Monet e o Porto de Le Havre



Ao longo de sua vida Oscar-Claude Monet pintou o porto da comuna de Le Havre diversas vezes, com diversas combinações de iluminação (diferentes épocas do ano, diferentes horários do dia e diferentes quantidades de nebulosidade). Eu até grifei a palavra nebulosidade pois foi por essa razão que os quadros me chamaram a atenção. Antes de mais nada, vamos falar rapidamente da comuna de Le Havre.

A comuna de Le Havre

Trata-se de uma cidade portuária localizada no norte da França, mais especificamente na região da Alta Normandia. A região sofreu enormes danos durante a Segunda Guerra Mundial. Durante a guerra, o porto foi ocupado pelos alemães no começo da década de 1940. Isso ocorreu com diversas cidades portuárias francesas.

A destruição de Le Havre teve seu ápice durante a Batalha da Normandia, no verão de 1944. A cidade foi bastante destruída entre os dias 5 e 6 de setembro daquele ano, quando os Aliados começaram a tomar assalto para libertar a cidade da ocupação alemã. Os alemães bateram em retirada no dia 12 de setembro do mesmo ano.

Essas batalhas deixaram mais de 90% da cidade destruída. Com o final da guerra, um total de 5.000 civis foram mortos, 12.500 construções destruídas e 80.000 pessoas desabrigadas, de acordo com dados da UNESCO. O arquiteto Auguste Perret coordenou a reconstrução da cidade em 1945.

Como gosto muito de história, resolvi fazer esse prelúdio. Entretanto, vamos falar de uma Le Havre antes da guerra. Vamos falar da Le Havre do final do século XIX, quando Monet vivia por lá e nutriu uma obsessão em retratar o porto da cidade.

Claude Monet

Oscar-Claude Monet é o mais célebre entre os pintores impressionistas. Não sou especialista em artes, apenas uma admiradora. E se eu tivesse que explicar para alguém o que foi o impressionismo na pintura, eu diria duas palavras: luz e movimento. Os pintores impressionistas tinham grande preocupação com a iluminação. Eles trabalhavam ao ar livre, para capturar as variações de nebulosidade da melhor maneira possível. E a ideia de movimento era concedida pelas pinceladas soltas e visíveis.

Quando a gente aprecia um quadro impressionista “de perto”, ele não tem muita graça e nem é muito compreensível (parece um borrão, uma “pintura mal feita”). Na medida que o observador se afasta, consegue entender a importância das pinceladas soltas e das variações de coloração para compor a luminosidade. E então, a pintura passa a fazer sentido.

Como eu disse, eu não sou especialista. Tudo o que falo aqui é com base em leitura, visitas a museus e com a vívida lembrança das aulas de duas professoras de artes que tive nos meus anos de ensino básico: Cibele e Elisa, duas apaixonadas pelo assunto e que conseguiram despertar meu interesse.

Em outra ocasião, mencionei que a arte deveria ser apreciada. Sou da opinião de que mesmo uma pessoa sem conhecimento nenhum sobre a técnica ou a história de uma obra de arte pode fazer sua interpretação, pois a arte toca no coração das pessoas. Meio maluco falar isso em um blog que trata principalmente sobre ciência, mas acho que nem tudo na vida é lógica pura. E arte, além de técnica (que seria a parte “lógica”, digamos assim) tem um importantíssimo componente subjetivo. A arte em geral pode mexer com nossos sentimentos sem necessariamente termos o conhecimento técnico (para entender das pinceladas ou dos materiais utilizados) ou do contexto histórico. E também acho que nós acabamos enxergando na arte aquilo que gostamos. Por exemplo, um botânico vai observar as plantas retratadas. Um figurinista vai observar mais atentamente as vestimentas das pessoas retratadas. E eu, como meteorologista, gosto de observar o céu pelos olhos do artista.

Retratos do porto de Le Havre

O nome do movimento artístico Impressionismo vem do trabalho Impressão, Nascer do Sol (1872) de autoria de Monet. O quadro retrata o Porto de Le Havre e é um dos vários que vamos comentar nesse post.

Musée Marmottan Monet, Paris
Impressão, Nascer do Sol (1872) de autoria de Monet. Musée Marmottan Monet, Paris

A primeira coisa que chama a minha atenção, como meteorologista, é a coloração laranja do céu e do próprio disco solar. Falei sobre o fenômeno Espalhamento Mie nesse post e ele nos ajuda a compreender essa coloração.

O Espalhamento Mie ocorre quando as partículas suspensas na atmosfera tem o mesmo comprimento de onda da luz que está sendo espalhada. Poeira, pólen, minúsculas gotículas de água são as principais responsáveis pelo espalhamento mie, afetando comprimentos de onda maiores, que correspondem às cores laranja e vermelho. Esse fenômeno ocorre mais intensamente na baixa atmosfera e em baixas altitudes, onde essas partículas são mais abundantes. Em locais de altitudes mais elevadas, o céu costuma ser mais azul, porque a quantidade de partículas que provocam o espalhamento Mie costumam ser menores.

No Porto de Le Havre, temos baixa altitude (estamos no nível do mar) e temos a questão do horário, que foi deixada bem clara pelo título da pintura. É bem cedo, é o nascer do Sol. Durante o  nascer e o pôr-do-Sol, a luz solar passa por uma camada maior de atmosfera, interagindo com mais partículas. O espalhamento Mie torna-se dominante, deixando o céu com uma coloração alaranjada-avermelhada.

Outro fator que me chama a atenção é esse aspecto “enevoado” da pintura, quase que um blur. Os especialistas dizem que essa é uma das características do Impressionismo. Como meteorologista, não deixo de pensar que nesse caso temos nevoeiro. Temos ao menos dois ingredientes para isso: manhã (horário de temperaturas mais baixas) e umidade do oceano.

Durante o nevoeiro, o ar próximo a superfície da Terra se resfria e o vapor d’água contido nele se condensa sobre os pequeninos núcleos de condensação.  Lembram quando expliquei que para uma nuvem se formar, é necessário que o ar seja forçado a subir (leia aqui e aqui) para que atinja temperaturas mais baixas e então o vapor d’água contido nesse ar se condense, formando as gotículas? No caso do nevoeiro, a nuvem se forma sem que o ar seja forçado a subir. O vapor d’água contido no ar encontra condições para se condensar na própria superfície, que está suficientemente fria para isso.

Os nevoeiros normalmente se formam pela manhã, depois de madrugadas com pouca nebulosidade. Durante a noite e a madrugada, a superfície da Terra passa a apenas a perder calor para o espaço,  pois o Sol, nossa fonte de calor, já se pôs.

Para saber mais sobre nevoeiro, veja esse post.

Outro detalhe de Impressão, Nascer do Sol (1872) são as chaminés da fábrica, do lado esquerdo. A cidade de Le Havre já era industrializada no final do século XIX. Atualmente, a cidade é um porto super movimentado, com movimento de muitos navios de cruzeiro.

Vista do porto de Le Havre. Fonte: Brittany Ferries
Vista do porto de Le Havre. Fonte: Brittany Ferries

Impressão, Nascer do Sol (1872) não foi a única e nem a primeira representação do Porto de Le Havre. Abaixo, temos O mar em Le Havre (1868):

O mar em Le Havre (1868). Acervo do Carnegie Museum of Art
O mar em Le Havre (1868). Acervo do Carnegie Museum of Art Pennsylvania, USA

Eu não conhecia esse quadro e descobri enquanto estava pesquisando para escrever o post. Chamou minha atenção as “pinceladas violentas” para retratar o mar agitado. O céu também está nublado, porém não tão nublado a ponto de estar completamente encoberto. Além disso, o pintor usou bastante branco. Quando conseguimos ver as nuvens bem branquinhas, significa que temos suficiente luz solar para isso.

A próxima versão é A Entrada do Porto de Le Havre (1870).

A Entrada do Porto de Le Havre (1870), acervo de Norton Simon Museum, California, USA
A Entrada do Porto de Le Havre (1870), acervo de Norton Simon Museum, California, USA

Nela, as embarcações ganham bastante destaque e em segundo plano, temos o farol do porto. Suponho que essa pintura retrata o entardecer ou o amanhecer. Observe que as nuvens já apresentam uma coloração levemente alaranjada ou salmão. Meu palpite é que as nuvens retratadas são nuvens do tipo Sc (Stratocumulus), pois principalmente na parte acima do farol a gente consegue notar que elas não são nuvens muito espessas quanto seriam nuvens Cu (Cumulus), porém são relativamente extensas horizontalmente. Conseguimos também ver as bases dessas nuvens com certa definição. E a utilização da cor branca, no oceano, mostra possivelmente a presença de ondas arrebentando, ou seja, um mar agitado.

A próxima pintura é Nascente (1873). Podemos ver os mastros das diversas embarcações do porto. E mais uma vez, Monet usou tons de laranja e até tons de cinza-esverdeado para tentar capturar o nascer do Sol. Observe que esse alaranjado é refletido na água do mar, o que sugere um mar menos turbulento. Mais uma vez, Monet retratou  o Espalhamento Mie.

"Nascente (Marinho)" 1873. Acervo de The J. Paul Getty Museum
“Nascente (Marinho)” 1873. Acervo de The J. Paul Getty Museum

Muitos especialistas em arte e história falam que essa obsessão de Monet por nascer do Sol tem algo metafórico. Em 1873, a França estava se reconstruindo após a Guerra Franco-Prussiana. O nascer do Sol representaria uma esperança, uma nova oportunidade para o país.

Agora vamos a uma representação também do porto de Le Havre (como todas outras pinturas que destacamos). Le Bassin du Commerce, Le Havre (1874) mostra muita luminosidade. Isso nos faz concluir que Monet retratou o meio do dia. O céu está bem azul, ou seja, o Espalhamento Rayleigh está dominando. Observem que com mais luz, é possível observar mais detalhes da paisagem e o quadro apresenta mais vida. Há nuvens no céu, provavelmente nuvens tipo Cu (Cumulus).

Uma vez, uma professora de arte me contou que as pinceladas rápidas mostram um quadro feito de maneira “expressa”. A luminosidade ao ar livre varia bastante ao longo do dia, então o pintor tem que ser rápido para capturar aquele momento único. Apenas retoques básicos poderiam ser feitos no ateliê do pintor, porém a essência da luminosidade deveria ser representada naquele momento ao ar livre.

 

Le Bassin du Commerce, Le Havre 1874. Musée des beaux-arts de Liège (Bélgica)
Le Bassin du Commerce, Le Havre 1874. Musée des beaux-arts de Liège (Bélgica)

No próximo quadro, o pintor se afastou e foi para um local mais alto, mostrando todo o movimento no porto. Trata-se de Le Havre, Bâteaux de Peche Sortant du Port (1874). Pelo movimento no porto e pela coloração do céu (está branco de nuvens, porém com aberturas mostrando um azul vivo, típico do período entre umas 10h e 14h), imagino que a pintura também retrate o meio do dia. O título também nos sugere isso, já que trata-se do movimento dos barcos pesqueiros pelo porto. Os transeuntes podem ser os compradores desses peixes.

Le Havre, Bâteaux de Peche Sortant du Port 1874. Em exposição no Los Angeles County Museum of Art (LACMA)
Le Havre, Bâteaux de Peche Sortant du Port 1874. Em exposição no Los Angeles County Museum of Art (LACMA)

Monet fez outro trabalho no mesmo ângulo. Trata-se de Port of Le Havre (1874). Como na anterior, vemos várias pessoas caminhando pela praia. Eu não se a história dos dois quadros, mas meu palpite é que eles podem ter sido feitos no mesmo dia, porém em horários diferentes. Observem que o quadro a seguir é mais colorido, indicando maior luminosidade. Esse fato certamente tem relação com o que chamam de Efeito Purkinje, que refere-se a nossa percepção sobre as cores dependendo da intensidade da luz natural.

Port of Le Havre 1874, acervo do Philadelphia Museum of Art.
Port of Le Havre 1874, acervo do Philadelphia Museum of Art.

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Espero que tenham gostado do texto. Arte é um dos temas sobre o qual gosto muito de ler a respeito. E quando eu consigo falar de Arte e de Meteorologia no mesmo post, fico imensamente satisfeita.

Aproveito o finalzinho desse post para convidar vocês a lerem minha entrevista no Monolito Nimbus. Ficou muito boa e através dela, vocês podem conhecer um pouquinho mais sobre mim.

Até mais ☺️.