o impacto de sua produção, levando em conta variáveis como número de exemplares circulantes, número de bases de dados em que está indexado, número de instituições que publicam na revista, etc. Quanto mais bem qualificado for o periódico, mais conhecido se tornará o artigo. Artigos normalmente são escritos por vários autores, pois ciência é um esforço em conjunto, é um trabalho em grupo.

Artigos Científicos são voltados para a comunidade científica, enquanto textos de divulgação científica são voltados para o público leigo, pessoas que não são da área acadêmica, mas gostam de ciência. Textos de divulgação científica podem ser escritos por jornalistas ou qualquer outro profissional que goste de ciências e saiba se comunicar bem.

Devemos ressaltar que textos de divulgação científica são muito importantes, para que a população em geral conheça o trabalho do cientista, possam se maravilhar com o conhecimento e aplicá-lo em seu dia a dia. No entanto, eles precisam ser bem escritos, sem sensacionalismo ou alarmismo desnecessário. O escritor de um texto de divulgação científica deve inclusive procurar os autores da pesquisa, para esclarecer dúvida e dessa maneira escrever um texto mais claro.