Ignorância voluntária = burrice



Já faz algum tempo que defendo um pensamento muito simplório, uma opinião pessoal que acredito que vale a pena dissecar um pouquinho aqui no blog.

chuveiro

Acredito que existem vários tipos de ignorância. Tem as ignorâncias simples, que nada mais são do que o desconhecimento, que são aquelas ignorâncias que a pessoa faz tudo o que está a seu alcance para saná-las. O portador dessas ignorâncias simples é curioso. Ele lê, faz cursos, busca informação, pergunta para quem entende, etc. E todos nós somos portadores dessa ignorância simples, porque ninguém sabe tudo sobre tudo. São essas ignorâncias simples que nos fazem pensar, refletir, conjecturar e que nos fizeram e ainda nos fazem descobrir cada vez mais sobre o Universo.

Há pessoas que não tiveram acesso a educação formal,  porque suas histórias de vida impossibilitaram isso. Negligência do governo, negligência familiar, etc. Você certamente conhece pessoas que mal sabem escrever, mas que são dotadas de um espírito de curiosidade e querem oportunidades para aprender coisas novas. Isso também é ignorância simples. Num ambiente de forte negligência, sem acolhimento e sem amor, acredito que isso pode ser um combustível para a maldade e brutalidade, além de tornar essas pessoas alvos fáceis de charlatães.

Entretanto, a gente precisa sempre ter em mente que mesmo uma pessoa que não sabe ler ou escrever tem conhecimento, fruto da experiência de vida e observação. E esse conhecimento é muito importante e deve ser respeitado e exaltado.  Nada de agir como o médico que debochou do paciente por ele falar ‘peleumonia’!

Essas ignorâncias simples seriam facilmente consertadas se existissem escolas de qualidade, se houvesse uma clara separação entre religião e educação formal, se existissem iniciativas de fomento à cultura em todos os municípios, especialmente em localidades carentes, etc.  No entanto, não é desse tipo de ignorância simples que quero falar.  Quero falar da ignorância voluntária.

O ignorante voluntário é o burro. É aquele que possui um dogma ou uma visão parcial das coisas e acredita que isso já basta, pois já esgota o assunto. O conhecimento que ele tem (ou acha que tem) já basta. O ignorante voluntário sabe ler, inclusive lê bastante e escreve bem, tem acesso a cultura e educação formal, mas tem uma visão parcial das coisas. Essa parcialidade é consequência de uma arrogância dogmática, com viés religioso ou não. E a internet, leitores queridos, está cheia desse tipo de ignorante. Tenho certeza que vocês já encontraram alguns nas redes sociais, até em suas próprias famílias.

Fonte: Free Digital Photos
Fonte: Free Digital Photos

O ignorante voluntário acha que já sabe tudo, tem uma visão exagerada de seus conhecimentos, não tem boa vontade e não consegue enxergar todas as cores do mundo. E principalmente, para o ignorante voluntário, se você defende um ponto de uma determinada ideologia, logo você necessariamente segue aquela ideologia. E o contrário vale: se você critica algo, logo você ODEIA aquele algo e AMA o que é o exato oposto desse algo. Ou seja, são pessoas que só conseguem pensar de maneira binária e tudo é questão de paixão, amar ou odiar.

E eu tenho certeza que você conhece gente assim!

Para explicar isso melhor, recomendo o vídeo do Clarion a respeito do que ele chama de Metáfora da Caixa de Bombons:

Eu sou constantemente bombardeada por esses ignorantes voluntários. Tem horas que dou até risada, porque estou passando da fase de me estressar com isso. Em meu modesto canal do Youtube, mencionei certa vez que sou cristã e feminista. E não há incoerência nisso para mim, sou super bem resolvida com isso, porque eu não peguei todos os bombons do Feminismo e nem todos os bombons do Cristianismo. Mas, por falta de “opção de rótulos”, quando alguém me pergunta, digo que sou cristã e feminista.

Para dizer a verdade, sou a favor de todos os grupos que lutem por igualdade e justiça. Porque acredito que a mensagem de Jesus é principalmente uma mensagem de inclusão, pelo menos essa é a minha interpretação.

Vejam vocês, um vídeo humilde, sem pretensão, apenas com o objetivo de dizer que sou feminista porque acredito que nós mulheres precisamos de políticas específicas para conquistar a igualdade e que sou cristã por acreditar na mensagem de Cristo. Um vídeo eu diria até banal, mas que incomodou feministas e cristãos. Alguns disseram que é o mesmo que ser nazista e judeu (me disseram isso mais de uma vez!). Quando a discussão alcança o nível do enunciado da Lei de Godwin, chego a conclusão que não estou lidando com incoerentes, o que me dá mais um motivo para eu não me importar com esses chatos.

Crimes com motivação de gênero infelizmente são comuns, ou seja, mulheres que são agredidas e até são assassinadas simplesmente porque são mulheres. Ainda somos vítimas de desigualdade no mercado de trabalho e temos necessidades muito específicas, como a licença maternidade (para incentivar a amamentação e estabelecer o apego). A maior parcela de pessoas pobres no mundo é composta por mulheres. Dentre outros pontos, que deixam bem clara essa desigualdade entre gêneros. O Feminismo, ao meu ver, tem esse objetivo: conquista da igualdade nos pontos em que essa igualdade é possível, conquista do respeito, ampliação do acesso a oportunidades, etc.

A propósito, a mãe solteira da favela não quer saber se você raspa ou não suas axilas. Isso não é importante. Não faz diferença na vida das outras. E também não deveria fazer diferença na sua vida.

Por ser feminista, não significa que eu seja obrigada a concordar com a atuação do Femen ou de outros grupos ou pessoas com atitudes violentas ou simplesmente tolas, imaturas. Também não sou obrigada a ter uma orientação sexual específica ou a ter uma certa aparência física particular, no entanto devo respeitar quem é diferente de mim.  E algo semelhante posso dizer sobre ser cristã. Acredito em Jesus Cristo como meu Salvador pessoal, minha fé me traz esperança e alegria diante das dificuldades do mundo. Minha fé ajuda em algumas decisões práticas da minha vida (assim como ser feminista me direciona em certas atitudes cotidianas) e meu anseio por ser como Jesus me ajuda a direcionar minha vida. Porém, isso não significa que eu concorde com Marco Feliciano, Malafaia e outros. Nem com a Igreja Presbiteriana, denominação frequentada por boa parte de minha família, eu concordo totalmente.

Eu não acho que as mulheres tem que ser submissas aos seus maridos. Quando o Apóstolo Paulo escreveu isso, ele escrevia para um povo e em uma época específica. Além disso, muitas coisas foram perdidas nas traduções da Bíblia. Eu acredito em igualdade e respeito, não em submissão de nenhuma parte. E se isso significa discordar de um trecho da Bíblia, tudo bem pra mim, não seria a primeira vez.

Não significa também que eu sou obrigada a concordar com a interferência dos religiosos nas políticas públicas. Pelo contrário, acredito que Estado e religiões tem que ser coisas separadas. A única coisa que o Estado deve fazer é possibilitar que os cidadãos tenham liberdade religiosa e proteger as pessoas contra os abusos e crimes cometidos por seitas.

Eu não preciso comer todos os bombons da caixa. Não sou obrigada a comer It Coco ou Sensação só porque gosto de Diamante Negro ou Milkbar.  Eu acredito que isso é tão elementar e sinceramente lamento quando as pessoas, no afã de parecerem coerentes e inteligentes, tentam me obrigar a comer a caixa toda ou me ridicularizam por não come-la.  Eu apenas lamento por essas pessoas, que limitam sua capacidade de debate e raciocínio porque não conseguem parar de pensar de maneira binária. Muitas vezes, parece birra de criança!

Eu tenho ignorado e apagado comentários (do blog, canal e redes sociais) que seguem essa linha binária, principalmente se forem comentários passivo-agressivos. Não dá para debater com gente dogmática. Estou é fazendo um favor para essas pessoas, ao deletar os comentários delas, porque pelo menos essas palavras imbecis não ficarão registradas no eterno mar de gigabytes. E principalmente, não sou obrigada a ver em meus perfis de redes sociais comentários que me ofendam ou me constranjam.  No cotidiano, ignoro pessoas quando elas estão agindo de maneira dogmática e agressiva. Não quero mais gastar voz com pessoas que não querem trocar, quero apenas conversas produtivas, amigáveis e leves. Claro que pode discordar de mim, porém de maneira madura,  educada e respeitosa, pois todo mundo merece ser tratado assim.