Mackerel Sky ou Céu Empedrado: o que é isso?



Hoje pela manhã, eu estava no volante e percebi que o céu estava empedrado. Eu acredito que o termo ‘empedrado’ vem do fato de que cada elemento de nuvem parece uma pedrinha solta, como aquelas pedrinhas brancas muito usadas em jardinagem. Se você não está familiarizado com o termo, céu empedrado é isso:

 

Altocumulus (Ac) formando um céu empedrado. Fonte: Wikipedia Commons
Figura 1: Altocumulus (Ac) formando um céu empedrado. Fonte: Wikipedia Commons

Infelizmente não é a foto do que vi essa manhã, mas sim uma foto da Wikimedia Commons. Eu estava dirigindo e seria extremamente displicente pegar o celular e fotografar. Mas fiquei com vontade, confesso!

Se você é novo aqui no blog ou é novo no hobby de observação de nuvens, sugiro que você leia esse post. Na verdade, falo sobre os nomes das nuvens em diversos posts aqui no Meteorópole, mas creio que esse que acabo de linkar seja o mais completo. A imagem abaixo é muito didática e ajuda bastante os iniciantes no hobby.

Nuvens em diferentes alturas. Adaptado de Ahrens, D. Meteorology Today.
Figura 2: Nuvens em diferentes alturas. Adaptado de Ahrens, D. Meteorology Today.

Conheça também o Atlas Internacional de Nuvens.

Mas vamos voltar ao nosso céu empedrado. O céu é considerado empedrado quando ele possui linhas de nuvens Cc (Cirrocumulus) ou Ac (Altocumulus). São diversas linhas paralelas (veja a primeira foto, Figura 1), formando um padrão bem definido.

Céu empedrado com nuvens Cc (Cirrocumulus). Fonte: Hong Kong Observatory
Figura 3: Céu empedrado com nuvens Cc (Cirrocumulus). Fonte: Hong Kong Observatory

Esse padrão bem definido é causado pelas ondas atmosféricas de altitude. As nuvens Cc ou Ac são respectivamente nuvens altas e médias (veja Figura 2) e por essa razão são consideradas nuvens frias, uma vez que a temperatura da atmosfera nessas altitudes já está bastante abaixo de zero. Elas não são formadas por gotículas de água líquida, mas sim por pequenos cristais de gelo, que as deixam com um aspecto relativamente fino e translúcido (diferente das nuvens tipo Cu – cumulus – , que são mais ‘fofinhas’).

Não há uma grande oferta de vapor d’água nas altitudes onde as nuvens Ac e Cc se formam (há mais vapor d’água quanto mais próximo da superfície). Dessa maneira, o crescimento desses cristais de gelo é bastante limitado, de modo que eles ficam muito pequenos e conseguem ficar suspensos no ar com a ajuda das correntes ascendentes. Alguns desses cristais até podem precipitar, mas eles acabam evaporando enquanto caem e raramente atingem a superfície.

A ocorrência de nuvens Cc indica a presença de uma zona de convergência distante, que pode ser um cavado (área de relativa baixa pressão) ou um ciclone em níveis mais baixos. Pode também ser uma zona frontal, uma área onde o ar frio encontra o ar quente. Uma área de forte convecção e movimento ascendente pode também trazer vapor d’água para altitudes mais elevadas e favorecer o surgimento dessas nuvens. Sob a influência de ondas atmosféricas que estão frequentemente presentes em altitudes elevadas, as nuvens Cc podem se organizar e se mover com os ventos, formando os padrões alinhados que caracterizam um céu empedrado.

Em inglês, há um termo muito curioso para este fenômeno: é o Mackerel Sky. Mackerel é um nome generico dado a diversos peixes do Atlântico Norte (em Portugal, usa-se o termo carapau para designar esse tipo de peixe). E a referência é que as nuvens alinhadas lembram as escamas desses peixes, por isso o termo mackerel sky.

Como esse tipo de formação de nuvem está associada com sistemas frontais (como mencionamos anteriormente), existem diversos ditados de sabedoria popular que se referem ao fenômeno. Em inglês, temos ‘Mackerel sky, not twenty-four hours dry’, que eu gostaria de traduzir como ‘céu de carapau, não vai ficar seco nem a pau’. Essa expressão já nos dá a ideia do tipo de quadro sinótico futuro que esse tipo de nuvem no céu nos antecipa.

Observar as nuvens é algo muito importante dentro da meteorologia, pois nos ajuda a prever o tempo de maneira qualitativa. Uma pessoa que mora num mesmo lugar por muitos anos e é um pequeno produtor rural por exemplo, pode muito bem prever o tempo em sua região com base na observação das nuvens. Nesse material, há uma apostila que usei durante a graduação e fala um pouco sobre essa questão de se prever o tempo com base na observação das nuvens.

Em português há um ditado popular também, com a mesma conotação: “Céu empedrado, tempo molhado”. Essa é apenas uma das variações desse ditado popular, porém todas as variações fazem um alerta com relação a chuva futura. Em espanhol e em galego, temos respectivamente: “Cielo empedrado, tiempo mojado” e  “Cando o ceo semella enlousado, o tempo está mollado”.

Bom, vocês já perceberam que eu gosto de aprender sobre idiomas. Então vamos a mais alguns exemplos. Em francês, usa-se o termo ciel moutonné (céu encrespado, céu assemelhado a uma ovelha, já que a palavra mouton significa ovelha). Em italiano, utiliza-se o termo pecorelli para esse tipo de nuvem (pecorelli significa ovelhinha). Em alemão, o termo é Schäfchenwolken (nuvem ovelha ovelhinha, obrigada Jaque – ela contou que o sufixo -chen em alemão denota diminutivo).

Fontes: