Tia, a senhora é muito nerd



– Tia, a senhora é muito nerd

Ouvi essa frase recentemente enquanto atendia um grupo de alunos e fiquei um pouco intrigada. E não é a primeira vez que minha suposta inteligência marcante surpreende. Eu disse suposta inteligência marcante porque estou no nível, como diria Leandro Karnal (e vou adaptar livremente), em que não estou no lamaçal da ignorância, porém consigo apreciar a genialidade e perceber claramente que estou muito abaixo dela.

Em outras palavras, eu sei que sou inteligente, porém tenho noção da minha ignorância. A primeira parte da afirmação, para muitos, pode soar uma extrema arrogância. Eu observo que na nossa sociedade, admitir publicamente uma qualidade é tido como um sinal de arrogância. Eu sei, a lebre aprendeu a nunca mais se gabar de nada, lá na fábula de Esopo. Mas ela ficou parada, ela achou que o outro (a tartaruga) era inferior a ela. E há tempos não penso mais assim, como explicitei no parágrafo anterior.

A frase dita pelo menino ficou na minha cabeça. Fiquei tentando decifrar o que o aluno,  que deveria ter entre 14 e 15 anos, pretendia com isso. Será que ele não conhece modelos de pessoas inteligentes? Se for isso, lamento tanto. Conheço inúmeras pessoas inteligentes, cada uma com seu diferente tipo de inteligência, com diferentes dons e aptidões.

Será que foi  uma manifestação do machismo? Será que ele não considera a possibilidade de que uma mulher pode ser mais inteligente do que um homem? Melhor dizendo, será que a típica arrogância adolescente aliada ao machismo ainda muito presente na nossa sociedade o impede de aceitar que uma mulher pode ser mais inteligente do que ele?

Podem ser tantas coisas. Poderia ser apenas um chiste adolescente, uma necessidade de chamar a atenção sem necessariamente uma explicação mais profunda.

O comentário do rapaz ainda pode ser devido ao fato que, como posso explicar, não parece que eu tenho 34 anos. Devo isso ao uso exagerado do protetor solar e à minha pele extremamente oleosa. Também nunca abusei de álcool e drogas e nunca fui afeita a noitadas.  Uma bênção, para uma sociedade que valoriza a juventude. Também não me visto com um ar de autoridade, não uso grifes famosas, raramente me visto com trajes sociais. Sempre estou mais esportiva ou despojada, se é que vocês entendem o que quero dizer com tanta subjetividade.

(mas ele me chamou de tia…)

Em outras palavras, eu não me assemelho à ideia de professora que muitos esperam. Também não me assemelho à ideia de balzaquiana que muitos esperam. E é aí que eu quero chegar: nós esperamos muitas coisas dos outros, pois o ser humano precisa de estereótipos. Quando a gente se depara com um novo relacionamento (de qualquer espécie) ou com uma situação nova, nós criamos um monte de expectativas e modelos pré-estabelecidos. Outro dia vi uma entrevista da Roberta Brandalise e ela disse mais ou menos assim: a gente tenta criar uma explicação para aquilo que a gente não conhece. E talvez foi o que aconteceu com o adolescente que me achou muito nerd.

Há alguns anos eu conheci uma moça com um perfil muito parecido com o meu, porém tem na Biologia sua profissão. Ela procurava emprego e foi numa entrevista em um renomado colégio de São Paulo. Adoraram o currículo dela, que é excelente (licenciatura, bacharelado, mestrado, experiência no Brasil e no exterior, etc), mas não a aceitaram. Disseram que ela parecia jovem demais e assim ela ficou sem aquela vaga.

Esse rótulo de muito nerd é algo que ouvi boa parte da minha vida. Na adolescência eu era muito nerd e arrogante, o que realmente é verdade. Cresci, tomei algumas porradas da vida na Universidade (a Dona USP tem um cassetete poderoso), conheci pessoas muito mais inteligentes do que eu e pude situar minhas aptidões num lugar muito mais realista. Aprendi também que existem diversos tipos de inteligência (pelo menos 9 tipos, veja a figura a seguir) e que as pessoas em geral não conhecem essa variedade. E que de um modo geral, as pessoas acreditam que só existe um tipo de inteligência, que é a inteligência lógica-matemática, que é exatamente onde me destaco.  Sendo assim, para a maioria das pessoas que desconhecem as diversas maneiras de ser inteligente, apenas pessoas como eu são inteligentes.

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Também acho que a nossa sociedade valoriza muito o que é mais rápido e imediato. Desenvolver ou aprimorar uma habilidade requer muito tempo e dedicação. Quando eu tinha entre 16-18 anos, via muitos adolescentes da minha vizinhança “curtindo a vida” em matinês de casas noturnas ou em festinhas. E eu estava estudando em tempo integral, fazia curso de inglês aos sábados e estudava para o vestibular no meu pouco tempo livre. Claro que desejei algumas vezes estar no lugar dos adolescentes que não tinham um foco, porque eles pareciam mais felizes. No entanto, graças aos esforços daquele tempo estou aqui hoje, em 2016, sendo chamada de tia muito nerd.  E eu tomei gosto pela coisa. Quero aprender mais e mais. Eu gostaria de ser chamada de tia muito nerd por toda minha vida.

Porém nunca, nunca, arrogante.