A vida e o destino de um Jem’Hadar e uma reflexão sobre a sociedade: falando sobre o episódio The Abandoned (3×06) de Star Trek: DS9



Desculpem pelo título super longo, mas frequentemente me falta criatividade ou concisão para escolher títulos de posts.

Recentemente, falei sobre ensino secular e usei um episódio de Star Trek: DS9 para fazer uma reflexão (veja aqui). Hoje vou falar de Star Trek: DS9 novamente.

Resumo do episódio de Star Trek: DS9 – The Abandoned (3×06)

No episódio The Abandoned (3×06), Quark compra os destroços de uma nave do Quadrante Gama. Ao verificar a compra, nota que em meio aos destroços havia uma câmara de estase com um bebê vivo dentro dela. Os destroços são confiscados pela Federação e então procura-se descobrir quem é esse bebê.

O bebê se desenvolve muito rapidamente, logo se transformando numa criança. Num primeiro momento, o Dr. Bashir e a equipe não conseguem determinar a qual  espécie ele pertence, porém notam em seus exames que essa taxa de crescimento e desenvolvimento aceleradas parecem ser propositais, fruto de engenharia genética.

Bebê Jem ‘Hadar. Fonte: Memory Alpha

Com o tempo, as características físicas do rapaz apontam para qual espécie de alienígena ele é: o moço é um Jem ‘Hadar. Ele tem instintos violentos e quer agredir qualquer um que surge em sua frente. O único que ele parece respeitar é Odo, personagem que é metamorfo (a espécie dos Fundadores).

Jem ‘Hadar adulto. Fonte: Memory Alpha

Dr. Bashir e os demais especialistas da Federação então concluem que os Fundadores e o Domínio criaram os Jem ‘Hadar programados geneticamente para serem violentos. Eles usam a força bruta dos Jem ‘Hadar para conseguir os acordos que eles não conseguem amigavelmente. Um Jem ‘Hadar  é uma máquina de matar e destruir, ou seja, foi concebido dessa maneira. No entanto, eles também parecem ser geneticamente programados para respeitar e seguir cegamente os Fundadores, o que é de se esperar, já que os Fundadores são os “chefes” deles. E é por isso que o jovem Jem ‘Hadar respeita Odo mesmo sem conhecê-lo previamente.

Odo tenta de todas as maneiras mostrar uma outra possibilidade para a vida do jovem Jem ‘Hadar. Um caminho em que o jovem programado para matar possa descarregar sua raiva em lutas marciais na holosuíte. Um caminho em que ele possa deixar o determinismo biológico imposto a ele. Odo se usa como exemplo, dizendo que é da mesma raça dos Fundadores, mas no entanto não é cruel como eles.

Para finalizar (e revelando quase todo o enredo do episódio), os esforços de Odo são infrutíferos.

O determinismo e como esse pensamento influencia as pessoas até hoje

E por que estou falando desse episódio? Porque ele tem tudo a ver com nossa sociedade. Vou explicar de maneira sucinta e já agradeço de antemão minha prima, amiga  e “guru de humanas” Aline Novais de Almeida, que atualmente faz parte do corpo editorial da Revista Opiniães, uma revista sobre literatura brasileira. Ela me ajudou bastante a organizar as ideias para escrever esse post.

Vamos começar falando do cenário brasileiro e mundial no final do século XIX e início do século XX no tocante ao pensamento sobre a presença do negro e do mestiço na sociedade.

O positivismo do século XIX alicerçava de modo menos complexo os problemas sociais. Essa corrente de pensamento cooperou muito com o pensamento higienista de muitos pensadores do Brasil e do mundo. Entre o final do XIX e começo do XX, teorias de matriz positivista encabeçaram estudos na tentativa de justificar, por exemplo, que o negro era menos inteligente que o branco. Alguns pensadores e cientistas da época argumentavam que as diferenças de aparência entre brancos e negros explicariam essa suposta diferença de inteligência. Esse foi o cenário ideal para surgirem movimentos eugenistas (que estiveram presentes no Brasil), com propostas absurdas como a de selecionar imigrantes, proibir a miscigenação e a de controlar matrimônios. No mesmo cenário, também surgiu na Itália os pensamentos de Cesare Lombroso, médico que acreditava que certos traços físicos estão associados com comportamentos criminosos. Os pensamentos de Lombroso chegaram a influenciar o ensino de direito penal no Brasil.

Nina Rodrigues, médico brasileiro que também compartilhava pensamentos higienistas, publicou muito material na tentativa de explicar cientificamente que o negro na sociedade brasileira era um problema. Em suma, o positivismo, e todas as teorias que declinam dele causaram um grande mal ao Brasil e infelizmente até hoje vemos vestígios desse pensamento.

Hoje, com o avanço em diversos campos do conhecimento, como Biologia e Genética, sabe-se que o determinismo biológico não explica a desigualdade social. A Sociologia, Geografia e a própria História, como disciplinas fundamentadas que são podem problematizar a questão de forma muito melhor.

Além de tudo, há uma questão particular, do próprio sujeito, que também atravessa o problema social. Por isso há casos de pessoas brilhantes que apesar das adversidades sociais vividas, acabam conseguindo deixar um cenário de pobreza, por exemplo.

A Aline destacou que para pensar essas questões, vale lembrar do romance O Cortiço, de Aluísio Azevedo. Apesar de ter uma ideia central com raízes positivistas, o romance extrapola isso e problematiza os limites do determinismo social.

Ficção científica x Vida Real

No caso do episódio, os esforços de Odo foram infrutíferos. Talvez porque ele não teve tempo e nem condições apropriadas para ensinar o jovem Jem ‘Hadar. Ou talvez porque a Engenharia Genética dos Fundadores seja tão poderosa que é capaz de implantar e programar intenções no DNA.

O episódio tem claras alusões aos pensamentos positivistas do final do século XIX e início do século XX.  No entanto, nos faz pensar se é realmente possível “criar assassinos” através da engenharia genética, talvez criando alterações neuronais que levem a agressividade, por exemplo.

Não é a primeira vez que a franquia Star Trek menciona ideias oriundas (de certa maneira) do positivismo. Na timeline do universo da franquia, na década de 1990 ocorreu as Guerras Eugênicas, travadas entre humanos geneticamente modificados e humanos comuns. Os humanos geneticamente modificados foram resultado de experiências durante a Guerra Fria. O mais famoso desses humanos modificados é Khan (Star Trek II – A Ira de Khan). Ocorre que como resultado dos experimentos, os geneticamente modificados tornaram-se mais violentos, ambiciosos e arrogantes. Uma guerra terrível é travada, vencida pelos humanos comuns e fazendo com que qualquer tentativa da Engenharia Genética com o objetivo de melhorar a espécie humana seja proibida.

Minha conclusão é de que Roddenberry acreditava sim no determinismo biológico, mas acreditava que esse determinismo não surgia naturalmente. Ou seja, ele não partilhava do pensamento dos higienistas. Roddenberry não era racista e isso fica bastante claro quando você entra no Universo de Star Trek.  Para Roddenberry e os roteiristas, é necessário existir alguma intervenção tecnológica intencional (ou não) para que fosse possível criar uma espécie destinada para matar.