Arte: o céu no quadro Os Retirantes, de Candido Portinari



Fonte da reprodução: Proa.org. Acervo do MASP.

Óleo sobre tela. Tem originalmente 190 x 180 cm e está permanentemente exposto no MASP. Uma breve análise sobre esta obra pode ser encontrada aqui. Não sou conhecedora em artes plásticas, mas quando vi essa obra pela primeira vez no MASP eu fiquei emocionada. Como é um painel bem grande, consegui reparar bem na expressão de sofrimento dos personagens, que estão fugindo da seca. As cores usadas por Portinari também me transmitiram bastante tristeza.

Embora eu já tenha mencionado esse quadro em diversos posts (como esse), decidi falar dele novamente para falar do céu no quadro. Todas as terças-feiras, procuro abordar algum aspecto sobre arte, que é um dos temas que mais gosto de pesquisar como hobby. E eu sempre tento fazer um link entre arte e meteorologia, já que muitas obras retratam cenas ao ar livre.

No quadro, o céu está escuro e do lado direito, podemos ver um astro no céu. Seria o Sol ou a Lua? Eu acredito que só pode ser o Sol, e é muito simples deduzir isso: observe as aves voando no céu, provavelmente urubus em busca de carniça (que concluímos pela temática do quadro). Essas aves aproveitam-se das termas, correntes ascendentes de ar quente. Falamos sobre o assunto nesse post. Essas correntes de ar quente estão presentes durante o dia claro, quando a superfície do solo está suficientemente quente para aquecer o ar logo acima.

Em um texto da Dois Pensamentos, que descreve o quadro, um trecho chamou minha atenção:

O céu está limpo,com um sol escaldante que contrasta ao fundo com os urubus , sobrevôo furioso à espreita do sinal de que a vida não mais habita o corpo; o cajado nas mãos do avô parece unir-se ao urubu, numa clara alusão à foice, símbolo do medo pela proximidade da morte.

O semi-árido nordestino é uma região naturalmente seca e eu falei brevemente sobre alguns dos motivos nesse post. Recomendo também esse post para quem quiser saber mais. A estação seca é bem marcada na região e há anos em que a seca é mais prolongada. Através de registros meteorológicos antigos e até através de reportagens, é possível determinar quais foram as secas mais prolongadas e que se estenderam por áreas maiores. Esse texto da Superinteressante menciona quais foram os períodos mais secos na história brasileira. E por que estou mencionando essa reportagem? Para termos uma ideia do que pode ter inspirado Portinari.

Os Retirantes foi concluído em 1944. No link acima é destacado o período de 1934/1936:

1934/1936
Essa foi uma das maiores secas enfrentadas pelo Brasil (que se tem registro). O longo período de estiagem não ficou restrito ao Nordeste: além de afetar nove estados na região, Minas Gerais e São Paulo também sofreram com a falta de chuvas. Depois disso, o problema no sertão nordestino passou a ser encarado como um problema nacional

É importante destacar dois romances de Graciliano Ramos publicados na década de 1930, ambos ficcionais claro, mas que exploram essa temática: São Bernardo, de 1934 e Vidas secas, de 1938. Não conheço toda a obra do escritor, mas sei que o tema seca também aparece em outros de seus livros.

Voltando ainda mais no tempo: A grande seca de 1877-1879.

Nesse post, mencionei que a Estação Meteorológica de Quixeramobim-CE é uma das mais antigas do Brasil, tendo iniciado suas operações provavelmente no final do Segundo Reinado. Entre os anos de 1877 e 1879, uma seca terrível acometeu o Semi-Árido nordestino. Como já discutimos outras vezes aqui no blog, a aridez é uma das características do clima do Sertão Nordestino, mas há anos em que a seca é mais prolongada e pronunciada. E provavelmente foi o que aconteceu entre 1877 e 1879. O Ceará, na época, com uma população de 800 mil habitantes foi intensamente atingido: 120 mil (15%) migraram para a Amazônia e 68 mil pessoas foram para outros Estados. A seca foi considerada devastadora: cerca de metade da população de Fortaleza pereceu, a economia foi arrasada, as doenças e a fome dizimaram até ao rebanho. Há relatos que afirmam que mais de 200 mil pessoas morreram em decorrência da seca. Uma tragédia tão grande na história brasileira que provavelmente é conhecida por poucos. Há um breve artigo de José Romero Araújo Cardoso,  professor da UFRN, que esclarece bastante sobre essa grande seca de 1877-1879.

A seca foi tão intensa que o governo cearense tomou uma medida desesperada e absurda: a criação de Campos de Concentração. Nesses locais, onde as pessoas ficavam confinadas com quantidade limitada de comida e água fornecida pelo governo,  as condições eram precárias e doenças se espalhavam rapidamente no local superlotado. Os Campos de Concentração foram criados pois com a seca, o êxodo urbano aumentava e a cidade de Fortaleza (capital do Estado mais afetado pela seca) ficava superlotada. Para controlar esse fluxo, foram criados esses locais precários e tristes.

Calcula-se que 500 mil pessoas morreram por causa da seca, em que o Estado mais atingido foi Ceará. O imperador dom Pedro II foi ao Nordeste e prometeu vender “até a última joia da Coroa” para amenizar o sofrimento dos súditos da região. Não vendeu, porém enviou engenheiros para a construção de poços.

Alguns anos depois da primeira grande seca no século XIX, em 1915 um novo episódio assolou o sertão nordestino. Mais uma vez, a nova seca fez com que diversos nordestinos migrassem para as grandes cidades, porém, ao contrário do primeiro episódio, o governo cearense resolveu se precaver de uma maneira desumana. Desta feita, o governo criou os primeiros currais humanos, campos de concentração em regiões separadas por arames farpados e vigiadas 24 horas por dia por soldados para confinar as almas nordestinas retirantes castigadas pela seca.

Fonte: Museu de Imagens

As pessoas eram vigiadas pelo exército e alguns desses campos de concentração perduraram até a década de 1930 e aparentemente foram utilizados em outros episódios de seca extrema. Tanto que no Museu de Imagens, encontrei essa chamada para uma reportagem do jornal O Povo, de 1932:

Notícia sobre o Campo de Concentração dos Flagelados, publicada no Jornal O POVO, em 16/04/1932.

 

Conclusão

Todos sabemos que a arte pode ser usada como forma de denúncia. O quadro de Portinari certamente tem essa função, fazer uma denúncia sobre as condições de vida precárias que os retirantes viviam. Em Os Retirantes, é impossível não perturbar-se com a situação decrépita e até cadavérica dos personagens. O cenário mostra uma total falta de esperança, com animais mortos e nenhum verde ou algo que denote a vida.

Acredito que o próprio céu no quadro também tem essa função. Nuvens são bonitas e inspiradoras para um artista, já que seus diferentes formatos e efeitos devido a luminosidade são um desafio técnico. Aqui, não há essa beleza. Há apenas um céu, de apenas uma cor, que não apresenta a beleza das nuvens. E observe que o artista nem colocou um céu “super azul claro” e luminoso. É como se a falta de esperança dos personagens sofridos afetasse a paisagem.