Ensino secular: sou contra ou a favor?



Um acontecimento e o episódio de uma série me inspiraram a escrever esse post. Preparem-se, esse post vai ficar gigante. Eu até pensei em quebrá-lo em duas partes, mas eu fiquei com medo de perder minha linha de raciocínio (porque sou praticamente um peixinho dourado😂).

Vamos primeiro falar do acontecimento.

Li recentemente que Ben Carson é um dos nomes cotados para o governo Donald Trump, especificamente para ser Secretário da Educação. Mas talvez você ainda não saiba quem é Ben Carson. Vou começar recomendando o lindíssimo filme Mãos Talentosas (Gifted Hands: The Ben Carson Story, 2009). O filme conta a linda história de Ben Carson, menino pobre, mas que com o amor e o empenho de sua mãe analfabeta tornou-se um dedicado estudante, transformando-se em um dos mais renomados neurocirurgiões do mundo. Ele foi responsável por enormes feitos na área, como a cirurgia de separação de gêmeos siameses unidos pela cabeça. O filme é muito lindo, recomendo para toda a família. Sabe aquele filme que você assiste e se emociona? O cara é um exemplo, uma fonte de inspiração. Uma prima minha, professora de ensino fundamental e de escola dominical, costuma inclusive recomendar esse filme para seus aluninhos.

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Ben Carson chegou a concorrer pela nomeação a candidato para a presidência dos EUA (pelo partido republicano, o mesmo de Trump). Ele tinha bastante apoio, mas desistiu de concorrer. Agora ao que parece, ele fará parte do governo Trump. Carson é cristão da Igreja Adventista do Sétimo Dia. A questão é que adventistas são criacionistas. Ben Carson já afirmou ser criacionista e sinceramente, não vi novidade nenhuma nisso, já que ele é adventista. Ben Carson também já afirmou que tem uma teoria na qual as pirâmides do Egito serviriam como depósito de grãos, usados na época de José do Egito (história bíblica). Claro que essas afirmações não fazem sentido algum quando levamos em consideração os fatos científicos. O biólogo divulgador científico Yuri Grecco fez um “dossiê Carson” há um ano atrás (veja vídeo a seguir).

Achei que o Yuri foi muito duro nas críticas, mas eu o compreendo. Yuri é biólogo, deve ser desesperador ver alguém defraudando a área que você dedicou tantos anos para estudar. Eu não seria tão dura assim, porque vejo uma enorme genialidade em Carson e suas contribuições para a medicina e para a sociedade são inegáveis. Além disso, não soube de nada em sua biografia que desabonasse seu caráter.

Eu não concordo com o tom do vídeo, porém o Yuri expressa um sentimento de dúvida que eu também compartilho. Como pode um homem brilhante que tanto estudou, é sumidade em uma área e que certamente estudou Teoria da Evolução, aparentemente rejeitar completamente esse conhecimento? Visto que muito do conhecimento que ele aplicou em suas cirurgias (imagino eu), são baseados indiretamente na evolução?

Apesar de meu sentimento de embasbacamento aparente, mais uma vez, nada novo debaixo do Sol.  Há alguns anos mencionei o caso do Dr. Snelling, professor da área de geologia, que na academia usava certos conceitos, porém em suas palestras religiosas, falava outra coisa completamente diferente. E recentemente, soube do caso de um ex-professor de uma importante universidade que escreveu um e-mail enigmático e com conteúdo religioso antes de deixar o cargo. Hoje ele possui um canal do Youtube, onde usa um apelo a autoridade (quando afirma ser ex-professor de uma importante universidade), porém ao mesmo tempo crítica os podres da ciência.

Essa postura dualista e até certo ponto incoerente parece comum e até cômoda por parte de pessoas religiosas que são da área acadêmica. Eu falo especificamente da área de Biologia, Física e Ciências da Terra. Mas eu sei que conflitos desse tipo também existem na área de humanas, pois para um religioso, estudar um determinado autor ou corrente ideológica que vai contra seus princípios pode ser extremamente difícil.

Na academia, se você se declara Criacionista, você terá sérios problemas. Ninguém vai te levar a sério. E claro, se você pretende publicar uma pesquisa científica embasada em um “teoria” criacionista, essa pesquisa não passará na revisão por pares. Criacionismo é pseudociência.

E aqui pessoal, é bom deixar claro que por criacionismo, me refiro a ideia de pensar no ‘criacionismo científico’ (maluco esse termo, eu sei).  Vou tentar explicar falando sobre a maneira que eu penso.

Se as pessoas não gostam de você e de seu trabalho simplesmente porque você tem uma religião (e essa religião não prejudica o andamento do seu trabalho), você está sendo vítima de preconceito. Dentro do meio acadêmico, seus pares tem o direito de criticar o seu trabalho usando os mesmos critérios usados para qualquer pessoa. No entanto, o ambiente deve ser tolerante para diferentes opiniões sobre fé particular.

Muitos de vocês sabem que eu sou cristã. Vejo na Bíblia um guia para meu comportamento, sempre usando um enorme discernimento para compreender que:

  • Há um contexto histórico que não pode ser ignorado;
  • Há um contexto mítico que também não pode ser ignorado

Sendo assim, muitas das narrativas do antigo testamento (por exemplo) não se aplicam literalmente aos dias de hoje. Por isso, para estudar a Bíblia, é necessário ter esses dois pontos que mencionei em mente. Só que podemos usar essas narrativas como metáforas para os nossos dias. Por exemplo, em gênesis, quando o mito da criação Judaico-Cristã é narrado, vejo na narrativa o cuidado de Deus para conosco. Ele cuida de nós, quer o melhor para nós, embora ajamos de maneira indigna.

Eu acredito que Deus nos criou a sua imagem e semelhança, no sentido de que nos deu capacidade para desenvolver dons e inteligência. Podemos assim desvendar os ‘mistérios’ da criação do Universo e da vida através da ciência. Não podemos ignorar o conhecimento científico. Assim como Sagan, acredito que a ciência é o que pode unir pessoas de diferentes credos, culturas e origens étnicas.

Já contei para vocês que já fui criacionista. Eu achava que para minha fé ser validada, eu precisava ser criacionista. Claro que eu vi logo que pensar assim era uma bobagem e eu não precisava disso. Como diz na Bíblia, a fé é um dom gratuito de Deus. Eu já nasci com isso e pronto. Só que até eu chegar nessa conclusão, levou algum tempo e no processo eu me afastei de Deus, o que me fez  muito mal. Hoje sei que Deus me ama assim do jeito que eu sou e se Ele me fez desse jeito é porque Ele tem um propósito na minha vida.

Quando digo “criacionismo científico”, me refiro a situações em que algumas pessoas tentam fazer gambiarras  para validar o criacionismo cientificamente e tentam ensiná-lo na escola como conhecimento científico ao lado de Teoria da Evolução (ou como substituto, alternativa) e não dentro de um contexto histórico, dentro do contexto de história da religião, por exemplo. O mito da criação Judaico-Cristã tem muita importância histórica (e pode ser fonte de ensinamentos metafóricos, se você for praticante de uma dessas religiões). Do ponto de vista cultural e para fomentar o respeito a outros povos e culturas, acredito que devamos aprender também sobre outros mitos da criação.

Acreditar em um Deus criador é diferente de ser criacionista no sentido científico, acho que vocês entenderam o meu ponto de vista!

Vamos voltar ao caso de Ben Carson. É inegável que ele seja um gênio, uma pessoa com um dom maravilhoso. Um homem que se esforçou muito e venceu muitas barreiras para chegar na posição em que está hoje. Não sei como é fora do Brasil, mas aqui em nosso país eu posso dizer que as escolas adventistas estão dentre as melhores. Essas escolas formam pessoas extremamente inteligentes e participativas na sociedade. No entanto, há críticas aos métodos de ensino de algumas dessas escolas. Eu vou destacar as minhas críticas:

  • Ensinam o criacionismo científico;
  • Já ouvi casos, de ex-estudantes de uma certa escola, em que a escola “forçava a barra”  para que os alunos não-adventistas fossem vegetarianos (adventistas são vegetarianos);
  • Uma colega minha contou que tinha que usar uma saia plissada no uniforme da escola adventista em que ela estudava e ela não gostava disso. Ela dizia ser desconfortável, ruim para brincar, etc. Ela tinha vontade de usar o uniforme dos meninos (calça e camiseta), mas isso não era permitido. Claro que essa questão da indumentária não é uma exclusividade de escolas adventistas, mas achei um ponto importante.
  • Algumas escolas adventistas brasileiras (não sei se fora do país é a mesma coisa) apresentam o sistema de internato, no qual os adolescentes moram nas dependências escola. Esse sistema possui críticas, alguns argumentam que isso priva o adolescente de uma maior convivência familiar em um momento difícil da vida (minha opinião, por exemplo). Porém outros acreditam que isso ensina os adolescentes a serem mais independentes e responsáveis (o que é algo a se considerar). Mais uma vez, o sistema de internato não é exclusividade de escolas adventistas. E não é um internato compulsório, quero dizer, o aluno não é obrigado a morar na escola para poder estudar nela. Alguns alunos moram nas escolas e outros não

Tenho uma opinião semelhante a que dei sobre o caso do restaurante: se não gosta do método e do currículo da escola, procure outra escola. Os pais precisam estar atentos ao que os filhos aprendem na escola. Se você tem condições para colocar seu filho em uma escola particular, precisa observar esses detalhes sobre a religião da escola. Por exemplo, eu sou protestante e não faria muito sentido colocar meu filho em uma escola católica. Pelo amor de Deus, nada contra meus irmãos católicos! É que a escola (quando essa tem uma confissão religiosa) precisa estar em consonância com o projeto de educação e de fé que os pais pretendem transmitir para os filhos.

Levando em conta todos esses pontos, fiquei muito na dúvida. Será que alguém como Ben Carson como Secretário da Educação é algo adequado ou não? O homem é admirável. Porém certamente pretende que se ensine algo que não é ciência dento do currículo de ciências. Será que as escolas devem ser obrigatoriamente seculares (não só as públicas, as particulares também)?

 📖✂📝

Agora vamos ao episódio de série. Recentemente vi o episódio n°20 da primeira temporada, de Star Trek: DS9 (In the Hands of the Prophets). Vamos falar um pouco sobre ele.

O filme Mãos Talentosas e a série Star Trek: DS9 estão disponíveis no Netlfix. Eu não ganho nada para falar de Netflix (SONHO!), mas né, Netflix está quase como eletricidade hoje na casa das pessoas.

No episódio, Keiko O’Brien é professora de uma escola na Estação  Deep Space 9. Essa escola foi idealizada por ela e montá-la foi um enorme desafio. Nos episódios anteriores, fica claro o quanto ela lutou para convencer os pais de crianças de espécies diferentes a matricularem seus filhos em sua escola. Como são crianças de espécies diferentes de alienígenas, cada uma tem uma bagagem cultural diferente, além das evidentes diferenças em sua aparência.

A professora Keiko O'Brien na sala de aula da Star Trek: DS9
A professora Keiko O’Brien na sala de aula da Star Trek: DS9

Quando Roddenbery idealizou Star Trek, estava claro que ele queria mostrar que nós humanos conseguimos superar quase que a totalidade de nossos atritos e diferenças e que poderíamos ser um modelo para a galáxia. Através dos conflitos vividos por outras formas de vida (humanóides ou não), as séries da franquia visam mostrar os conflitos que nós humanos vivemos na atualidade. E nesse episódio de Star Trek: DS9, não foi diferente.

A maioria das crianças da  Estação Espacial Deep Space 9 é bajoriana, uma vez que a estação espacial está localizada no Sistema Estelar de Bajor. A fé e a religião são elementos  importantes na vida desse povo, que foi massacrado e dominado por outro povo, os Cardassianos. Foi a fé que os deixou unidos e com a esperança de que um dia reverteriam aquele quadro de tirania. E de fato, reverteram. Não apenas com a ajuda de sua fé, esperança e resistência, mas também com a ajuda da Federação.

A Estação Deep Space 9 está nas proximidades de um wormhole estável, criado artificialmente por uma civilização antiga, muito avançada e que desconhece a linha do tempo convencional (passado-presente-futuro nessa sequência usual que conhecemos). São formas de vida não-corpóreas que ‘falam’ com algumas pessoas usando imagens de rostos conhecidos. Para os bajorianos, essas formas de vida são os profetas de sua religião.

Na escola, Keiko não mencionava o aspecto religioso do wormhole em suas aulas. Ela falava para os alunos da importância estratégica do wormhole e de sua formação no contexto técnico-científico. Enquanto ela ensinava seus alunos, a religiosa bajoriana Vedek Winn entrou na sala de aula. De uma ala mais ortodoxa da religião, a religiosa discordou dos métodos de ensino seculares de Keiko. Ressaltou indiretamente que a Estação Deep Space 9 era bajoriana, ficava em Sistema Estelar de Bajor e por essa razão, deveria ensinar aspectos religiosos bajorianos.

No, I don’t teach Bajoran spiritual beliefs. That’s your job. Mine is to open the children’s minds to… history, to literature, to mathematics, to science.
You are opening the children’s minds – to blasphemy. And I cannot permit it to continue.

Keiko and Vedek Winn

Educadamente, Keiko disse que a função de ensinar os aspectos religiosos eram de Vedek Winn e em sua escola, o ensino permaneceria secular. Isso gerou um enorme conflito e Vedek Winn convenceu todos os pais bajorianos a desmatricularem seus filhos da escola de Keiko. Keiko e seu esposo, Miles, sofreram represálias por parte de comerciantes bajorianos da Deep Space 9. Houve atos de terrorismo e até pessoas de alta patente militar (como a Major Kira) influenciaram-se pelas ideias de Vedek Winn.

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Vedek Winn e Neela, engenheira bajoriana que se deixou influenciar pelas ideias extremistas.

O episódio é cheio de diálogos ótimos, que nos fazem refletir sobre tolerância e sobre a secularidade do ensino. Diversas cenas e situações chamam a nossa atenção ao longo do episódio.

Keiko falou sobre Galileu Galilei para os alunos que permaneceram na escola. Contou como ele foi julgado pela Inquisição por sua crença de que a Terra girava em torno do Sol. Jake Sisko (filho do Comandante Ben Sisko, comandante da DS9) faz a conexão entre a história de Galileu e os eventos atuais na estação. Ele diz a seu pai que a atual controvérsia é estúpida, e pergunta onde os bajorianos obtiveram essas idéias. O comandante Sisko, no entanto, aponta que a religião bajoriana é bastante razoável à luz do wormhole e da natureza dos Profetas, e aconselha Jake a ser tolerante com as crenças de outras culturas.

O Comandante Sisko mostrou uma postura equilibrada e respeitosa. E ainda assim, sua opinião foi distorcida por Vedek Winn, exatamente o que fanáticos religiosos normalmente fazem. Eu acredito que nessa discussão toda, minha opinião é muito próxima a de Ben Sisko, um homem equilibrado e tolerante. O equilíbrio e a tolerância, na minha humilde opinião, são ingredientes para a justiça. Pessoalmente não gosto da postura dura e muitas vezes cruel de alguns ateístas que repudiam veementemente toda e qualquer manifestação de fé e religião.

Não vou contar o episódio todo. Você pode assisti-lo (e se tornar trekker e se juntar ao meu time 😉) ou você pode ler o resumo do episódio no Memory Alpha. O que quero dizer aqui é que esse episódio me ajudou a definir melhor a minha opinião sobre secularidade.

Para mim, escolas públicas precisam ser seculares. Isso faz todo sentido, uma vez que o Estado Laico me parece ser a melhor opção. Dessa maneira, todas as crenças são respeitadas, não há privilégio para nenhuma. No entanto, com relação a escolas particulares, acredito que a escola tem o direito de professar uma determinada fé, pois cabe aos pais que pretendem matricular o filho em uma escola particular, escolher uma que mais tenha compatibilidade com a maneira com que deseja educá-los.

Porém, mesmo uma escola particular precisa seguir um currículo compatível com o da escola pública, para que haja um padrão no aprendizado. O instrumento que temos para isso no Brasil é a Lei de Diretrizes e Bases (LDB). Cabe inclusive destacar o terceiro artigo dessa lei:

Art. 3º O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios:

I – igualdade de condições para o acesso e permanência na escola;

II – liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar a cultura, o pensamento, a arte e o saber;

III – pluralismo de idéias e de concepções pedagógicas;

IV – respeito à liberdade e apreço à tolerância;

V – coexistência de instituições públicas e privadas de ensino;

VI – gratuidade do ensino público em estabelecimentos oficiais;

VII – valorização do profissional da educação escolar;

VIII – gestão democrática do ensino público, na forma desta Lei e da legislação dos sistemas de ensino;

IX – garantia de padrão de qualidade;

X – valorização da experiência extra-escolar;

XI – vinculação entre a educação escolar, o trabalho e as práticas sociais.

XII – consideração com a diversidade étnico-racial. (Incluído pela Lei nº 12.796, de 2013)

Ou seja, mesmo uma instituição particular de ensino está sujeita a essa lei. Não é porque a escola é particular que poderá fazer o que bem entender. Essa lei serve, dentre outras coisas, para proteger crianças e adolescentes. Não estou dizendo que a lei é perfeita, até porque não tenho conhecimento suficiente para julgar isso, mas é o mecanismo que temos.

Eu acredito que pai e mãe não podem ter direitos soberanos sobre a vida de seus filhos. Vamos imaginar, hipoteticamente, que não exista a obrigatoriedade de seguir a LDB. E nesse cenário, exista uma escola em que apenas a Bíblia seja ensinada, sem nenhuma possibilidade de abertura, tolerância ou princípio de convivência. Uma instituição cristã análoga a um madraçal. Isso seria perigoso, formaria adultos intolerantes. Quando li Inverno em Cabul (resenhei aqui), soube que foi o que aconteceu em algumas partes do Afeganistão. Com o regime talibã, únicas possibilidades de adquirir instrução eram através dos madraçais. Apenas meninos podiam ser matriculados nessas escolas. Dessa maneira, o regime talibã conseguiu transmitir a intolerância para outras pessoas.

Pais religiosos matriculariam seus filhos nessa escola hipotética. É evidente que essa escola não formaria pessoas tolerantes. Teríamos um problema muito grave, a médio e longo prazo. Isso poderia fomentar conflitos e perseguições. Por esse (e muitos outros) motivos, a LDB precisa ser levada em conta e seguida.

Além da questão da religião, muitos pais brasileiros se preocupam com uma suposta doutrinação política que algumas escolas estariam incutindo em seus filhos. Eu diria que a preocupação com essa suposta doutrinação política é maior do que a preocupação com uma possível doutrinação religiosa. Pelo menos é a minha impressão, posso estar enganada.

Nesse cenário, surgiu o Escola Sem Partido.  Trata-se de um Projeto de Lei (PLS 193/2016, PL 1411/2015 e PL 867/2015) que tem como objetivo impedir o professor de falar de suas opiniões pessoais sobre os temas apresentados, tentando apresentar uma opinião neutra e justa, sem fazer “propaganda” de sua opinião pessoal. O projeto é bem polêmico. De modo geral, a esquerda critica o projeto, afirmando em linhas gerais que esse projeto limitaria a liberdade do professor em sala de aula. Eu prefiro ser mais prudente. Li alguns pontos do projeto e assim como o Pirula (que falou sobre o assunto nesse vídeo), penso que cada ponto do projeto precisa ser avaliado com cuidado. E evidentemente, professores e educadores precisam ser consultados, antes de mais nada.

Entretanto, o Escola sem Partido não é o tema central dessa postagem. Apenas achei que valeria mencionar. O post ficou muito grande e eu já vou partir para minhas conclusões pessoais.

Conclusões

Respondendo a pergunta título do post, sou a favor da secularidade do ensino. Com um ensino “neutro” sob o ponto de vista religioso, acredito que podemos despertar um cenário de mais respeito e tolerância. Assim como Keiko (a personagem de DS9 que mencionei), acredito que é função dos líderes religiosos e dos pais da criança falarem sobre religião. O professor, mesmo que siga uma religião, não deve tentar converter seus alunos de maneira alguma.

Mesmo escolas privadas que professem uma religião abertamente, devem estar sujeitas a mecanismos como a LDB para proteger os alunos de um cenário que fomente a intolerância, mesmo que de maneira indireta.

Vamos imaginar que uma pessoa brilhante, cristã adventista, que assim como Ben Carson nos EUA, fosse cotada para ser Ministro da Educação no Brasil. Eu seria contra ou a favor? Bom, vamos pensar com cuidado. Como mencionei, as escolas adventistas estão dentre as melhores. Se esse Ministro conseguisse unir esforços para fazer com que todas as escolas brasileiras (públicas ou privadas) tivessem o mesmo nível  de ensino, eu acharia excelente. Desde que, claro, ele não ajudasse a criar mecanismos para que todas as escolas pregassem o Cristianismo obrigatoriamente e ensinassem o ‘Criacionismo Científico’ como alternativa a Teoria da Evolução. O privilegiasse certas escolas, dando por exemplo isenções ou facilidades burocráticas para escolas que professassem determinada fé.

E é aí que entraria o problema. Uma pessoa como Ben Carson recebe apoio de pessoas que pensam exatamente como ele. Se uma pessoa como ele chegar a ser ministro, será cobrada para seguir aquela agenda político-religiosa. Se passar a agir com secularidade, perderá todo o apoio e será alvo de uma série de represálias.

Dessa maneira, não acho nem um pouco adequado que uma pessoa como Ben Carson tenha um cargo elevado na pasta da Educação. Ele poderia ser uma espécie de consultor, num cenário em que outras pessoas igualmente brilhantes, porém com opiniões distintas sobre fé, pudessem ser consultoras também.

Um cenário de tolerância e respeito para todas as religiões é o mais saudável e o que gera a paz a longo prazo. E aqui entra uma opinião pessoal, que tem relação com minha religião. Se você pretende evangelizar pessoas, faça isso através de suas atitudes pessoais particulares, mostrando firmeza de caráter e respeito ao próximo. Assim verão em você a bondade e o amor de Cristo. Ficar falando que você está certo e o outro está errado e tentar fazer com que todos obrigatoriamente sigam a sua opinião é soberbo, tirano e grosseiro.