Houve mudanças no regime de chuvas na cidade de São Paulo?



Muitos afirmam que as chuvas na cidade de São Paulo estão mais violentas. Será que isso é verdade? E se for, por que essa mudança ocorreu? Vamos falar sobre esses pontos ao longo desse post.

Mais uma vez, para ilustrar esse post e chegar a algumas conclusões, precisei de dados. E utilizei a série histórica da Estação Meteorológica do IAG-USP. Como já contei outras vezes aqui no blog, essa estação meteorológica está em operação desde 1933. Vamos então falar desses 83 anos de dados, focando evidentemente na precipitação. Para entender as medições de precipitação e como o pluviômetro funciona, veja esse post.

Analisando (bem superficialmente, claro, apenas quero mostrar algumas coisas) esses 83 anos de dados de precipitação, é possível observar flutuações entre as quantidades acumuladas entre anos distintos, havendo anos mais chuvosos e anos mais secos, fato que também depende de fenômenos naturais como o El Niño. No gráfico da precipitação anual (abaixo), podemos também observar a tendência de longo prazo de um aumento nos acumulados de chuva.

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No gráfico acima, notamos que mesmo com os “sobes e desces”, ou seja, com as variações entre um ano e outro (anos mais secos e anos mais chuvosos), há a tendência de aumento de precipitação (chuva). Isso é evidenciado pela linha de tendência (na cor preta), que indica uma tendência linear de aumento de precipitação anual.

É importante notar também no gráfico acima que essa flutuação interanual aumentou nas últimas décadas.  Ou seja, temos experimentado mais extremos nas últimas décadas em relação ao início da série de dados, com anos extremamente secos e anos extremamente chuvosos.

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Certamente há uma resposta também associada às mudanças climáticas globais, uma consequência da emissão dos gases de efeito estufa. No entanto, não podemos garantir isso usando informações de uma única localidade, ou seja, usando apenas dados da Estação Meteorológica do IAG-USP. Estudos de mudanças climáticas globais levam em conta dados de diversas localidades do mundo. Por essa razão, quando trata-se de dados de apenas uma estação meteorológica (apenas um ponto), muitos cientistas falam em Mudanças Climáticas Locais.

É importante deixar claro que embora estejamos falando em mudanças climáticas locais, não significa que estamos negando o aquecimento global. Até porque, negar o aquecimento global por razões antropogênicas é ser contrário a opinião dominante da comunidade científica e falei sobre esse assunto nesse post.

Por falar em total de precipitação, vamos falar também de uma variável relacionada: o total anual de dias com chuva. O gráfico abaixo mostra essa informação e podemos notar que há uma tendência (embora não muito significativa) de redução no total anual de dias com chuva.

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Claro que também há as variabilidades interanuais (anos com mais dias de chuva e anos com menos dias de chuva), mas há uma tendência, indicada pela linha preta, que mostra que há uma pequena tendência de redução de total anual de dias de chuva.

Ou seja, de maneira bem simplória, podemos dizer que há mais chuva, porém ela está concentrada em menos dias. Isso sugere dias mais chuvosos, o que no cenário atual de cidades extremamente urbanizadas e “concretadas”, significaria mais episódios de enchentes, por exemplo.

Para mais informações sobre as variáveis observadas na Estação Meteorológica do IAG-USP, sobre médias e mudanças climáticas locais, consulte o Boletim Climatológico Anual.