A Meteorologia como tema transversal



Slide emprestado dessa ótima apresentação sobre o tema, que está disponível no Slideshare.
Slide emprestado dessa ótima apresentação sobre o tema, que está disponível no Slideshare.

Segundo o Ministério da Educação (MEC), temas transversais “são temas que estão voltados para a compreensão e para a construção da realidade social e dos direitos e responsabilidades relacionados com a vida pessoal e coletiva e com a afirmação do princípio da participação política. Isso significa que devem ser trabalhados, de forma transversal, nas áreas e/ou disciplinas já existentes”.

Como é colocado no portal Educa Brasil:

Os temas transversais são assim adjetivados por não pertencerem a nenhuma disciplina específica, mas atravessarem todas elas como se a todas fossem pertinentes. Eles fazem parte dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), criados a partir do Plano Nacional de Educação (PNE), estabelecido em 1999, os quais não constituem uma imposição de conteúdos a serem ministrados nas escolas. São apenas propostas nas quais as secretarias e as unidades escolares poderão se basear para elaborar seus próprios planos de ensino.

É possível colocar a Meteorologia como um tema transversal?

Falando como meteorologista, posso dizer que teoricamente é sim (já veremos isso na prática, aguardem queridos educadores).  E por que teoricamente? Bom, em nossa formação, temos disciplinas de diversas áreas: Física, Matemática, Computação, Química, Biologia, Geografia etc. Durante o curso de graduação, o aluno percebe o quanto a carreira em Meteorologia é uma união de diversas áreas do conhecimento (e é assim em outros cursos de graduação também, claro).  Se trouxermos essa riqueza para a realidade do Ensino Fundamental e Médio, percebemos que é possível ensinar conteúdo de meteorologia em diversas matérias.

Normalmente, é o que é feito com o ensino de Educação Sexual, por exemplo. O aluno pode ver o tema em Biologia, Química, História e Literatura. Cada área vai abordar o conteúdo dentro de suas competências e isso vai ajudar o aluno a construir o conhecimento considerando os diversos aspectos e abordagens do mesmo tema.

E por que colocar a Meteorologia como um tema transversal? Bom, como meteorologista eu poderia dizer simplesmente que isso deve ser feito pois essa ciência é linda, mas eu seu que preciso de argumentos bem menos subjetivos. Por isso, vou destacar uma importante fala de Divino Moura, meteorologista brasileiro que é vice-presidente da Organização Meteorológica Mundial (World Meteorological Organization).

De Brasília, em entrevista à Rádio ONU, o vice-presidente da Organização Mundial de Meteorologia, OMM, Divino Moura destacou que é preciso conhecer mais o clima para poder agir mais, tanto na questão climática, de mudanças climáticas, quanto naquelas de variabilidade natural do clima. “O que você pode fazer em termos de recursos hídricos, por exemplo, o Brasil este ano e no ano passado passou por uma seca severa na região sudeste. O que você pode fazer com os recursos hídricos em termos de apoio às atividades agrícolas, defesa civil, de energia e assim por diante.”

Segundo a ONU, nos últimos 12 meses, milhares de vidas foram salvas em todo o mundo pela melhora na previsão do tempo, sistemas de alertas e preparação para desastres naturais.

Fonte: CREA-SE

Acredito que com as palavras acima, consegui convencer o leitor sobre a importância da Meteorologia. Essa importância nos leva a concluir que é um ótimo tema transversal, que convida o aluno a refletir sobre as ações do homem na natureza, sobre a devastação e o mau uso dos recursos naturais. Uma lógica muito semelhante poderia ser aplicada à Geologia, outra área do conhecimento que daria um ótimo tema transversal.

E alguém já aplicou essa transversalidade?

É evidente que há iniciativas de diversos educadores pelo Brasil todo, mas eu vou falar de uma iniciativa da qual tomei conhecimento e me inspirou a escrever esse post.

Constantemente conheço muita gente através de meu blog, muitos educadores. São professores que ficam felizes em encontrar no meu blog uma ferramenta, um pequeno acervo onde posso colaborar com suas aulas. O mais interessante é que conheço gente do Brasil todo! Estou aqui em São Paulo, não consigo viajar o tanto quanto gostaria e esse blog é como uma janela que permite com que eu fale com “vizinhos”, mesmo que eles estejam há centenas de quilômetros de mim. São “vizinhos ideológicos”, digamos assim, como por exemplo:

  • Apreciadores  de ficção científica;
  • Divulgadores de Ciência (jornalistas, educadores, etc);
  • Professores e educadores de modo geral.

Conheci há algumas semanas o Ricardo Capiberibe,  físico pelo INFI-UFMS. Ele trabalha como pesquisador associado do Laboratório de Ciências Atmosféricas da UFMS, sob orientação do Prof. Dr. Moacir Lacerda, e é professor da rede pública estadual do Mato Grosso do Sul. Abaixo, nas palavras dele:

Eu trabalho na Escola Estadual Amélio de Carvalho Baís, que é uma das poucas escolas de ensino médio pública de tempo integral. Os alunos tem uma carga horária um pouco maior nas disciplinas básicas e também fazem as chamadas Atividades Optativas ou Oficinas. Desde agosto do ano passado nós começamos uma oficina nova Climatologia/Meteorologia. Essa oficina nasceu como um projeto piloto da SED-MS em parceria com Colégio Militar de Campo Grande e o meteorologista Natálio Abrão.

Esse ano nós começamos um projeto chamado Alerta Raios, do Cemtec, que consiste na instalação de sensores de campo elétrico em escolas estaduais e a minha escola foi a primeira a receber. E na nova turma, há uma aluna chamada Naomi Cambaré que sempre demonstrou muito interesse por Meteorologia. Ela queria participar de feiras de ciência como a FECINTEC, FETEC, FEBRACE. O projeto inicial dela era construir um aplicativo no celular que desse alertas de chuva, baixa umidade e estresse térmico. Sugeri que ela incluísse o sensor de campo elétrico para dar um alerta de raios. Infelizmente, montar o aplicativo se mostrou mais difícil do que pensávamos e ela estava quase desistindo da ideia quando eu sugeri montarmos um blog.
Então, o que colocaríamos no blog? Foi quando ela sugeriu trabalharmos com planos de aula para ampliar o saber meteorológico. Eu gostei muito da ideia, pedi para ela ler o referencial curricular e apontar quais conteúdos poderiam usar a meteorologia como tema. Ela fez isso, também entrevistou os professores das ciências da natureza e matemática, e dessa maneira foi montando os planos de aula. Eu fui ajudando, arrumando algumas coisas. Aqui nós temos a ‘semana do saco cheio‘, porque dia 11 de outubro é feriado da Criação do Estado do Mato Grosso do Sul (11 de outubro de 1977, leia mais aqui). Sendo assim, temos 5 dias de recesso. Nesses 5 dias nós trabalhamos on-line no blog com muito cuidado. Do dia 19 ao dia 22 de outubro teve a FECINTEC do IFMS e nós apresentamos o trabalho. Conseguimos o segundo lugar na categoria Multidisciplinar. Nós também fizemos um trabalho de biometeorologia, que não ganhou, mas que também ficou muito interessante.
Do trabalho do Prof. Ricardo e de sua aluna Naomi resultou o blog ABC do Tempo, onde os planos de aula elaborados são disponibilizados. O conteúdo do blog pode inspirar equipes inteiras de professores, já que há exemplos de conteúdos que podem ser apresentados em diversas disciplinas. No print abaixo, que fiz do blog, podemos notar as disciplinas que podem apresentar conteúdo relacionado à Meteorologia:

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Portanto, queridos professores que por ventura estejam acessando esse conteúdo, sugiro que vocês visitem o blog ABC do Tempo e se inspirem. Se você gosta de Meteorologia e está ciente da importância dessa área do conhecimento, principalmente no contexto atual da sociedade, acredito que o ABC do Tempo pode inspirá-lo a abordar o tema.

Eu fiquei imensamente orgulhosa do projeto e muito feliz com o resultado. O Prof. Ricardo me procurou e elogiou o trabalho aqui no Meteorópole, dizendo que meu humilde blog os ajudou a elaborar esse projeto. Isso me anima imensamente! Quem escreve blogs (seja qual for o tema) muitas vezes fica desanimado. Um desânimo que pode ser causado por ataques de haters, problemas pessoais, falta de tempo para se dedicar ou por falta de ideias!  E eu já passei por todos esses motivos de desânimo. Mas quando eu tomo conhecimento de iniciativas tão maravilhosas, isso me dá a injeção que preciso para retomar o ânimo!

Parabéns, Ricardo e Naomi! Tenho certeza que vocês vão inspirar outros alunos e professores a elaborarem ideias de transversalidade usando outras áreas do conhecimento e também ajudarão professores que pretendem aplicar a Meteorologia como um tema transversal.

Envio de dados para o Cemtec

O Cemtec (Centro de Monitoramento de Tempo, do Clima e dos Recursos Hídricos do Mato Grosso do Sul) tem uma parceria com a Escola Estadual Amélio de Carvalho Baís. O Prof. Ricardo Capiberibe conhece a Franciane Rodrigues, que é física e mestre em meteorologia no IAG-USP e que  trabalha no Cemtec. Esse networking possibilitou essa parceria.

A parceria possibilitou a instalação de uma estação AW001 na escola. Os detalhes dessa instalação estão disponibilizados nessa notícia no site do Cemtec:

A estação é composta de um sensor de umidade e de temperatura, um anemômetro que mede a quantidade de vento, o pluviômetro que mede a quantidade de chuva e sensor de pressão. Os dados coletados pelos alunos através das medições da estação serão disponibilizados em nossa página www.cemtec.ms.gov.br.

Clique aqui  para ter acesso direto aos dados e boletins da Escola Estadual Amélio Baís.

A instalação foi bastante recente, em 10 de Agosto de 2016 e em 18 de Agosto de 2016, foi observada uma chuva intensa com granizo em alguns pontos de Campo Grande! Foi uma tempestade bastante localizada e que também foi observada e quantificada na Escola Estadual Amélio Baís, graças a presença da estação meteorológica recém-instalada e claro, graças ao  engajamento do Prof. Ricardo e de seus alunos.

Estação meteorológica automática
Estação meteorológica automática AW001 instalada na Escola Estadual Amélio Baís. Fonte: Cemtec

O trabalho do Prof. Ricardo foi destaque na imprensa. Clique aqui e veja a reportagem do MSTV, que destacou o trabalho do professor. A reportagem falou do envolvimento dos alunos nas atividades de Meteorologia/Climatologia, falou do sensor de campo elétrico e da estação meteorológica em operação na escola. A reportagem também menciona a relação da Meteorologia com outras atividades realizadas na escola, como a horticultura. Ao final da reportagem, é ressaltado o caráter transdisciplinar da iniciativa e os âncoras do jornal também parabenizam a escola.

Ah sim, a reportagem também menciona a fanpage (Águias do Leste) em que os alunos divulgam as informações meteorológicas.