Ficção Científica e Pseudociência: Cientologia e Planetas órfãos malignos



O termo ficção científica foi criado na década de 20, para descrever um gênero de literatura que estava muito popularizado na época. Foi nessa época que surgiram revistas pulp  especializadas nesse tipo de ficção. Mencionei algumas dessas revistas nesse post, onde inclusive indico links para baixar alguns exemplares. Entretanto,  mesmo sem a existência do termo, a ficção científica já existia. Não pretendo fazer uma revisão histórica nesse post, mas vale a pena lembrar do ótimo conto Micromégas, de Voltaire (resenhei aqui), escrito no século XVIII e do trabalho de H. G. Wells,  que é do comecinho do século XX. 

A ficção científica sempre foi consumida, primeiro como essas revistas pulp mencionadas. Depois vieram as séries de rádio, TV e desde o final do século XX convivemos com grandes franquias, que contam com filmes, séries, animações e todo tipo de memorabilia nerd para que possamos adquirir.

Recorrentemente, um pensamento sempre surge em minha mente: será que as pessoas, o público geral, consegue distinguir entre o que é ciência e ficção científica?

É claro que a ficção científica, como o nome já sugere, utiliza a ciência como base ou inspiração. Vários filmes e séries inclusive contam com consultores, cientistas de diversas áreas, para dar mais veracidade e coerência aos roteiros. Escritores de livros de ficção científica também consultam cientistas para tirar duvidas e até utilizar termos técnicos para melhor rechear o enredo. No entanto, ficção científica é imaginação, tem asas e não tem compromisso em ser coerente com o estado-da-arte da ciência. Muitas vezes, a ficção científica aborda o futuro ou cenários alternativos do presente e é comum criar novos avanços tecnológicos (que podem ou não ser inspirados no que já existe). Ou seja, não há regras e nem limites para a imaginação.  Para criar um enredo convincente, talvez haja o limite do “bom senso”, caso contrário teremos algo muito parecido com a ficção científica erótica criada pela Suzane ‘Crazy Eyes’ Warren em Orange is the New Black (Time Hump Chronicles). Mas a literatura é algo tão maravilhoso que mesmo se fugirmos do bom senso, podemos ter resultados interessantes e engraçados.

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Saiba mais sobre The Hump Chronicles aqui.

Há casos em que a avacalhação é parte do enredo, é proposital, é para nos fazer rir com absurdos.  É o caso por exemplo da hilariante paródia de Star Wars, Spaceballs (1987). Mesmo Star Wars, se formos ser bem chatinhos, tem um enredo bem clichê e bases científicas equivocadas (como assim completar a Corrida Kessel em menos de doze parsecs?). Mas no geral, a história é boa, cativante e os efeitos especiais dos filmes dessa franquia são maravilhosos. Por essa razão, alguns gostam de classificar Star Wars como fantasia e não como ficção científica. Eu diria, na minha modesta opinião, que fica na fronteira entre esses dois reinos.

Enfim, rótulos são apenas rótulos e como já deixei claro, sou a favor de dar asas à imaginação, pois esse é o barato e o objetivo da ficção. Se o trabalho vai agradar ou não o público, vai depender de vários fatores: boa escrita, enredo convincente e bem amarrado, bons personagens, etc.

O que pretendo abordar nesse post são dois exemplos de mistura de ficção científica e pseudociência. E na minha opinião, esses dois são os melhores exemplos dessa mistura. Vou falar de Cientologia e Planetas Órfãos do Mal. Ainda essa semana, esse post terá uma continuação, onde abordarei outros aspectos.

Cientologia: melhor exemplo da mistura entre ficção científica e pseudociência

Na minha opinião, o melhor trabalho em português que desvenda a pseudociência por trás da Cientologia é esse video do Yuri Grecco:

E se você quiser dar risada, veja o vídeo abaixo, do South Park. Daí você pensa: poxa, é South Park, eles avacalham com a verdade, as coisas não podem ser assim. Mas o relato é totalmente verdadeiro (veja o vídeo do Yuri acima e compare)! É tão absurdo, que não dá para acreditar que é nisso que se fundamenta a crença dos caras. E eu fico rindo sempre que lembro da faixa “This is what scientologists actually believe”, ou seja, os caras tiveram que avisar que aquele é um relato sério, dada a galhofice típica do desenho.

Talvez alguns haters vão apontar (com maldade, mas com certa razão) que eu sou cristã e minha crença pode ser de algum modo considerada absurda, afinal de contas não vemos mulheres virgens engravidando por aí diariamente. Mas o problema nem são os fundamentos da fé do cientologista. Se a pessoa quer acreditar que espíritos angustiados de aliens vivem em nós, que acredite. O grande problema na cientologia, ao meu ver, é a dianética.

Como descreveu Carl Sagan em O Mundo Assombrado Pelos Demônios, toda área da ciência tem seu equivalente pseudocientífico e a dianética parece ser o equivalente pseudocientífico da Psicologia. Na dianética, instrutores que não são da área médica ou psicológica administram terapias de regressão e afirmam que certas doenças possuem fundo emocional ou mental, incluindo a homossexualidade (SIM! 😱) no grupo dessas doenças.

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Há inclusive um aparelho, que pela descrição me parece ser um simples galvanômetro, que seria capaz de medir a quantidade de “engramas” que a pessoa tem dentro de si, que tem alguma coisa a ver com a quantidade de espíritos de aliens que habitam em você. Como qualquer pseudociência que se preze, a dianética tem toda uma terminologia confusa e com definições mal estabelecidas.

Facepalm de Suri Cruise
Facepalm de Suri Cruise

Ao que parece, as pessoas se convencem de que tem problemas com esses “engramas” e que precisam fazer tratamentos dianéticos intermináveis e acabam virando “escravas” dessa igreja, que tem status de seita em diversos países. Ou seja, além da pseudociência, temos aí o charlatanismo. Nenhuma novidade, em muitas situações essas duas coisas andam juntas.

Nibiru e Hercólubus

Nibiru é uma palavra em acadiano que significa ponto de cruzamento. O termo era empregado pelos babilônios em diversas situações relacionadas à sua astrologia, como por exemplo com relação aos equinócios. Mas não é da pseudociência astrologia que me refiro.

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Nibiru o nome de um hipotético planeta proposto por Zecharia Sitchin, autor que defendia aquelas hipóteses da teoria dos astronautas antigos. Ele não é o único, o mais famoso defensor dessa teoria talvez seja o autor suiço Erich von Däniken (que escreveu o best-seller Eram os Deuses Astronautas?).

Sitchin afirma que os sumérios conheciam todos os planetas do Sistema Solar, incluindo um planeta adicional que nem mesmo com todo avanço científico que conquistamos desde o século XX fez possível sua detecção. Esse planeta seria Nibiru e segundo Sitchin, ele vagava meio interestelar e foi atraído pelo campo gravitacional do Sol. Desde então, o planeta estaria em uma órbita “espiralada” em direção ao Sol. A partir das alegações de Sitchin, muitos começaram a afirmar que Nibiru colidiria com a Terra entre 2012 e 2013. Além de Nibiru nunca ter sido avistado pelos nossos telescópios, estamos no ano de 2016 firmes e fortes.

As alegações sobre a existência de um “planeta órfão” que viria a colidir com a Terra ou de que mesmo sua reles aproximação traria caos e destruição (como se a gente não fosse capaz disso sozinhos), não se restringem a apenas um autor.  Muitos brasileiros já devem ter ouvido falar em Hercólubus. Esse planeta órfão destruidor foi uma criação de V. M. Rabolu, ocultista colombiano. As ideias de Rabolu foram disseminadas no Brasil por alguns grupos que dizem ser espíritas.  Esse planeta misterioso já teria se aproximado da Terra no passado, destruindo a Atlântida e agora ele estaria se aproximando mais uma vez de nós, por isso vivemos uma era de intolerância e maldade, ou qualquer outra alegação feita nesse sentido. O nome Hercólubus também teria uma origem antiga, pelo que pesquisei seria origem suméria. Não li o famoso livro de Rabolu (facilmente encontrado em sebos), mas tenho certeza que deve haver alusão à alguma misteriosa profecia da Antiguidade.

Observem, portanto, a avalanche de pseudociências. Primeiro, a alegação de planetas órfãos malignos que nunca foram detectados pelos meios mais modernos hoje existentes. Nem mesmo uma pequena variação na órbita terrestre foi detectada, ou alteração no regime de marés, fatos que seriam evidentes e facilmente observáveis se um planeta extremamente massivo (porque além de tudo, Hercólubus e/ou Nibiru são enormes, os caras não economizam). Em seguida, aparece uma pseudociência relacionada à Arqueologia, misturando mitologia de povos da Antiguidade com supostas civilizações cujas existências não foram provadas (os Atlantes, no caso). Eu observo que usar antigas “inscrições em acadio/fenício/egípcio/etc é um modus operandi bem comum  de alguns pseudocientistas. Como quase ninguém (exceto especialistas que dedicaram anos de estudos) entende essas línguas antigas e suas inscrições, fica relativamente fácil dizer que houve uma inscrição antiga, um manuscrito perdido, uma tabuleta de argila já quebrada, etc, que revelava coisas fantásticas e bombásticas sobre o futuro da humanidade. E esse clichê é muito empregado na literatura e no cinema. Apenas como exemplo, talvez o pioneiro nessa linha, temos a série de livros de H. Rider Haggard, que no final do século XIX criou o famoso personagem Allan Quartemain e escreveu diversos livros estrelados por esse personagem. No cinema, Quartemain foi vivido por diversos atores e quem é mais ou menos da minha idade talvez se lembre dos filmes estrelados por Richard Chamberlain e que exaustivamente eram transmitidos na Sessão da Tarde.

Hercolubus, suposto planeta-órfão criado por pseudocientistas e que supostamente estaria em rota de colisão com a Terra. Fonte: Wikimedia Commons
Hercolubus, suposto planeta-órfão criado por pseudocientistas e que supostamente estaria em rota de colisão com a Terra. Fonte: Wikimedia Commons

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Conclusão

Vou precisar concluir algo já mencionado várias vezes no Meteorópole e já comentado inúmeras vezes por outros divulgadores de ciência: o público geral precisa conhecer mais sobre ciência. Mais espaços de divulgação científica e programas de TV aberta de qualidade dedicados ao assunto precisam existir. Além disso, o ensino formal precisa estimular as pessoas a pensarem com lógica e ceticamente. O ensino formal precisa ser separado do ensino religioso, as duas coisas não se devem misturar. É preciso ensinar o que é ciência e o que não é ciência.

Esses pontos são de extrema importância. Pessoas mentalmente saudáveis e bem esclarecidas não misturam ficção científica com pseudociência, criando novas religiões ou caindo em charlatanismos variados. Uma pessoa bem esclarecida vai procurar um psicólogo ou psiquiatra para lidar com problemas mentais e emocionais e não vai sequer pensar na possibilidade de procurar um ‘tratamento’ pela dianética, regressão, hipnose ou qualquer outro ‘tratamento’ cuja eficácia é questionável ou comprovadamente inexistente.

Há incontáveis coisas para se maravilhar no Universo. Só lembrarmos, por exemplo, na grande quantidade de exoplanetas que os astrônomos tem descoberto nas últimas décadas. Além de novas e diferentes estrelas, galáxias, aglomerados estelares, etc. Tem muita coisa linda e diferente por aí, coisas reais, observadas. Não precisamos nos apegar em ET’s ou planetas misteriosos que nunca foram observados.  A realidade pode e deve ser apreciada.