Atlas internacional de nuvens – International Cloud Atlas

O International Cloud Atlas (ou apenas Cloud Atlas) ou Atlas Internacional de Nuvens é uma publicação com fotos e descrições dos tipos de nuvens. É uma publicação muito importante no treinamento de meteorologistas e técnicos em meteorologia, pois o tipo de nuvem presente no céu tem relação com o tempo presente e também ajuda na previsão do tempo, indicando por exemplo a entrada de uma frente fria. Em outras palavras, o tipo de nuvem presente no céu pode ter relação com o quadro sinótico.

O Atlas Internacional de Nuvens foi publicado pela primeira vez em 1896 pelo The International Meteorological Committee, comitê criado pela International Meteorological Organization (IMO). A IMO foi extinta quando criaram a World Meteorological Organization (WMO, veja mais sobre essa história aqui).

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Capa da primeira edição do International Cloud Atlas, publicado em 1896 pelo The International Meteorological Committee, que fazia parte da International Meteorological Organization (criada em 1878, mas que no século XX foi extinta, uma vez que foi criada a World Meteorological Organization).

 

O Internation Cloud Atlas continua sendo republicado e reimpresso até a atualidade. A primeira edição, além de pinturas, já contava com algumas fotografias coloridas, que na época era uma tecnologia extremamente nova, complicada e cara. É possível consultar parte da primeira edição e suas fotografias nesse link.

Os organizadores da primeira edição foram  Hugo Hildebrand Hildebrandsson, Albert Riggenbach, e Léon Teisserenc de Bort (meteorologistas sueco, alemão e francês, respectivamente), que faziam parte da Cloud Commission (Comissão de Nuvens) da IMO. Os textos eram apresentados em inglês, francês e alemão (Internation Cloud AtlasAtlas international des nuages e Internationaler Wolkenatlas). 

O esforço em criar um Atlas de Nuvens surgiu da observação de diversos meteorologistas e naturalistas do século XIX que concluíram que os tipos de nuvens eram parecidos em todos os lugares do mundo. Dessa maneira, nada mais natural do que organizar uma publicação que pudesse fazer parte do treinamento dos meteorologistas de todo o mundo.

Depois da primeira edição, vieram muitas outras edições. Esse verbete da Wikipedia destaca as edições de 1911, 1932, 1939, 1956, 1975, e 1995. A extinta IMO tinha como idiomas oficiais o Inglês, o Francês e o Alemão. Com o fim da IMO e surgimento da WMO, os idiomas oficiais passaram a ser somente o Inglês e o Francês. Desconfio fortemente que isso tenha a ver com a derrota dos alemães na Segunda Guerra Mundial.

Uma curiosidade interessante a respeito da edição de 1932 é que além de ter sido publicada em Inglês, Francês e Alemão, foi também publicada em Catalão, uma vez que Rafel Patxot, membro do comitê científico da IMO e que colaborou com o Serviço Meteorológico da Catalunha, patrocinou toda a publicação.

A edição de 1939 mudou um pouco o nome, indicando uma abrangência maior: International Atlas of Clouds and Types of Skies (Atlas Internacional de Nuvens e Tipos de Céu). A Edição de 1956 foi publicada em dois volumes, no qual um continha textos e o outro continha as fotografias. Essa decisão, aliada com tecnologias melhores de impressão, possibilitaram uma maior tiragem e facilitaram a tradução para outros idiomas.

Uma curiosidade sobre a edição de 1975 é que ela foi publicada com uma diferença de 12 anos. Como assim? Bom, o Volume 1 (textos) foi publicado em 1975 e o Volume 2 (fotografias) foi publicado em 1985. Essa peculiaridade faz com que seja difícil encontrar os dois volumes impressos juntos na mesma biblioteca. Eu tenho o Volume 2 em .pdf e o disponibilizei aqui.

O curioso sobre essa edição de 1975/1987 é que ela contém um capítulo que descreve as nuvens vistas de cima, a partir de aeronaves. Essa é a edição mais usada na formação dos meteorologistas. Nessa edição, há uma boa definição do conceito de meteoro, o qual expliquei aqui. Os meteoros (fenômenos que ocorrem na atmosfera da Terra) são agrupados e explicados nessa publicação de acordo com suas características:

  • Hidrometeoros: conjunto de partículas de água líquida ou sólida em suspensão (nuvens),  em precipitação na atmosfera (chuva, neve ou granizo, por exemplo), ou sopradas/borrifadas pelo vento na superfície da Terra (um vento que sopra no oceano e borrifa água, por exemplo) ou que se depositam no solo (orvalho ou geada, por exemplo).
  • Litometeoros: um conjunto de partículas sólidas (não-aquosa) em suspensão no ar, levantados da superfície pelo vento (aerossóis, areia de deserto levada pelos ventos, etc);
  • Fotometeoros: fenômenos luminosos produzidos por reflexão, refração, difração ou qualquer tipo de interferência da luz do Sol ou da Lua. Arco-íris, coroa lunar/solar, halo, sundogs, glória, etc.
  • Eletrometeoros: manifestação audível ou visível da eletricidade atmosférica.

As edições do International Cloud Atlas são muito importantes, pois servem de guia para que os Institutos Meteorológicos de diferentes países façam publicações semelhantes para treinamento dos profissionais da área de Meteorologia. Essas publicações nacionais evidentemente mantém os nomes e tipos de nuvens, pois trata-se de um padrão internacional, porém levam em conta as condições sinóticas características da localização do país. Isso é de extrema importância, pois torna o conhecimento mais prático e aplicável para aquela realidade. No Brasil, por exemplo, temos que levar em conta fenômenos de escala sinótica tais como Frentes Frias, Zona de Convergência Inter-Tropical, Zona de Convergência do Atlântico Sul, etc. Em outros países, provavelmente outros fenômenos e outras peculiaridades precisam ser levados em consideração. Apesar dessas especificidades, como foi notado pelos meteorologistas do século XIX, os tipos de nuvens que aparecem no mundo são os mesmos,  o que muda são as circunstâncias em que esses tipos de nuvens aparecem.

No site da WMO é possível fazer um cadastro e enviar fotografias originais para o International Cloud Atlas. Não sei se uma nova versão será lançada em breve (e se essa versão será impressa, uma vez que hoje em dia as consultas são feitas em meio digital, na maioria das vezes), mas gostei dessa iniciativa colaborativa.

Conclusão 

Uma das coisas mais interessantes que pudemos perceber ao longo desse breve histórico das publicações do International Cloud Atlas é como o conceito de publicação foi se modificando ao longo de mais de um século, graças ao desenvolvimento tecnológico. Imaginem o custo e as dificuldades técnicas para se obter fotografias coloridas no final do século XIX e atualmente, isso pode ser obtido em casa, ou seja, está plenamente acessível.

Além disso, mais de um século depois, a gente percebe que a maneira de consultar a informação mudou. Hoje as pessoas fazem buscas pela internet e aprendem sobre os tipos de nuvens em blogs, fóruns, comunidades, etc. Claro que convém buscar uma informação de qualidade no site da WMO. O que quero dizer é que está se tornando cada vez mais incomum ver alguém debruçado em uma publicação impressa com fotografias de nuvens.

No entanto, aprender sobre os tipos de nuvens e sua relação com o quadro sinótico ainda é parte do treinamento do meteorologista. Mesmo com todo avanço tecnológico, nada substitui a observação e a interpretação, feitas usando o conhecimento e a experiência do profissional.

Referências

As referências usadas para escrever esse texto estão linkadas ao longo do post.