O restaurante que não aceita crianças – minha opinião como mãe



Ainda bem que meu blog não é muito famoso e ainda bem que as pessoas não costumam ler textões em blogs (bem, eu acho). No entanto, acho que estou correndo um enorme risco de ser verbalmente agredida ao escrever esse texto.

As pessoas em geral estão muito incoerentes e raivosas. Falta empatia, bom senso e respeito. A internet só potencializa certos comportamentos, dando dimensões muito maiores a questões que são pequenas ou locais.

A história mais recente no universo materno foi o restaurante que não aceita menores de 14 anos. A fanpage do restaurante recebeu centenas de mensagens, algumas críticas educadas, mensagens de apoio e algumas mensagens raivosas. Sobre as mensagens raivosas, apenas fiquei pensando que muitas daquelas pessoas não frequentam aquele tipo de restaurante ou sequer visitam São Paulo com frequência (e se visitarem, não se deslocariam até o local para experimentar sua gastronomia). De qualquer maneira, acho que já passou da hora de combatermos a agressividade verbal, atitude injustificada em qualquer situação.

Além disso, também já passou da hora de aprendermos a conviver com opiniões diferentes. Sobre essa história do restaurante, li diversos textos. Li textos de pessoas com e sem filhos. Li textos polidos e textos raivosos. Li textos de gente que se deixou levar pela maré raivosa e só admite que as pessoas concordem com ela: qualquer dissonância é logo rechaçada com agressividade, inclusive.

O que eu acho sobre isso? No momento, acho muitas coisas. Apenas acho, apenas tenho algumas opiniões sobre o assunto. Espero deixar meus pequenos “pitacos” bastante claros no meu texto.

Quando vamos passear em família, sempre procuro saber se o local tem pelo menos um trocador. Ligo para o local, me informo pela internet, pergunto para conhecidos que já foram até lá, etc. Se o local contar com um espaço kids, com brinquedos e área de lazer, fico ainda mais feliz. E claro, faço questão de visitar o local. Se eu gostar do atendimento, vou voltar mais vezes! Foi o que aconteceu recentemente com a Fazenda da Comadre, restaurante em Paraibuna-SP que conheci recentemente. O local é propício para ir com crianças e a comida é excelente.

E se o local não oferece nenhuma infraestrutura para famílias com crianças? Simplesmente não vou. Ah, mas eu adoraria experimentar a comida do local. Sinto muito, não dá. Se for possível, deixo meu filho com uma das avós e vou conhecer. Se não for possível, não vou. Gente, eu escolhi ter filhos. Foi uma escolha consciente, de alguém que teve certeza disso por vários anos. Como toda escolha, há diversos ônus associados. Não dá para ter só bônus e parece que as pessoas se esquecem disso.

Eu simplesmente não posso ter a mesma vida de antes e nem a mesma liberdade de antes. Mas está tudo bem, eu sempre soube disso e escolhi ser mãe mesmo assim. Eu quis embarcar nessa nova aventura. Claro que eu imaginava algumas coisas que ao final mostraram ser um tanto diferentes. Mas assim é a vida, cheia de surpresas, não temos o controle total. Meu pensamento realista-esperançoso sempre me ajudou a entender isso e eu gostaria de “vender” essa ideia.

Pois então, acredito que a decisão é demasiadamente simples e não entendo o mimimi das pessoas. Sério, não entendo. Se seu filho não é bem vindo no local, simplesmente procure outro local para ir. Simples demais!

Quem não tem filhos ou quem pretende um momento romântico tem o direito de ter um momento de paz. Mesmo quem tem filhos (e quer uma folguinha, uma noite a dois) também tem esse direito. E ainda assim, do jeito que a sociedade está cheia de gente espalhafatosa, é bem capaz de esse momento de paz e romantismo em um restaurante ser apenas uma utopia.

Saber conviver

Apesar dos pontos que destaquei acima, não gostei nem um pouco da maneira que o restaurante informou a proibição de crianças menores de 14 anos no estabelecimento. Achei a mensagem com um toque passivo-agressivo, característica infelizmente muito comum nas redes sociais. Na minha opinião, bastava informar a proibição educadamente. Olha o print da mensagem, só para vocês terem uma ideia:

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Extremamente mal redigida e passivo-agressiva. E colocaram crianças e animais num mesmo balaio! Bom, mas essa última parte não é novidade, já que algumas pessoas acham que ter animais de estimação e criar filhos é a mesma coisa (hahahahahaha). O estabelecimento poderia ter escrito algo mais direto e simpático. Por exemplo: “O estabelecimento não conta com fraldário e outras infra-estruturas para crianças” ou “Para garantir momentos românticos a dois, o estabelecimento proíbe a entrada de pessoas menores de 14 anos”. E no segundo caso, ainda haveria o furor da internet.

Porém, se você é do tipo que fica estressado e bufando quando se depara com uma situação inesperada, como a presença de uma criança chorando em um ambiente, você tem problemas de convivência. Você é uma pessoa impaciente e que precisa rever seu comportamento e melhorá-lo. Você precisa aprender a conviver com pessoas diferentes de você. Porque pode não ter crianças pequenas no restaurante descolado que você frequenta, porém vai ter no shopping, no parque, etc. Sabe, querido estressadinho, você também foi criança um dia, acho que te choquei com essa informação inédita rs. Crianças choram, bagunçam, ficam entendiadas e por mais rigorosos que os pais sejam na disciplina, isso pode acontecer. Principalmente quando falamos de crianças muito pequenas. Acredite, os pais estão constrangidos e estão cansados. Seja solidário, dê um sorriso simpático ou simplesmente ignore a cena.

Onde quero chegar? Estamos com falta de bom senso, empatia e paciência por aí. Eu não levaria meu filho em um restaurante sem estrutura para ele pois esse é o ônus da maternidade: não posso e nem devo frequentar ambientes que não são adequados para meu filho. Entretanto, há ambientes propícios para crianças e quem frequenta esses lugares e não tem ou não está com seus filhos deve ser paciente e respeitoso. Temos que aprender a agir com tolerância, já passou da hora.

Eu acho que uma proibição expressa, como fez o restaurante, deveria ser algo totalmente desnecessário. Porém essa medida talvez (talvez, ainda estou pensando sobre isso) seja necessária, já que as pessoas em geral carecem de bom senso. Por exemplo, há crianças de 7 anos que conseguem ficar quietinhas na mesa e já sabem se comportar direitinho. Outras saem correndo pelas mesas e destruindo o local. Os pais conhecem seus filhos e sabem os locais mais adequados para levá-los.

Tem gente usando esse episódio para dizer que a sociedade exclui as crianças. Mas gente, eu vejo exatamente o contrário! Sempre que vou a algum lugar com meu filho, somos recebidos com sorrisos. O brasileiro gosta de crianças, somos um país com bastante gente jovem e com uma geração de pessoas de 50-60 anos que vieram de famílias grandes. Eu saio por aí e meu filho faz “sucesso”, como qualquer outra criança. Ele já está entrando na idade da birra e eu sinceramente ainda não sei como vou agir se ele fizer uma cena em público. Estou deixando o barco correr e peço a Deus que eu meu marido e eu saibamos agir com sabedoria e delicadeza.

Talvez eu esteja errada nessa percepção de que o brasileiro adora crianças. Talvez porque em meu dia a dia eu conviva com pessoas mais velhas que em geral, gostam bastante de crianças. Eu já notei alguns traços “criançofóbicos” em algumas pessoas mais ou menos da minha idade (e segundo o IBGE, pessoas mais ou menos da minha idade são a maioria da população no momento). Mas eu não me importo com essas pessoas intolerantes. Sigo vivendo e quem tem problemas de convivência são essas pessoas, não eu!

Outra coisa: o mundo não é feito para você. Parece bobo e é uma frase feita, mas eu não tenho essa ideia romântica de que eu vou chegar em todo e qualquer local do mundo e ser o centro das atenções, digna de toda sorte de paparicos. Acho que nem a Madonna tem esse privilégio. O mundo é cruel. É evidente que temos que combater a desigualdade social, temos que combater todo tipo de preconceito e temos que lutar para que todas as pessoas tenham condições dignas para viver. Mas mesmo em um mundo onde todos tivessem isso, ainda assim, haverá locais onde é impossível se sentir bem-vindo, por inúmeras razões. E está tudo bem, porque há muitos outros locais e outras possibilidades.

Ninguém precisa participar de todos os clubinhos.

UPDATE: Veja esse ótimo vídeo do Erik, que é chef e tem experiência com gastronomia há quase 20 anos. As palavras de alguém da área são ótimas, contribuem muito para essa discussão.