A garoa e a neblina desapareceram de São Paulo-SP?



Muitas pessoas afirmam que a garoa praticamente desapareceu na cidade de São Paulo, bem como na Região Metropolitana de São Paulo como um todo. Mas será que isso é verdade? E a neblina? Ela também desapareceu? Vou tentar falar da ocorrência desses fenômenos.

Esse post foi resultado de uma resposta, elaborada por mim e pelo Prof. Ricardo de Camargo (do IAG-USP), para ser dada a um jornalista que fazia algumas perguntas sobre o clima da cidade de São Paulo. Como esse material não foi usado na íntegra, o aproveitei para dar início a esse post.

Então vamos lá!

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Fonte: Free Digital Photos
Fonte: Free Digital Photos

Garoa é a designação regional de chuvisco muito leve e inapreciável, sendo formada por gotículas finas muito pequenas e leves e muito próximas umas das outras, parecendo flutuar no ar. Quando essas gotículas atingem o solo, elas não o umedecem completamente e não chegam a formar poças.

São Paulo tornou-se amplamente conhecida como ‘Terra da Garoa’ e esse fenômeno desperta muita curiosidade por parte dos moradores. No entanto, os dados da EM-IAG-USP mostram que não há tendência de aumento ou diminuição no total de dias com garoa ao longo do ano. No gráfico do número de dias com garoa por ano, são observadas flutuações interanuais (dependendo do ano, há mais ou menos dias com garoa), mas a reta de ajuste não apresenta tendência por encontrar-se praticamente horizontal (gráfico abaixo):

Total anual de dias com registro de garoa, de 1933 até 2015. Dados observados na Estação Meteorológica do IAG-USP.
Total anual de dias com registro de garoa, de 1933 até 2015. Dados observados na Estação Meteorológica do IAG-USP.

Considerando a existência de mudanças no comportamento e no estilo de vida dos moradores da cidade, que atualmente fazem mais atividades em locais fechados, muitas vezes a garoa pode simplesmente não ser notada. Por outro lado, é preciso também ressaltar que as informações da EM-IAG-USP referem-se a um local com vegetação preservada nas últimas décadas, fato que pode ser consideravelmente diferente em outros locais da região metropolitana.

Outra coisa que é importante lembrar é a localização da EM-IAG-USP. Ela está localizada na Zona Sul de São Paulo-SP, mais precisamente na saída da Rodovia dos Imigrantes. A brisa marítima chega bem marcada nesse local, com mais intensidade do que chega em regiões no extremo da Zona Oeste, por exemplo. A brisa traz um aporte de umidade, que pode ajudar na formação da garoa.

Já falei sobre garoa em outros posts aqui do Meteorópole, que certamente complementam o que acabo de dizer:

Além da garoa, algumas pessoas também dizem que a neblina que cobria diversas áreas periféricas também desapareceu. Há algum tempo, conversando com o Prof. Paulo Marques dos Santos, professor aposentado do IAG-USP, ele me contava sobre as críticas a respeito da construção do Aeroporto de Cumbica, na época em que o projeto começou a ser executado, pois a região é muito sujeita a nevoeiros.

Algumas pessoas acreditam que essa neblina parece ter diminuído muito. Mas em Paranapiacaba, por exemplo, onde a urbanização é menor, ainda se vê muita neblina.

Afinal de contas, a neblina sumiu ou não?

Primeiro é importante considerar que Paranapiacaba não é uma área tão urbanizada quanto Guarulhos ou partes da periferia paulistana e, além disso, fica em uma área de serra, o que favorece a formação de neblina. O ar oceânico, rico em umidade, é forçado a subir a serra através da circulação dominante e também pela ação da brisa marítima, e encontra condições para condensar seu vapor d’água ao ser erguido, já que a temperatura é menor em áreas de maior altitude. Com este processo de condensação são formadas nuvens do tipo Stratus, que são nuvens baixas responsáveis pela neblina.

Paranapiacaba. Fonte: Wikipedia Commons
Paranapiacaba. Fonte: Wikipedia Commons
Nevoeiro intenso em uma estrada. Fonte: Wikimedia Commons
Nevoeiro intenso em uma estrada. Fonte: Wikimedia Commons

Com relação a Guarulhos, é preciso reconhecer a indiscutível urbanização deste município desde a construção do aeroporto. Áreas verdes foram eliminadas para a construção de novos bairros, com suas ruas e edificações de portes variados. A cidade como um todo cresceu em função do aeroporto, das novas empresas e dos empregos gerados por sua implantação. O cimento e o asfalto aquecidos durante o dia liberam esta energia no período noturno, efeito conhecido por ilha de calor urbana. Isso faz com que as condições locais sejam progressivamente menos favoráveis para a formação de neblina.

A Estação Meteorológica do IAG-USP também faz observações de nevoeiro. O gráfico com o total anual de dias com nevoeiro (ver abaixo) mostra uma tendência de redução na ocorrência desse fenômeno. A explicação mais plausível para essa redução é realmente a urbanização e todas as  suas consequências comentadas anteriormente.

Fig31
Total anual de dias com registro de nevoeiro, de 1933 até 2015. Dados observados na Estação Meteorológica do IAG-USP.

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