Nuvens undulatus asperatus ou asperitas: como elas são classificadas?

Um tema bastante recorrente e muito buscado aqui no blog é classificação de nuvens. O post As nuvens possuem nomes? é um dos mais lidos do blog e sempre recomendo para alunos que estão iniciando seu aprendizado no tema. A imagem abaixo (adaptada por mim a partir de original do livro Meteorology Today, de autoria de  C.D. Ahrens, já foi reproduzida em muitos lugares pela internet. Infelizmente muitas dessas reproduções não mencionam o original e nem fazem menção a minha tradução.

Reclamações à parte, a figura acima é muito didática, ajuda bastante quem pretende reconhecer os principais tipos de nuvens. A classificação de nuvens que usamos atualmente é baseada na proposta por Luke Howard, no início do século XIX.  A World Meteorological Organization já publicou diversas edições do International Cloud Atlas, publicação com o objetivo de servir como guia para que observadores meteorológicos possam identificar os tipos de nuvens.

Identificar os principais tipos de nuvens é algo que para muitos pode soar apenas mera curiosidade. No entanto, identificar as nuvens é importante para o meteorologista, uma vez que o tipo de nuvem presente no céu tem relação com o quadro sinótico  (veja aqui também essa excelente apostila). Por exemplo, a presença de nuvens tipo Cirrus (Ci) pode estar associada com a aproximação de uma frente fria (falei um pouco sobre o assunto nesse post).

Em 2009, começou a ser noticiado que um novo tipo de nuvem acabara de ser “descoberto”. Os meios de comunicação começaram a dizer que o nome da nuvem ‘nova’ era undulatus asperatus, atualmente também chamada de asperitas.  O nome asperitas, em latim, significa rugosidade. Temos exatamente a impressão de algo áspero ou rugoso ao observarmos as fotos desse novo tipo de nuvem:

Nuvem Asperitas na Tasmânia, Austrália. Fonte: The Guardian

Nuvem asperitas na Tasmânia, Austrália. Fonte: The Guardian

De acordo com Gavin Prettor-Pinney, fundador da Cloud Appreciation Society (falei sobre essa instituição nesse post), a asperitas não era facilmente “classificável” dentro da classificação de nuvens existente. Por isso,  foi necessária a criação de uma nova categoria.

As manchetes das notícias de 2009 davam a entender que esse tipo de nuvem nunca havia sido observado antes. Não é nada disso! Os meteorologistas e apreciadores de nuvens em geral já tinham observado esse padrão de nuvens em diversas ocasiões, porém não sabiam como classificá-la.

Como bem pontuou essa reportagem do Daily Mail: nuvens assim já haviam sido observadas, porém "faltavam palavras" para descrevê-la. A propósito, a imagem acima foi retirada de uma reportagem do Daily Mail. Autor: Ken

Como bem pontuou essa reportagem do Daily Mail: nuvens assim já haviam sido observadas, porém “faltavam palavras” para descrevê-la. A propósito, a imagem acima foi retirada de uma reportagem do Daily Mail. Autor: Ken Prior. 

Começaram então a relacionar esse tipo de nuvem com o padrão meteorológico a ela associado. Nuvens asperitas normalmente deixam o céu escuro, com a aparência de que uma tempestade está se formando, porém elas tendem a se dissipar antes mesmo de formar uma tempestade. Elas são bastante rugosas, onduladas, chegando a lembrar um mar cheio de ondas em algumas fotografias.

Margaret LeMone (já tinha falado dela aqui), é uma renomada especialista em nuvens e trabalha para o National Center for Atmospheric Research (NCAR), agência norte-americana que seria mais ou menos equivalente ao nosso INMET (guardadas as devidas proporções orçamentárias). Essa especialista vinha observando e fotografando nuvens asperitas por mais de 30 anos e começou a considerá-la como um novo tipo de nuvem. Além das observações da especialista, entusiastas e meteorologistas amadores de todo o mundo começaram a mandar fotos, muitas recebendo destaques em portais de notícias pela internet. o The Guardian inclusive publicou uma galeria com algumas dessas fotos.

Observe que nos últimos 30 anos, período destacado por LeMone, houve também uma maior facilidade para que mais pessoas pudessem adquirir máquinas fotográficas e filmadoras. Isso aumentou o número de registros e fomentou a discussão. Uma das fotos mais famosas é de 2013, e foi uma Astronomy Picture of the Day (APOD), ou seja, foi destaque desse famoso site da NASA.

Nuvens Asperitas na Nova Zelândia. Foto de Witta Priester

Nuvens asperitas na Nova Zelândia. Foto de Witta Priester

 

Em 2009, Pretor-Pinney começou a trabalhar com a Royal Meteorological Society para promover esse novo tipo de nuvem e poder então sugerir para que a Organização Meteorológica Mundial (World Meteorological Organization)  pudesse reconhecer esse tipo novo de nuvem e então inseri-la no International Cloud Atlas.

Resistência em criar novo tipo de nuvem

O International Cloud Atlas, como já dito anteriormente, é a referência mundial para meteorologistas e apreciadores de nuvens no tocante à classificação de nuvens. E eles são extremamente puristas! Antes de criar uma nova categoria na classificação de nuvens, a observação (fotografia) é estudada por diversos especialistas.

Para vocês terem uma ideia, a última vez em que um tipo de nuvem novo foi inserido no International Cloud Atlas foina década de 1950, quando inseriu-se o tipo Cirrus intortus.

Cirrus intortus. Foto de Uwe Reiss, de 13 de Março 2007 em Leipzig, Alemanha. Fonte: Clouds-Online

Cirrus intortus (Ci in). Foto de Uwe Reiss, de 13 de Março 2007 em Leipzig, Alemanha. Fonte: Clouds-Online. A principal característica de nuvens Cirrus intortus é que aparecem como se fossem “filamentos” de nuvens completamente torcidos (o nome intortus significa torcido, torto). 

Nuvens☁️: possuem nome e sobrenome 

Antes de continuar, preciso contar que as nuvens podem ter sobrenomes!

Quando escrevi meu famoso post sobre classificação de nuvens, não mencionei com detalhes que as nuvens possuem nome e sobrenome. Eu não dei muita atenção ao fato porque na prática, no dia a dia do observador meteorológico de uma Estação Meteorológica, esses sobrenomes não fazem diferença: nós já somos íntimos das nuvens 😂.

A verdade é que com o nome principal da nuvem (de acordo com a figura que abre esse post) já é possível identificar o quadro sinótico a ela associado. No entanto, muitas vezes os tipos de nuvens possuem ‘sobrenomes’, para melhor identificar uma particularidade daquela formação. Entre nomes e sobrenomes combinados, são cerca de 90 tipos de nuvens! Um desses é o Cirrus intortus, que mencionei acima como sendo o tipo de nuvem mais recentemente adicionado no International Cloud Atlas.

Nuvem Altocumulus lenticularis sobre o Monte Ranier em Kent, Washington, Estados Unidos.

Nuvem Altocumulus lenticularis (Ac len) sobre o Monte Ranier em Kent, Washington, Estados Unidos. Nuvem que costuma formar-se sobre o cume das montanhas. Provavelmente a “nuvem com sobrenome” mais conhecida e esse tipo de nuvem é frequentemente confundido como OVNI’s. 

Nuvem Cirrus uncinus na Austrália. O nome "uncinus" significa unha, garra, dando uma idéia da aparência desse tipo de nuvem. Fonte: Wikimedia commons

Nuvem Cirrus uncinus (Ci unc) na Austrália. O nome “uncinus” significa unha, garra, dando uma idéia da aparência desse tipo de nuvem. Fonte: Wikimedia commons

Uma nuvem com sobrenome normalmente aparece da seguinte maneira:

Nome em letra maiúscula (classificação “usual”, conforme a primeira figura que abre essa postagem) + ‘sobrenome’ em letra minúscula.

E o nome + sobrenome podem ser abreviados, como nos exemplos das fotos acima:

  • Cirrus intortus – Ci in
  • Altocumulus lenticularis – Ac len
  • Cirrus uncinus – Ci unc

Um ‘sobrenome’ pode aparecer em nomes de diferentes alturas de nuvens. Por exemplo, o sobrenome castellanus aparece tanto em Cirrus castellanus (Ci cas),  em Altocumulus castellanus (Ac cas) e em Stratocumulus castellanus (Sc cas). O termo castellanus significa castelo, torre. Então essas nuvens aparecem com protuberâncias similares a torres, porém dependendo da altura em que a nuvem aparece e de sua característica geral, posso classificá-la com diferentes nomes (Cirrus, Altocumulus ou Stratocumulus, no caso).

Há também nuvens “especiais”, como as Nuvens Mesosféricas Polares, que são nuvens que aparecem na mesosfera das regiões próximas aos polos e não na troposfera, como os demais tipos de nuvens comuns. Essas nuvens possuem nomes totalmente diferentes e posso falar mais delas em outra ocasião.

E então, a asperitas (undulatus asperatus) vai entrar como novo tipo de nuvem?

É importante ressaltar que o tipo undulatus já aparece como sobrenome de nuvens, normalmente como Stratocumulus undulatus. A proposta da WMO é fazer com que asperitas seja também um sobrenome! Então, muito provavelmente teremos Stratocumulus asperitas ou Altocumulus asperitas, dependendo da altura em que a nuvem estiver localizada.

Em junho de 2015, a WMO falou que muito provavelmente a nova edição do Atlas Internacional de Nuvens (International Cloud Atlas) saia em 2016. Os meteorologistas e demais colaboradores trabalham bastante para selecionar boas imagens e informações de qualidade para guiar profissionais e amadores. Acredito que toda a comunidade de apreciadores de nuvens está ansiosa por essa publicação. E nessa publicação, saberemos com certeza se asperitas aparecerá assim, como um sobrenome.