Ficção Científica e Pseudociência: clichês e temas recorrentes – Parte 3



Antes de ler esse post, confira as partes anteriores:

Quem acompanha o Meteorópole sabe que eu gosto de ficção científica “das antigas”. Nada contra os trabalhos mais novos, inclusive os acompanho sempre que possível. Mas eu gosto muitos dos clássicos, e venho sempre com o objetivo de tentar descobrir quem falou sobre um determinado tema pela primeira vez. Talvez porque eu goste muito de História.

Pois então, com a ajuda desse texto e de algumas observações pessoais, elenquei uma lista de clichês e temas recorrentes da ficção científica. Alguns desses temas são realmente absurdos, impossíveis e digamos que são até pseudocientíficos. Não tem problema, a nossa mente que adora uma viagem criativa cheia de explosões no espaço sideral,  também gosta de delírios.

Confira as partes anteriores e continue acompanhando minha saga. Hoje vamos falar de explosões, dimensões espaciais adicionais, mundos coexistentes e mundos paralelos.

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Explosões no espaço: um tema muito visual, recorrente em diversos filmes. O problema não é a explosão em si (ela é até possível no espaço, conforme veremos). O problema é seu tamanho/aparência e seu som. Para o som se propagar, é necessário um meio físico (na nossa atmosfera, por exemplo, o som é causado pelas vibrações do ar). No espaço sideral, há poucos átomos de gases por m³, de modo que não tem como o som propagar. O clarão da explosão até é possível, desde que a explosão seja causada por um material explosivo que contenha oxigênio em sua composição. A pólvora, por exemplo é composta por nitrato de potássio, carvão vegetal é enxofre. O nitrato de potássio, quando aquecido, fornece o oxigênio necessário para a explosão. Uma granada, por exemplo, pode explodir no vácuo, teoricamente. No entanto, seria totalmente diferente daquilo que a gente vê nos filmes. Claro, não haveria som. E outra coisa, a duração e o jeito da explosão provavelmente seriam diferentes, provavelmente seria um clarão bem rápido, conforme é especulado nesse fórum de física.

A Quarta Dimensão ou A Quinta Dimensão ou A Enésima Dimensão: A alegação geral é que existem “outras” dimensões espaciais, além das três que conhecemos (x,y,z) e se pudéssemos “aprender” a se deslocar nesses outras dimensões (geralmente falam de apenas uma, chamam de ‘quarta dimensão’) poderíamos fazer coisas sobrenaturais ou impossíveis, como instantaneamente viajar de um lugar para outro, penetrar estruturas sólidas, etc.

No episódio  “Casa da Árvore dos Horrores VI” de Os Simpsons (especial tradicional de Halloween), Homer acidentalmente descobre a “terceira dimensão” 😂.

Homer surpreso com a terceira dimensão!
Homer surpreso com a terceira dimensão!

No entanto, as forças que atuam no Universo e que podemos medir com precisão atualmente são perfeitamente explicadas com três dimensões. Físicos e matemáticos trabalham rotineiramente em espaços abstratos de números arbitrários de dimensões, até mesmo infinitas dimensões. Além disso, os esforços modernos de unificar as forças (Teoria de Tudo) muitas vezes envolvem trabalhos matemáticos com múltiplas dimensões espaciais, 8 ou até mais. No entanto, isso trata-se de um ‘truque matemático’ para facilitar a compreensão e o estudo do tema e não tem nada a ver com o número real de dimensões espaciais.  Para finalizar, parece óbvio que se existissem mais dimensões espaciais além das 3 que conhecemos, nada poderia “evitar” que a matéria ou energia se movessem nessas direções.

Mundos Coexistentes: esse tema recorrente não é o mesmo que “dimensões adicionais”, como tratamos acima. Também não é a mesma coisa que “mundos paralelos”, tema que veremos na sequência. O ser humano consegue ‘ver’ apenas uma faixa muito limitada do espectro eletromagnético e o tema de mundo coexistentes utiliza esse gancho. Por exemplo, se pudéssemos ‘ver’ a cidade de Nova York pela luz ultravioleta, ela seria também uma selva. Nós, seres humanos, não estamos cientes dessa selva, uma vez que não “enxergamos” na parte ultravioleta do espectro. Claro que isso não faz sentido algum: um cego não pode ver o mundo que o cerca, mas nada o impede de tropeçar no meio fio.  Um objeto, que não pode ser visto, ainda pode ser sentido e sua existência será óbvia. Além disso, um objeto que refletisse apenas a luz ultravioleta, por exemplo, seria claramente visível. Por quê? Um objeto, que não reflete luz visível aparecerá preto para os nossos olhos.

O tema de Mundos Coexistentes não está apenas relacionado com espectro eletromagnético. Consigo pensar em dois episódios de Star Trek (um da TOS e outro da TNG) que abordam esse tema, mas que na verdade consideram espécies que vivem num referencial mais acelerado que o nosso e que por essa razão, não conseguem ser vistas sem os ajustes tecnológicos necessários. Falei desses dois episódios nesse post. Há ainda trabalhos de ficcção especulativa que falam que existe sim um mundo coexistente mas que nossa capacidade sensorial nos impede de ver, não entrando em muitos detalhes sobre o porquê dessa impossibilidade. Aqui entram temas relacionados com “mundo dos espíritos” ou coisas do tipo e apenas em circunstâncias especiais esses dois mundos se misturariam.

Mundos paralelos: Aqui eu diria que temos uma tríade de temas recorrentes – quarta dimensão, mundos coexistentes e mundos paralelos. E dessa tríade, o tema que mais me interessa são os mundos paralelos. Eu já falei, por exemplo, que sou fã da série Sliders. Acredito que hipotetizar circunstâncias  é uma atitude natural do ser humano. É o tal pensamento “e se?”, que se tornou muito popular na ficção do século XIX:  E se o Sul tivesse vencido a Guerra Civil? E se Napoleão não tivesse invadido a Rússia? E se os holandeses tivessem dominado o Brasil? E através dessas hipóteses, os escritores criaram roteiros variados.  Como sobre personagens foram atingidos por um raio ou algo assim e acordam  em outro mundo em que a história havia tomado outro rumo. Essas hipóteses nada mais são do que a interpretação do conceito de probabilidade: uma moeda lançada tem 50% de probabilidade de sair ‘cara’ e 50% de sair coroa. A cada vez que a moeda é lançada, o universo é dividido: em um, a moeda deu cara e no outro, coroa. Uma vez que quase tudo o que acontece no universo é uma questão de probabilidade e uma vez que um número quase ilimitado de processos estão ocorrendo a cada fração de segundo, estamos falando de um número ilimitado de ‘novos’ universos surgindo a cada fração de segundo.  Na física moderna, fala-se em transição de fase. O estado atual do universo não é o único estado possível. Pelo que sabemos, todo o universo de repente poderia fazer uma “transição de fase”, de modo que todas as constantes e leis da natureza fundamentais seriam totalmente diferentes, e as coisas como nós os conhecemos deixariam de existir. Talvez esse seja o conceito físico real mais próximo possível da ideia de universos paralelos proposta pela maioria dos trabalhos de ficção científica, embora não tenha nada a ver com ele.

A ideia de que um físico bonitão chamado Quinn Mallory (Sliders) possa sair por aí apontando seu controle remoto (?) – cuja fonte de energia não é muito bem explicada –   criando fendas para universos paralelos é uma ideia sedutora, mas  não é realmente possível.

Um trabalho de literatura do século XX muito famoso e que provavelmente foi referência para outros trabalhos que abordam a ideia de mundos paralelos é a série Imperium, de Keith Laumer.

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Você viu a primeira temporada de Stranger Things, disponível no Netflix? Como quase todos que assistiram, adorei a série. Até porque admiro muito o trabalho de Stephen King e a série tem diversas correspondências com o trabalho dele. Agora me digam: o Mundo Invertido é um mundo coexistente ou um mundo paralelo? O que vocês acham?

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Ainda teremos a parte 4 e talvez até a parte 5. Não sei onde vamos parar, mas acredito que meu levantamento está ficando muito interessante. Espero que vocês gostem também!