Simone de Beauvoir x Roman Polanski: seria um caso de ‘dois pesos e duas medidas’?

“Não carregueis convosco dois pesos, um pesado e o outro leve, nem tenhais à mão duas medidas, uma longa e uma curta. Usai apenas um peso, um peso honesto e franco, e uma medida, uma medida honesta e franca, para que vivais longamente na terra que Deus vosso Senhor vos deu. Pesos desonestos e medidas desonestas são uma abominação para Deus vosso Senhor”. Deuteronômio (25:13-16)

romansimone

Na minha vida, eu tento buscar a explicação mais justa e lógica para as situações. Claro que não acerto sempre, claro que tenho minhas limitações e claro que muitas vezes julgo precipitadamente.

Na internet, há moças feministas bem atuantes, que escrevem textos, concedem entrevistas e se tornaram bastante conhecidas. Muitas inclusive já palestram em escolas e tem colunas em importantes portais de notícias. São militantes e e algumas agem com bastante radicalismo. O que vou narrar para vocês é algo que já vi acontecendo várias vezes e me incomoda sobremaneira.

Ao longo do texto, vou citar algumas coisas a respeito da obra de Simone de Beauvoir e Roman Polanski. Mas não é na obra dessas duas personalidades que pretendo focar. Vou falar de suas vidas pessoais. Sim, tal qual Nelson Rubens, vamos fazer uma análise das vidas pessoais dessas duas pessoas e logo vocês vão entender o que quero dizer.

Antes de desabafar em forma de narrativa (olha a enrolação), preciso lembrar de algo óbvio: ninguém tem a biografia irretocável. Por mais correta e honesta que você seja, em algum momento da sua vida você fraquejou e fez algo errado. Fez alguém sofrer, foi corrupta, mentiu ou usou calça do Beetlejuice modelo saruel.  Em Romanos 3:23, é dito que todos nós pecamos. Todos nós! Porém, há esperança para cada um,  para tenhamos um novo propósito de vida e mudemos o curso de nossas vidas.

Simone de Beauvoir deixou sua importante marca no pensamento filosófico. Suas obras são lidas e discutidas nas Universidades, pessoas escrevem trabalhos acadêmicos sobre ela com uma enorme frequência. Ela foi inclusive tema de questão do ENEM. Na França, há uma ponte com seu nome. Seu trabalho é destacado e referenciado por diversos intelectuais. No entanto, observei que a vida e a obra de Simone não tem nada a ver comigo e parece que é um crime dizer isso nos dias de hoje, se alguma feminista ler esse texto, talvez não compreenda. Bom, segue a vida.

A intelectual tinha um relacionamento aberto com Sartre e era bissexual. E claro, seu modo de viver a vida refletia em sua obra. As principais críticas a vida de Simone são com relação ao fato de ela defender abertamente que adolescentes pudessem consentir relações sexuais. Em 1977, Beauvoir e outros intelectuais franceses assinaram uma petição que solicitava a redução da idade de consentimento e a libertação de acusados de pedofilia (leia a petição aqui, publicada em 1977 no jornal francês Le Monde). Vou copiar a tradução de um trecho, feita pelo Vista Direita, mas vocês podem ver o original também.

Um tempo tão longo de prisão para investigar um simples caso “vicioso” em que as crianças não foram vítimas de qualquer violência, mas ao contrário, testemunharam perante os magistrados que consentiram – embora a lei atualmente negue-lhes o direito de consentir – um tempo tão longo na prisão nós consideramos escandaloso em si. Hoje eles estão em risco de ser sentenciados a uma longa pena de prisão, por terem tido relações sexuais com menores, tanto meninos quanto meninas, ou por terem encorajado e tirado fotografias de suas brincadeiras sexuais. Nós acreditamos que há uma incongruência entre a designação como “crime”, que serve para legitimar tal severidade, e os fatos próprios; mais ainda entre a lei antiquada e a realidade cotidiana em uma sociedade que tende a conhecer sobre a sexualidade de crianças e adolescentes […].

Isso é assustador, não? Podemos dizer que sim, Simone de Beauvoir defendia a pedofilia. Claro que a sociedade mudou, claro que atualmente temos mais noção da importância de proteger a infância e a adolescência. Entendemos que os cérebros deles ainda estão em formação, eles não compreendem as consequências de suas atitudes e não tem responsabilidade para lidar com as consequências de um envolvimento sexual, principalmente quando esse envolvimento sexual é assimétrico em termos de idade ou experiência.

Sim, a sociedade mudou. Mas isso não apaga esse fato constrangedor sobre a biografia de Simone. E sabem a opinião estapafúrdia que ouvi recentemente? Que Simone provavelmente foi persuadida pelo marido e por colegas a assinar a petição. Mas gente, Simone não é uma intelectual? Vamos transformá-la agora em uma vítima das circunstâncias? Esse argumento foi tão constrangedor que nem consegui discutir com a pessoa que sugeriu isso.

Simone também seduziu pelo menos duas de suas alunas, que se envolveram com ela e com Sartre. Essas alunas tinham 16 e 17 anos. Pensando como mãe e educadora, fico horrorizada com essas coisas. E aposto que você também, sempre pontuando que a sociedade mudou.

E é nesse ponto que quero chegar em Roman Polanski. Polanski, renomado diretor polonês, vencedor do Oscar com o excelente filme O Pianista (2003). Polanski abusou sexualmente de uma menina de 13 anos na década de 1970 e até hoje não pode entrar em território norte-americano (sob o risco de ser preso). Há feministas que boicotam os filmes de Polanski devido a esse gravíssimo crime.

E é aí que eu quero chegar: porque Beauvoir é perdoada e compreendida por muitas feministas (muitos ainda dizem que ela ajudou na liberação sexual dos adolescentes, Senhor!) e Polanski não é? Claro que há provas muito mais concretas para o caso Polanski, ele foi indiciado criminalmente. Mas avaliando as histórias, ainda me parece um caso de “dois pesos e duas medidas”.

Devemos boicotar os dois? Não é disso que se trata e nem é disso que estou falando. Só quero dizer que é preocupante ver feministas endeusando Beauvoir e muitas sequer leram seus escritos, entrevistas ou sua biografia. Cuidado, não saiam repetindo toda ‘informação’ que vocês lêem e jamais coloquem pessoas em pedestais. As pessoas erram, pecam. Mas as pessoas também dão excelentes contribuições para o pensamento crítico. E é o pensamento crítico que a gente precisa desenvolver e exercitar, para não colocar ninguém em pedestais.

Outro dia eu estava ouvindo uma conversa entre três famosos intelectuais contemporâneos brasileiros: Karnal, Pondé e Cortella. A conversa fora gravada em um auditório grande (veja aqui), que estava lotado. As pessoas aplaudiam loucamente, assoviavam. Quando os nomes dos participantes eram anunciados, a multidão entrava em êxtase. Como o Karnal mediava a conversa e Pondé parece ser mais querido pelo pessoal “de direita” e Cortella mais querido pelo pessoal “de esquerda”, claramente dava para perceber que rolava uma espécie de torcida.

Não sei vocês, mas não quero esse delírio. Quero coisas sóbrias, quero tempo para raciocinar e refletir. Quero tempo para avaliar o que as pessoas dizem e produzem. Tempo para avaliar os fatos com justiça e lógica. Eu me distanciei de discussões sobre alguns temas porque as pessoas não dão esse tempo, porque não há ponderação e principalmente porque há também muita agressividade. E isso está muito longe do que almejo.

Mais um exemplo de falta de ponderação que presenciei: Marie Curie

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Quando falamos em mulheres na ciência, Marie Curie provavelmente é um dos primeiros nomes que surgem em nossa mente. Ganhadora de dois Prêmios Nobel (um de Física em 1903 e um de Química em 1911), foi a primeira mulher a ganhar o prêmio e a primeira pessoa a ganhar o prêmio por duas vezes.

Em um grupo de WhatsApp que faço parte (discutimos principalmente literatura), uma militante feminista disse o seguinte:

“Até a coitada da Marie Curie teve o segundo Nobel revogado porque se envolveu com um cara casado. Mas ela foi lá receber sim e disse que o Nobel era pela pesquisa dela e não pelo o que ela fazia em sua vida privada. Se fosse um homem, jamais cogitariam em retirar um Nobel porque foi infiel.”

Reproduzi exatamente as palavras da moça. Vocês vão ver que ninguém queria tirar o prêmio de Curie. O que foi feito foi uma campanha de fofocas e intrigas, para prejudicar a vida de Curie. Como ocorre frequentemente em muitas militâncias, há a criação daquela fanfic marota para dar mais peso ao lado defendido.

Se um homem viúvo se envolvesse com uma mulher casada, muito provavelmente o bafafá seria menor (pelo menos para o lado dele). Mas se a gente lembrar de fatos muito recentes, os casos extra-conjugais de Bill Clinton e de Tiger Woods, vamos lembrar que a infidelidade masculina (dependendo das circunstâncias) pode também ser punida pela sociedade. Só que vamos analisar com cuidado e entender o que aconteceu especificamente nesse momento da vida de Marie Curie.

Quando Pierre Curie morreu, Marie acabou se envolvendo com Paul Langevin, um homem extremamente inteligente e que era aluno de seu marido. Só que o cara era casado! Eles acabaram gostando um do outro e decidiram alugar um imóvel para se encontrassem com privacidade. Foi quando Madame Langevin descobriu e arrumou gente para invadir o imóvel, roubando cartas que os amantes trocavam e começou a chantagear o casal para que o relacionamento deles acabasse.

Três dias antes de Curie ganhar seu segundo Nobel, Madame Langevin vazou as cartas para a imprensa e os jornais adoraram a história e os detalhes sórdidos. Curie foi vítima de fofocas e xenofobia (pois ela era polonesa e talvez, judia). Aconselharam-na a não ir para Estocolmo receber o prêmio das mãos do rei sueco (que não era nenhum santinho, diga-se de passagem). Ninguém menos que Albert Einstein saiu em sua defesa, a incentivando a ir sim receber o prêmio. Ela foi, recebeu o prêmio e tudo deu certo. Leia toda a história sobre esse incidente da vida de Curie nesse texto.

Observem que nessa passagem da vida de Curie, uma mulher ajudou a prejudicar sua reputação e um homem a incentivou. A mulher estava com o orgulho ferido, claro. Mas quero chegar no ponto de que crueldade não tem gênero. Os homens foram responsáveis por mais atrocidades em guerras, conflitos, etc, pois eles participaram mais da vida pública na história mais recente da civilização ocidental. Só que nós mulheres também somos cruéis. Mesmo quando estávamos restritas apenas a vida doméstica, muitas foram cruéis com seus filhos, familiares em geral e cônjuges. Não matamos com armas, mas matamos com venenos e palavras. O ser humano é mau!

Não quero ser colocada como uma pobrezinha vítima das circunstâncias, porque isso para mim não é ser tratada com igualdade no que diz respeito ao julgamento pelas próprias ações. Também não quero ver todo um gênero como algoz e todo o outro como aliado, porque isso é ingenuidade. Em Jeremias 17:5-7: “Assim diz o Senhor: Maldito o homem que confia no homem, e faz da carne o seu braço, e aparta o seu coração do Senhor! Porque será como a tamargueira no deserto, e não verá quando vem o bem; antes morará nos lugares secos do deserto, na terra salgada e inabitável. Bendito o homem que confia no Senhor, e cuja confiança é o Senhor.”

Eu já fui tratada com carinho e amizade por homens e mulheres. Já fui prejudicada por homens e mulheres. Não dá para confiar na aparência, não dá para julgar apenas porque a pessoa é desse ou daquele gênero.

Esse momento da história de Curie nos mostra como um homem a apoiou e incentivou. Fiquei pensando nas vezes em que fui apoiada e amparada pelo meu querido pai, pelo meu irmão, por tios, por professores, por colegas ou amigos. Eu não posso demonizar um gênero inteiro. Dói meus ouvidos quando ouço que ‘todo homem é um estuprador em potencial’ ou que ‘uzomi são tudo igual etc’.  E ela cai no que mencionei anteriormente: ela é agressiva ela reproduz uma generalização, o que a torna injusta.

Desse modo …

Bom, eu quis escrever uma espécie de “conclusão” sobre esses dois fatos, apenas porque achei que os dois textos escritos dessa maneira ficavam esquisitos. O que quis dizer acho que ficou bastante claro. Não é saudável que a ajamos com radicalismos e menos saudável ainda que coloquemos pessoas em pedestais. A maneira mais correta de agir, de acordo com o meu ponto de vista é analisar caso a caso com muito cuidado, compreendendo nossas próprias limitações. Muitas vezes o melhor é se abster, já que não temos conhecimento de causa suficiente para julgar.

O que me assusta nesse “feminismo de internet” é exatamente essa demonização de todo um gênero. Acho um desrespeito com todos os homens que foram bons para mim ao longo da minha vida. Eu entendo que talvez você não tenha tido a mesma sorte, eu sei que cada um carrega dentro de si alguns traumas muito sérios. Mas será que não é o caso de buscar uma ajuda médica para superá-los? Será que não é o caso de ver na lógica e na razão um refugio para compreender que nem todos os homens são maus (se esse for o seu caso)? Eu acredito que a ponderação pode te ajudar. E a fé também pode te ajudar. Uma fé que dê esperança e dê uma injeção diária de ânimo para vencer esse mundo difícil e cruel.