Ficção Científica e Pseudociência: clichês e temas recorrentes – Parte 4



Antes de ler esse post, confira as partes anteriores:

Eu transformei esse tema em uma série porque o post foi ficando muito e muito longo conforme fui fazendo minhas pesquisas e leituras. Além disso, dessa maneira consigo criar mais conteúdo para meu blog e com uma qualidade melhor.

Hoje vamos falar sobre vibrações, energia, transferência de consciência/pensamentos e modificação da realidade pela ‘força do pensamento’.

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Vibrações: Os físicos no século XIX estavam muito interessados em vibrações e ondas. Escritores de ficção popular  e pseudocientistas acabaram se apropriando dessas palavras. Claro que fisicamente existe o termo vibração, sempre usada no sentido de oscilação ou balanço. E esse termo é aplicado tanto em mecânica clássica quanto em mecânica quântica. Ou seja, é um termo bastante abrangente e o problema de sua aplicação na ficção popular ou nas pseudociências é a aplicação fora de contexto. É um termo amplamente utilizado em religiões da Nova Era, muitas vezes significando o “humor” de uma pessoa ou grupo de pessoas, refletindo no ‘conforto emocional’ de um local onde se reúne um grupo de pessoas. O termo good vibes ficou bastante comum, por exemplo, para desejar boa sorte e bons momentos para alguém.

Quero deixar bem claro que estou apenas fazendo um levantamento de termos e temas amplamente empregados na ficção científica e/ou na pseudociência. Em alguns momentos, principalmente quando o assunto tem uma profunda relação com charlatanismo e aproveitamento da boa fé das pessoas, eu realmente critico e isso fica muito claro. Em outros, é apenas parte da listagem. Acho lindo quando alguém deseja verdadeiramente algo de bom para seu semelhante, sejam boas vibrações, boa sorte, uma oração, etc. Isso mostra que esse alguém tem um coração lindo, digno de admiração.

Energia: Mais um conceito físico que é amplamente empregado de forma equivocada, assim como o termo vibração. Em Física, energia é provavelmente o conceito mais importante de ser compreendido, e de maneira bem geral pode ser definido como “quantidade de trabalho que foi realizada por um sistema/corpo/etc” (pessoal, desculpem, não sou física, leiam mais aqui).
powder_poster

O poster acima é de um filme que é um clássico dos anos 90 e chegou nos distribuidores brasileiros com o nome Energia Pura. O termo energia pura é bastante curioso, como bem destaca esse texto. A definição de temperatura, por exemplo, é a medição direta da energia cinética das moléculas e não faria sentido falar em ‘pura temperatura’.

Muitas vezes, nas religiões da Nova Era, os conceitos de Energia/vibrações se misturam. O mesmo acontece na ficção científica. Em Star Trek e em diversos filmes e séries de ficção científica, é comum falar em ‘seres feitos de energia‘, que são feitos de energia e não de matéria e acredito que essa recorrência é uma consequência da Teoria da Relatividade Restrita (a famosa equação E=mc²) na literatura de ficção científica.

 

Transferência de consciência/pensamentos: O melhor exemplo desse clichê (para mim) é esse hilário episódio de Chapolin intitulado “A troca de cérebros”. A propósito, há outro clichê enorme nesse episódio, que é o do cientista maluco.

Acredito que esse clichê ficou ainda mais “forte”  e presente na ficção quando descobriu-se que o cérebro gera eletricidade e as conexões entre os neurônios ocorrem por eletricidade. Logo se imaginou que o cérebro fosse uma espécie de bateria, sendo possível transferir sua carga para outro lugar ou receber a carga de outro lugar. Um exemplo interessante é o filme Shocker (1989), filme de terror dirigido por Wes Craven. Nele, um homem é condenado a cadeira elétrica. É executado e a sua consciência passa a “viver” na rede elétrica, incorporando em eletrodomésticos, inclusive.

shocker_poster

Trivia: O personagem principal do filme mencionado é interpretado por Mitch Pileggi, o Walter Skinner de Arquivo X.

Na pseudociência, talvez a ideia de transferência de mente de um corpo para outro não seja comum. Mas uma ideia relacionada a essa é inclusive ensinada em cursos: a projeção astral, a possibilidade de destacar sua mente de se corpo e fazer com que ela vague por outros locais. Eu sei, a gente deve “dar asas a imaginação”, mas há pessoas que realmente acreditam que é possível fazer com que sua consciência vague por aí. Não há, no entanto, nenhum estudo que prove essa possibilidade.

 

A realidade como uma “imagem mental”: Ursula LeGuin, em The Lathe of Heaven, mostra bastante essa ideia de que o poder dos pensamentos pode alterar o universo em que o personagem vive. No caso desse livro, os sonhos do personagem George Orr podem alterar a realidade. E bem anterior a esse livro, tema parecido foi abordado em  The Man Who could Work Miracles, de H. G. Wells.

Na ficção, evidentemente esse tema produz trabalhos muito interessantes. Mas na pseudociência e na religião, a ideia do pensamento mágico, do pensamento positivo ou da confissão positiva tem sido amplamente difundidos. Basta sintonizar em programas de tele-evangelistas da TV aberta para ver que a confissão positiva é empregada constantemente. Além disso, o sucesso literário de O Segredo (livro, filme, CD, livros que discutem o livro principal, etc) já mostra o quanto acreditamos no poder dos pensamentos para alterar a nossa realidade.

Somos seres “preguiçosos”, isso é fato. Sempre procuramos maneiras de acomodação, maneiras que possibilitam que atinjamos nossos objetivos sem muito esforço. É tentadora a ideia de simplesmente ficar sentada no mesmo lugar e apenas desejar, do fundo do coração, a alteração de uma situação difícil.Isso sem mencionar as situações difíceis, que realmente fogem de nosso controle, no qual todo nosso esforço já foi empregado e já não se sabe mais o que fazer. Como uma situação de doença ou de dificuldade de convivência, por exemplo.

É evidente que uma atitude positiva perante a vida ajuda na recuperação de um problema de saúde, por exemplo. Em O Mundo Assombrado Pelos Demônios, Carl Sagan  menciona que endorfina pode ser produzida pela convicção e diz que:

“Dentro dos limites restritos, a esperança, ao que parece, pode ser transformada em bioquímica”

A fé pode sim ajudar as pessoas a se recuperarem ou a encontrarem “uma luz no fim do túnel”, para que elas possam enxergar uma situação difícil como algo passageiro. No entanto, há limites realistas e bastante restritos para isso. Charlatães ignoram (fingem ignorar?) esses limites e vendem soluções milagrosas e irreais para pessoas que estão passando por problemas realmente desesperadores, inclusive inserindo nelas um “sentimento de culpa”, como se elas fossem as reais culpadas pela miséria e agonia que vivem. E sabemos que nem sempre somos os responsáveis pelas situações ruins que vivemos nas nossas vidas.

Além disso, para fins mundanos, a gente sabe que se não nos levantarmos, o jantar não se prepara sozinho e a casa não se auto-organiza.

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Na parte 3, eu disse que teria parte 4 e talvez parte 5. Gente, isso ainda vai longe! Quanto mais escrevo sobre o tema, mais ideias surgem em minha mente (e não preciso projetá-la para nenhum lugar, felizmente 😂). Aguardem, pois aos poucos irei liberando os posts.