Ficção Científica e Pseudociência: clichês e temas recorrentes – Parte 1



Gostaria em primeiro lugar de me desculpar, pois esse post deveria ter entrado na programação da semana passada. Entretanto, fiquei doente. Agora estou melhor (obrigada Sr. Fleming, pelo antibiótico). Ah sim, eu também tive que dividir esse post em duas partes, pois ele foi ficando muito grande conforme fui escrevendo.

Como complemento ao post em que menciono Cientologia e Planetas Órfãos Malignos como grandes exemplos de mistura de ficção científica e pseudociência, vou listar agora os principais temas pseudocientíficos abordados na ficção científica. Essa lista foi inspirada nesse trabalho e em observações pessoais.

Vocês vão notar que ao longo de cada tópico vou tentar explorar a origem desses clichês, tentando lembrar de clássicos de ficção científica, aventura ou fantasia que foram os criadores desse clichê. Outro dia mesmo, a Meire do Salada Livros mencionou em seu Instagram um vídeo em que uma pessoa dizia que A Guerra dos Mundos é um livro cheio de clichês 😂😂😂. As pessoas perdem muito ao não lerem (ou pelo menos não se informarem) sobre os clássicos. Quando lemos ficção científica do final do século XIX (que nem propriamente tinha esse nome, ficção científica), vemos que muito do que é produzido hoje tem muita influência do passado. E olha, estou falando de apenas um gênero da literatura, que calha de ser meu favorito! Pois imaginem quantos autores ainda hoje são influenciados por Machado de Assis, por exemplo.

Mas chega de falatório, vamos ver essa tal lista 😊.

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Civilizações perdidas: Trata-se da velha história clichê, de um explorador que encontra uma civilização “perdida”, localizada em alguma parte isolada do mundo. Essa civilização é bem evoluída tecnologicamente e/ou socialmente, causando espanto ao explorador e sua equipe. No post anterior sobre o tema, mencionei Allan Quartermain, personagem criado por H. Rider Haggard e que é provavelente um dos primeiros personagens que seguem esse linha de ‘explorador que descobre civilizações perdidas’. A gente precisa lembrar que H. Rider Haggard escreveu essas histórias no final do século XIX e o mundo era bem menos sondado do que é hoje. O contexto histórico era o neocolonialismo, o Reino Unido estava com tudo! Eles tinham excelentes navios e saiam explorando os pontos mais remotos do mundo.  Até hoje existem alguns grupos humanos vivendo de maneira isolada e o Brasil é provavelmente o país que detém a maior quantidade de grupos humanos isolados (veja aqui), mas nenhum desses grupos possui desenvolvimento tecnológico superior ou avançado, comparado com o da civilização mainstream. Ah sim, normalmente esse clichê das civilizações perdidas aparece misturado com o próximo clichê.

Manuscritos/Inscrições antigos: Normalmente trata-se de um manuscrito antigo que contém revelações acerca de maldições ou sobre o futuro da humanidade. Também falei desse assunto no post anterior sobre o tema. São escritos que só podem ser desvendados por super especialistas, e normalmente estão escritos em hieróglifos ou qualquer escrita pictórica. As mensagens podem também aparecer codificadas e apenas um expert no assunto ou um iluminado (previsto numa profecia) pode decodificar a mensagem. Esse tópico é bem abordado na ficção científica e há pouco tempo ganhou força, com muitos acreditando numa suposta profecia maia que falava sobre o fim do mundo no final de 2012. Falei um pouco sobre essa profecia (acredito que muitos de vocês se lembram dela), nesse post.

Novos animais: Criados pelas mãos de um ‘cientista maluco’, ou que nunca antes haviam sido avistados ou que eram considerados extintos. Nessa categoria aqui, também entram “elos perdidos” da evolução humana, que seriam “homens das cavernas” que vivem isoladamente (pé grande ou Yetl, por exemplo). Este foi um tema especialmente popular na última parte do século XIX. Em O Mundo Perdido, de  Sir Arthur Conan Doyle, havia dinossauros ainda vivendo em um local remoto da América do Sul. Basta a gente pensar que no século XIX, a maior parte da América do Sul (principalmente seu interior e a região da Floresta Amazônica) era um lugar relativamente desconhecido e misterioso para os europeus. Em A Ilha do Dr. Moreau, escrito em 1896 por H. G. Wells, há um médico que cria criaturas monstruosas em uma ilha tropical remota. O Dr Moreau inclusive tem a ver com o próximo clichê que vou listar.

O cientista maluco: esse clichê é o clássico dos clássicos e sobrevive até hoje. É sempre um homem, muito inteligente, que pode ou não ter ideias megalomaníacas e muitas vezes não tem boas habilidades sociais. Suas ideias são rechaçadas pelos demais membros da comunidade científica. Muitas vezes trabalha isoladamente em um porão, casa isolada ou até uma ilha (como em A Ilha do Dr. Moreau). Suas teorias podem ser desde a criação de animais novos (como no clichê acima), ou sobre como criar um indivíduo a partir de partes dos corpos de cadáveres (Frankenstein, de Mary Shelley) ou ressuscitar mortos a partir de manipulação genética, por exemplo. E há cientistas malucos não somente na área das ciências biológicas! Há físicos, engenheiros, químicos, etc. Sempre descobrindo um “portal para uma nova dimensão” ou uma substância poderosa capaz de trazer benefícios. Quando não tem um espírito megalomaníaco, são almas boas que só pensam nos benefícios de suas descobertas, mas são muito ingênuos e não compreendem que aquela descoberta pode também ter uma aplicação maligna. Na vida real, é difícil pensar em um cientista maluco que trabalha isoladamente, uma vez que a ciência é um esforço conjunto.

Robôs e Andróides: Acho que nesse tópico, posso listar também animais mecânicos. Muitos escritores exploraram este tema durante a última metade do século XIX, muitas vezes como uma sátira social sobre a influência final das linhas de montagem, que seria a montagem pessoas em vez de produtos. Na ficção científica do século 20, os termos “robô” e “androide” ficaram claramente estabelecidos. Aparentemente, definiu-se que um robô é qualquer máquina que pode quase todo trabalho de um ser humano, mas sem supervisão humana. Um androide seria um ser humano artificial, que funciona mecanicamente ou bioquimicamente, mas é totalmente fabricado. Há histórias em que é difícil distinguir entre vida mecânica e vida orgânica, fato explorado frequentemente por Philip K. Dick.

Os visitantes de outros planetas: Este deve ser o tema mais abordado em qualquer obra da ficção científica. Assim que as pessoas passaram a concluir que a vida é um fenômeno natural, que pode aparecer em qualquer lugar com condições favoráveis  e que há outros mundos além da Terra, a possibilidade de que as criaturas inteligentes de outros planetas podem visitar-nos se tornou um tema comum de discussão. Na ficção científica, esses seres podem ser calmos e pacíficos, apenas em busca de conhecimento e trocas positivas. Em outras ocasiões,  são seres bélicos e violentos, que chegam a Terra para conquistá-la. Mas a realidade é bem diferente. Não há nenhuma evidência de que as criaturas de qualquer outro mundo já tenham visitado a Terra e praticamente já podemos afirmar o mesmo a respeito dos outros planetas de nosso Sistema Solar, dado nosso crescente conhecimento sobre eles. Visitas de outros sistemas solares são uma possibilidade extremamente remotas, tendo em conta as grandes distâncias interestelares. Nesse post, falei sobre o conto Micromégas, escrito por Voltaire no século XVIII, em que um habitante de um planeta que orbita a estrela Sirius (Monsieur Micromégas) e seu amigo, um habitante do planeta Saturno, visitam a Terra pacificamente. Outro exemplo clássico desse tipo de história é Guerra dos Mundos, de H.G. Wells (resenhei aqui), em que marcianos atacam nosso planeta e dizimam a Inglaterra. O curioso é que essas histórias de visitantes de outros planetas influenciaram em muito pensamentos pseudocientíficos do século XX. Por exemplo, o livro Eram os Deuses Astronautas, de Erich von Däniken. Esse livro, best-seller pseudocientífico, apresenta “evidências” que “provariam” que muitas civilizações politeístas da Antiguidade tinham deuses “de carne e osso” (ou não? rs). Quero dizer, esses deuses existiriam mesmo no plano material e seriam alienígenas de civilizações avançadíssimas. Esse pensamento pseudocientífico tem muita força até hoje e possivelmente foi o que deu origem à algumas seitas, como a Cientologia (falei dela aqui) e o Raelianismo.

Você, querido leitor que aderiu a moda do coque samurai, talvez você seja um seguidor do Raelianismo.
Você, querido leitor que aderiu à moda do coque samurai, talvez você seja um seguidor do Raelianismo.

Visitas à outros planetas: Esta tradição na literatura remonta cerca de 2.000 anos, mas só no século XIX que escritores de tais histórias geralmente tentaram descrever os outros planetas como eles realmente poderiam ser. E essa descrição naturalmente foi ganhando mais detalhes e mais ‘toques de ciência’ na segunda metade do século XX, principalmente no finalzinho do século XX e início do século XXI, com o aumento do conhecimento sobre nosso Sistema Solar e com a explosão nas descobertas de exoplanetas. Nessa linha de história, a minha favorita é The Martian Chronicles, de Ray Bradbury. Nesse livro, escrito em 1950, uma missão da Terra chega até Marte. O livro é escrito como um diário, narrando todos os acontecimentos dessa chegada e suas consequências. Evidentemente, pelas mesmas razões mencionadas no tópico anterior, viagens para outros planetas são muito difíceis ou quase “impossíveis”, devido às distâncias interestelares. Nas décadas mais recentes, wormholes e dobra espacial (ou Propulsão Alcubierre) tem sido teorias científicas muito mencionadas na ficção científica, como uma tentativa de ‘burlar’ essas enormes distâncias.

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Em breve, postarei a parte 2. Espero que tenham gostado. Acredito que outro post muito esclarecedor na mesma linha é o que falo a diferença entre Cientista e Pseudocientista.

 

Diferença entre Cientista e Pseudocientista