As pessoas não falam por mal!



Uma das coisas que aprendi ao longo dos anos é que as pessoas não falam as coisas por mal.  Confesso que ainda estou em processo de aprendizagem com relação a esse tópico, mas espero ao longo desse texto dividir com vocês um pouco de meus pensamentos e de meu ponto de vista. E claro, espero trazer um pouco de esperança, principalmente para outras mães.

Fonte: Free Digital Photos
Fonte: Free Digital Photos

Talvez você argumente que sim, há pessoas que falam coisas por pura maldade. E talvez você esteja certa. Eu pessoalmente acredito que somos maus e que ser bom é um esforço diário (minha humilde opinião aqui). Mas deixe-me então reformular minha frase: as pessoas não falam maldades ou coisas inadequadas para me atingir diretamente porque eu não sou o centro do universo.

Vou contar uma historinha que vai permitir com que eu possa expor isso melhor para vocês. E vou abrir um pouco meu coração.

Eu tenho um filho que está na escolinha desde os 7 meses. Eu preciso trabalhar fora de casa e eu gosto de trabalhar fora de casa. Gosto do retorno financeiro e profissional. Gosto da liberdade que isso possibilita para minha existência. Eu já escrevi alguns posts a respeito disso, acredito que o mais completo é esse aqui. Minha realidade é semelhante a de diversas mães que acordam cedo, deixam seus filhos na escolinha e partem rumo às suas atividades profissionais diárias.

Vejam, gostaria de deixar algo muito claro: não tenho NADA CONTRA quem tem outro estilo de vida, digo, diferente do meu. Em tempos de internet, é necessário deixar isso claro. Há mães que abdicam de seu trabalho fora de casa e dedicam-se integralmente aos filhos. Cada um sabe de sua realidade, de seus projetos de vida, etc. Toda escolha precisa ser feita de maneira consciente, centrada e sempre conversando com o companheiro/companheira.

Todas as manhãs organizo a bolsa com as coisas de meu filho: leite, fraldas, roupinhas, etc. Faço isso com muito carinho e há dias que meu coração fica bastante apertado, triste por ter que deixá-lo na escola. Eu queria passar mais tempo com ele, mas tento passar com ele um tempo de qualidade todas as tardes, quando volto pra casa.

Num determinado dia, realizando minhas atividades diárias, um colega puxou assunto e contou que teve que pegar um segundo emprego, pois sua esposa teve que parar de trabalhar por causa do bebê. Esse colega argumentou que a criança, com 8 meses, não pegou a mamadeira e só mamava no peito.

Senti um aperto no coração, pois eu tive mais sorte em meu relato nessa parte:

Meu filho pegou a mamadeira super bem e não fez confusão de bicos. Nem testei aquelas mamadeiras-colher, pois eu não tinha conhecimento da existência desse produto (indicado para evitar confusão de bicos). Como meu filho se deu super bem com a mamadeira e continuou com a amamentação “direto da fonte”, nem me estressei [*]. Ah sim, para quem ainda não leu sobre isso, até o mês passado eu ordenhava leite materno e congelava. Fiz a ordenha por cerca de 7 meses e depois parei, introduzindo leite comum, apropriado para a idade entre 1 e 2 anos.

Parar de trabalhar não deve ser uma decisão fácil, tanto do ponto de vista econômico quanto do ponto de vista psicológico. Ganhar sua própria renda é empoderador, não há como negar isso. Imagino que a família desse meu colega tenha sofrido um impacto econômico e além disso, ele está reduzindo drasticamente seus períodos de descanso e lazer com a família, ao assumir um segundo emprego.

Mas então o colega continuou. Disse que nas creches as crianças são maltratadas, pois deixam as crianças chorando. Disse que não submeteria seu bebê a isso e que fazia questão de pegar um segundo trabalho. Admiro muito pessoas que são trabalhadoras e focadas, como meu colega. Mas ele está equivocado quando diz que as crianças são maltratadas nas creches. Depende da creche, evidentemente. Por isso, como pais e mães, temos que ser presentes e observadores, tentando fazer uma boa escolha de escolinha.

Eu senti um aperto na garganta. Poxa, eu deixo meu filho na escolinha! E estou fazendo isso pelo bem dele e pelo bem da nossa família. E tenho certeza disso! É o que temos, é a melhor decisão no momento. Nós pensamos e refletimos sobre essa decisão, pesamos tudo na medida do possível. Ninguém tem o direito de sugerir ou de dizer que eu (ou qualquer outra mulher) não sou uma boa mãe porque deixo meu filho em uma creche.

Então, é aí que entra o meu aprendizado, meu amadurecimento. Meu colega não estava me atacando. Ele estava relatando o ponto de vista seu e de sua família. Estava dividindo sua decisão comigo. E eu não tenho nada a ver com isso! Claro que o que ele me falou deu um apertozinho na minha garganta, como mencionei. Mas nem chega perto de como isso teria atingido a Samantha do passado.

Ok, mas e se isso for uma indireta para mim?

Duvido que seja, mas se for, problema do meu colega e apenas dele 😂. Temos que parar de pensar que somos o alvo de tudo. O mundo tem uns 7 bilhões de habitantes, vamos parar de centralizar tudo na gente. E se foi uma indireta para mim, repito: problema dele. Pessoas maduras falam as coisas importantes diretamente para os reais interessados. Do que adianta dar indireta? Uma vez alguém nesse mar de gigabytes disse que indireta é igual uma granada: não acerta apenas o alvo onde foi lançado, atinge também quem está por perto. E as vezes, se não jogar a granada direito, o alvo não é atingido. Não é um método muito eficaz.

Se alguém quiser me dar um conselho valioso, algo que realmente personalizado para mim e que vale a pena pelo menos ouvir, tenho certeza que:

  • esse alguém é de confiança e tem intimidade suficiente para me aconselhar;
  • esse alguém falará pessoalmente, discretamente, com delicadeza e amor.

Além disso, nem tudo é indireta. As pessoas apenas falam as coisas: para desabafar, puxar conversa, porque são carentes, etc. Nem sempre as coisas que as pessoas falam são adequadas. Nem sempre o que falamos condiz com a situação ou é relevante. Cometemos gafes, indiscrições, etc. Ao longo de um único dia, aposto que todos nós perdemos boas oportunidades de simplesmente ficarmos calados.

Por isso, prefiro sempre acreditar (para minha própria sanidade) que as pessoas não falam coisas inadequadas para me atingir diretamente. Procuro repetir esse mantra, mentalmente, todas as vezes que uma situação como a que narrei acima acontece comigo.

Concluindo…

Querida mamãe que trabalha fora e que estiver lendo isso, espero que você aplique isso para sua vida. Dessa maneira as coisas ficam mais simples e mais leves e você consegue aplicar toda sua energia em coisas positivas.

Eu realmente gostaria que a sociedade estivesse mais preparada para ter mães no mercado de trabalho. Mas se a gente for refletir, ter mulheres como força de trabalho é algo relativamente novo aqui no Brasil. As lutas de diversas mulheres e homens e fibra nos proporcionaram alguns direitos, mas ainda falta bastante coisa. Falta principalmente compreensão por parte dos empregadores e mais participação dos companheiros (isso melhorou bastante, vemos muitos pais participativos atualmente!) nas responsabilidades envolvendo os filhos.

Infelizmente, as coisas ainda não são como gostaríamos que fosse. Sou esperançosa, sempre acredito que as coisas podem mudar. Temos que trabalhar com aquilo que temos. E o que temos? Nossa capacidade de abstrair, ignorar e tratar com leveza algumas situações, evitando que certas palavras nos atinjam. E vamos seguir juntas nessa luta diária pela leveza. Somos poderosas.

💛💛💛

[*] Acho bastante oportuno ressaltar que o aleitamento materno deve ser incentivado, porém nunca obrigado! Cada mãe/bebê tem suas necessidades específicas que merecem ser respeitadas. Aqui no blog e nas minhas redes sociais, quando interajo com outras mães que me pedem informações sobre ordenha de leite materno e amamentação, sempre procuro incentivar, porque a ciência já mostrou que o aleitamento materno é a melhor opção. No entanto, somos seres com várias facetas, cada indivíduo possui necessidades e motivos específicos. Se as coisas não saíram como você esperava (e você teve que complementar a amamentação ou dar somente fórmula), entenda que você é sim uma excelente mãe, pois está fazendo o melhor para você e seu bebê.