A situação na Cantareira depois de vários dias de chuva em São Paulo-SP



 

O planejamento dos sistemas de reservatórios e represas é extremamente importante. Cortesia de Shutterstock

A estação chuvosa, aqui na Região Sudeste, começa em meados do mês de Setembro e vai até o mês de Março. Em outras palavras, são em média os meses mais chuvosos do ano. Vamos usar como referência um climograma de São Paulo-SP (usando dados da Estação Meteorológica do IAG-USP) para compreendermos melhor:

É na estação chuvosa que os reservatórios da cidade de São Paulo tem a chance de serem recarregados. Quando falo em reservatórios, me refiro ao sistema de represas que abastece nossa cidade. Na minha opinião, todo cidadão deve ter a preocupação com a água que abastece sua cidade. E essa preocupação é bem multidisciplinar, no sentido que devemos nos preocupar com a qualidade da água, com a quantidade disponível de água e com as ocupações no entorno das represas (preservação da mata ciliar e combate a ocupações ilegais), etc.

A questão da água é bastante ampla e nesse post vou focar especificamente na questão da quantidade de água nos reservatórios, já que sou meteorologista e a recarga dos reservatórios dependem diretamente das chuvas.

 Situação dos reservatórios nos anos de 2014 e 2015

A estação chuvosa do ano de 2013/2014 teve chuva abaixo da média. De acordo com informações da Estação Meteorológica do IAG-USP:

O trimestre DJF2013/2014, período referente ao verão 2013/2014, foi caracterizado por um total de 352,5mm chuva, total bem abaixo da média climatológica que é de 634,8mm. Em outras palavras, choveu apenas 55,5% do esperado. Foi o 2° verão mais seco da série histórica, sendo superado apenas por DJF1940/1941 (que teve 345,7mm acumulado). {x}

Levando em consideração todo o ano de 2014 e ainda usando informações da Estação Meteorológica do IAG-USP:

O ano de 2014 foi seco, com chuva abaixo da média climatológica. O total de chuva acumulada foi 1216,8mm, 13% abaixo da média climatológica (1402,8mm, calculada de 1933 a 2014). Mesmo comparando com a normal 1933-1960 (1238,5mm) e com a normal 1961-1990 (1442,4mm), verifica-se que 2014 foi de fato bastante seco. Foi o 22° ano mais seco e foi o segundo ano mais seco dos últimos 30 anos (superado apenas por 2003, com total de 1068,9mm).
Os meses secos de 2014 foram: Janeiro, Fevereiro, Junho, Julho, Setembro e Outubro. Os maiores destaques foram Fevereiro (com total acumulado de apenas 81,1mm, sendo o 4° mês de Fevereiro mais seco desde 1933) e Outubro2 (com total de acumulado de apenas 25,4mm, também o 4° mês de Outubro mais seco desde 1933). Os demais meses de 2014 (Março, Abril, Maio, Agosto, Novembro e Dezembro) não tiveram grandes acumulados: ficaram ligeiramente acima da média, sem nenhum destaque. {x}

Em 2014, escrevi vários textos falando sobre a crise hídrica que foi decorrente dessa falta de chuvas. Claro que a crise hídrica não pode ser considerada a única responsável. A falta de investimentos e de modernização no setor também precisa ser levada em consideração. Além de claro, as pessoas precisam se conscientizar e compreender que economizar água é um dever moral.

Vários bairros de São Paulo-SP enfrentaram racionamento de água ao longo de 2014. A situação ainda estava bastante crítica em 2015, apesar do verão 2014/2015 ter apresentado chuva um pouco acima da média climatológica:

O trimestre DJF 2014/2015, período referente ao verão 2014/2015 teve 758,7mm de chuva acumulada, valor acima da média climatológica que é de 634,8mm. Em termos históricos, foi o 14° verão mais chuvoso da série. Comparativamente, em DJF 2013/2014 foram acumulados 352,5mm de chuva na EM-IAG-USP, que foi o 2° verão mais seco da série. {x}

Levando em consideração todo o ano de 2015, ele foi considerado chuvoso de acordo com o dados observados na Estação Meteorológica do IAG-USP:

O ano de 2015 foi chuvoso, com chuva acima da média climatológica. O total de chuva acumulada foi 1829,4mm, 30% acima da média climatológica de 1407,9mm, calculada de 1933 a 2015. Foi o 8° ano mais chuvoso da série. O mais chuvoso da série foi o ano de 1983, com total de 2236,0mm. Os meses mais chuvosos de 2015 foram: Janeiro, Fevereiro, Março, Julho, Setembro, Novembro. Destaque para os meses de Julho, Setembro e Novembro, nos quais choveu mais que o dobro das respectivas médias climatológicas {x}.

Já o verão 2015/2016:

O trimestre DJF 2015/2016, período referente ao verão 2015/2016 teve 671,4mm de chuva acumulada, valor acima da média climatológica que é de 635,0mm. Em termos históricos, foi o 31° verão mais chuvoso da série.

E com relação ao ano todo (ainda não saiu o Boletim de 2016 da Estação Meteorológica do IAG-USP), tenho a informação (da própria Estação Meteorológica do IAG-USP) de que foi um ano com chuva muito próxima da média climatológica. O total de chuva de 2016 é 1539,2mm, sendo a média atual (calculada entre 1933 e 2016) igual a 1407,9mm.

Alerta importante! 

Os dados que estou mencionando aqui são obtidos  a partir de observações da Estação Meteorológica do IAG-USP, nos pluviômetros que estão instalados lá. A cidade de São Paulo (isso sem mencionar todo o Estado e toda a Região Sudeste) é bastante grande e estou falando de dados de apenas um ponto. Eu acho que deixei isso claro nesse post também. No entanto, a questão qualitativa (período mais seco / mais chuvoso) é semelhante (acho que deixei isso claro nesse post também).

Condições dos reservatórios

Podemos dizer que viemos de uma estação chuvosa abaixo da média (2013/2014) e que só estamos nos recuperando agora desse déficit hídrico. Então o que vou mostrar para vocês a partir de agora, usando dados da própria SABESP, não é resultado apenas das chuvas dos últimos dias e também não é resultado apenas das estações chuvosas (verão) de 2014/2015 e 2015/2016. É importante notar que ao longo dos anos de 2015 e 2016, tivemos chuvas intensas em outros meses fora da estação chuvosa. Observe no gráfico abaixo (dados da Estação Meteorológica do IAG-USP), como os meses de maio/2016 e junho/2016, por exemplo, foram chuvosos.

Nos reservatórios que abastecem a RMSP (Região Metropolitana de São Paulo), há um sistema de medição da quantidade de chuva. Nas tabelas, eles usam o termo pluviometria para se referir a chuva acumulada naquele dia.

Para entender o que significa a unidade de medida usada para chuva (mm), clique nesse post.

Abaixo, os dados consultados no site da SABESP no dia 20/01/2017. Observe que para a região da Cantareira, já há um total de chuva acima da média histórica.

Para o Sistema Cantareira, aparecem 3 índices para expressar o volume armazenado. No site, há uma explicação a respeito do cálculo de cada um desses índices:

Até 16/03/2015, a SABESP informava a população apenas levando em consideração o volume útil. Em outras palavras, usava apenas o Índice 1. Isso é importante, pois pretendo comparar com as informações que divulguei em outubro de 2014.

Comparando as informações do dia 29/out/2014 e 20/jan/2017, vemos que o Sistema Cantareira teve uma melhora muito significativa. Lembre-se, é preciso comparar o volume armazenado do dia 29/out/2014 com o Índice 1 expresso no dia 20/jan/2017. Sendo assim, foi de 12,7% de volume armazenado para 82,2% de volume armazenado. Percebam que passaram-se mais de 2 anos e ainda assim não houve uma total recuperação (que em tese, seria um volume armazenado perto de 100%).

 

 

Estou destacando aqui as condições do Sistema Cantareira porque ele é o que abastece mais moradores na Cidade de São Paulo. Para saber mais sobre o Sistema Cantareira e para descobrir qual Sistema abastece o bairro onde você vive, clique nesse post para mais informações.

Para finalizar o post, apenas gostaria de ressaltar que a discussão sobre a água é de extrema importância e não deveria ficar em alta apenas quando a situação é de déficit hídrico. Nós devemos sempre lembrar da importância de preservar e economizar esse precioso recurso, refletindo essa lembrança em nossas atitudes.