Ficção Científica e Pseudociência: clichês e temas recorrentes – Parte 7

Estrela de Leonard Nimoy (eterno Spock) na Calçada da Fama, com homenagens deixadas por fãs. Cortesia de Shutterstock

Vamos continuar nossa série de clichê e temas recorrentes em que a ficção científica e a pseudociência se misturam. Antes de ler esse post, confira as partes anteriores:

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Gente, esse vai ser o fim dessa série de posts. Mas eu vou acabar com estilo! Vamos falar de minha franquia favorita, a razão por eu amar ficção científica e pesquisar a respeito do assunto.

Star Trek!!!

Isso mesmo, vamos falar de Star Trek, mais uma vez, aqui no blog. Claro que eu não vou conseguir abordar todos os pontos pseudocientificos o clichês de Star Trek. A propósito, falar em clichê de Star Trek é até ignorância, já que podemos dizer que a franquia foi na verdade criadora de diversos “atuais clichês” empregados em outras séries e filmes de ficção científica. Em outras palavras, é aquilo que todo fã do gênero já sabe: Star Trek mudou a ficção científica.

Como não vou conseguir abordar todos os pontos nesse post, vou falar de dois pontos amplamente utilizados em Star Trek:

  • Transmissores de matéria (teletransporte)
  • Dobra Espacial

Então vamos.

Transmissores de matéria (teletransporte)

A ideia de transportar seres vivos e objetos de um lugar para o outro de maneira instantânea, desmaterializando o objeto em um ponto e rematerializando em outro ponto (ou simplesmente sumindo), não é nova. Na verdade é uma ideia que aparece em diversas mitologias. A narrativa bíblica de Elias e de Enoque falam em homens tão tementes a Deus que foram arrebatados. Tecnicamente isso seria teletransporte, dentro do contexto bíblico, uma vez que sairam da Terra e foram para o Paraíso (embora esse seja uma dimensão imaterial). Mas para os adeptos do teletransporte na ficção científica a ideia não é transformar matéria em energia?

Ralph Milne Farley (pseudônimo de Roger Sherman Hoar) escrevia ficção científica na decada de 1920 e criou uma série chamada The Radio ManNa série, um engenheiro eletricista realizava seus experimentos em Boston e é teletransportado para Vênus. Considerando a ficção científica, Ralph Milne Farley é provavelmente o criador da ideia de teletransporte. Décadas depois, essa ideia foi amplamente empregada em Star Trek (ou Star Trek: TOS, como referimos atualmente para não confundir com outras séries e filmes da franquia).

O curioso é que o recurso de teletransporte, em Star Trek, foi utilizado para suprir uma limitação técnica e financeira. A série é da década de 1960, e as tomadas de naves auxiliares aterrissando em mundos desconhecidas eram caras e de grande complexidade técnica.

O conceito de teletransporte na ficção é algo bem ‘elementar’ de se explicar. De alguma forma o seu corpo é digitalizado e gravado (a gravação é presumivelmente destruída após a rematerialização). Em seguida, a informação é transmitida alguma grande distância e o corpo é reconstruído a partir da informação disponível, usando matérias primas do local onde ocorre essa rematerialização.

Há cerca de 7.000.000.000.000.000.000.000.000.000 (sete octilhões) de átomos em nosso corpo. Suponha-se que a posição de cada átomo do corpo humano possa ser medido. O tempo para a luz a atravessar um átomo é de cerca de 10-18 segundos. Então, para digitalizar um corpo humano levaria cerca de 7.000.000.000.000.000.000.000.000.000 x 10 segundos ou cerca de 300 anos! Para reconstruir o corpo, na outra extremidade, novamente tão rapidamente quanto possível, levaria o mesmo período de tempo. Além disso, o corpo reconstruído não seria o indivíduo original, que foi destruído 6 séculos antes, na outra extremidade do transmissor. Desse modo, qualquer atividade do cérebro que envolve comportamento dinâmico não iria ficar gravada. Somente a informação armazenada na forma de moléculas específicas seriam copiadas. Em suma, o corpo reconstruída pode ter algumas das memórias do indivíduo original, mas pode não ter toda a sua personalidade, formação, sentimentos, etc. Alguns diriam que apenas o corpo físico poderia ser transmitido: já a alma, não.

Além disso, pode dar “um ruim” no processo de teletransporte e você ser copiado! Pode ser uma falha ética ou um defeito técnico, que foi como aconteceu com Riker anos antes de servir a USS Enterprise e é explicado no episódio Second Chances (Star Trek: TNG – 6×24). O “Riker duplicado” aparece também em um episódio de Star Trek: DS9.

Para vocês não dizerem que só gosto de Star Trek ou só falo apenas de Star Trek, deixo aqui essa imagem sedutora:

Mentira, era essa:

As imagens são do filme A Mosca (1986), um clássico da Ficção Científica e dos “Filmes B”. Na história, um cientista cria um equipamento de teletransporte no conforto de sua morada estilo industrial. Claro, aqui temos outro clichê da ficção cientifica: o do cientista antissocial/maluco que trabalha sozinho, muitas vezes “no porão de sua casa”, sem qualquer interação com outros membros da comunidade científica e muitas vezes até desacreditado e ridicularizado por seus pares (falei desse clichê no primeiro episódio da série).

O fato é que eu diria que o clichê do “cientista antissocial/maluco que trabalha sozinho” é quase tão recorrente quanto o clichê do teletransporte. Talvez seja impossível elencar todos os trabalhos da ficção especulativa que usam esses clichês.

Sobre as dificuldades para realizar viagens interestelares e a Dobra Espacial

Na prática, uma viagem interestelar seria algo muito difícil de se alcançar. Uma excelente discussão sobre isso é abordada num livro bem bacana, que é The Science of Star Wars: An Astrophysicist’s Independent Examination of Space Travel, Aliens, Planets, and Robots as Portrayed in the Star Wars Films and Books, de Jeanne Carvellos (veja aqui). Meu marido tem esse livro em português, eu já o li há bastante tempo e posso relê-lo para resenhar para vocês. O que me lembro é que logo nos primeiros capítulos desse livro há uma discussão muito interessante sobre viagens espaciais.

Outro livro nesse sentido que recomento é The Physics of Star Trek (resenhei esse livro e falei um pouco mais a respeito dele nesse post). Eu tenho mais familiaridade com Star Trek do que com Star Wars e a impressão que tenho é que as viagens espaciais não são muito “explicadas” em Star Wars. Elas acontecem, pronto e acabou. Em Star Trek, por outro lado, há o conceito de dobra espacial. Esse conceito ajuda a explicar como é possível viajar nas enormes distâncias pelo espaço.

A estrela mais próxima da Terra é  Alfa Centauri, que está a 4,24 anos luz de distância da Terra. Um ônibus espacial atual atinge velocidades de 28.000 km/h. Dessa maneira, a essa velocidade, demoraríamos 1.432.607.143 anos (um milhão de anos, minha gente) para chegar em Alfa Centauri (não sei se meus cálculos estão corretos, confiram aí)! Precisaríamos parar para abastecer várias vezes e garantir que a nave nunca se desgastaria. Além disso, quantas gerações de humanos teriam que existir e viver dentro da nave, sempre com a cultura de “conformismo”, afinal de contas, você está dentro de uma nave e suas opções de lazer, trabalho, profissão, envolvimento romântico, etc são um pouco limitadas. Bom, é uma quantidade de tempo que a espécie humana não consegue nem compreender direito.

Supondo que fosse possível viajar na velocidade da luz, demoraríamos pouco mais de 4 anos para chegar até Alfa Centauri. A questão é que demoraria muito (muito mesmo) para atingirmos a velocidade da luz (se fosse possível) a partir do repouso. O corpo humano não suporta acelerações bruscas.

Bem, vamos assumir que possamos de fato atingir a velocidade da luz por meios normais e que viajemos a uma aceleração de 10 m/s². Levaríamos aproximadamente 30.000.000 segundos (500.000 minutos, 8333.33333333 horas, 347.222222222 dias, 49.6031746032 semanas ou 0.9539072039 anos) para atingir a velocidade da luz. Muito tempo só para acelerar a nave. E nem vou mencionar novamente a questão da fonte de energia.

Além disso,  viajar na velocidade da luz tem umas consequências bem estranhas. A mais conhecida delas é que o tempo passa mais devagar para quem está viajando perto da velocidade da luz. Ou seja, você não vai envelhecer, porém seus amigos e parentes que permaneceram na Terra envelhecerão. Em termos práticos, temos a questão do aumento da massa.

Outra característica que emerge da relatividade especial é que, à medida que algo se acelera, sua massa aumenta em comparação com sua massa em repouso. Este aumento na massa relativista vai fazer com que cada vez mais energia seja empregada para tudo se mover. À medida que a velocidade do objeto aumenta e começa a atingir frações apreciáveis ​​da velocidade da luz, o objeto vai ficar cada vez mais maciço e cada vez maior.

Não vou entrar em mais detalhes, porque meu conhecimento sobre o tema (relatividade) é muito limitado. Meus colegas físicos certamente terão pontos a corrigir e a acrescentar.

Bom, é claro que os escritores sabem dessas dificuldades (e até impossibilidades) de se realizar viagens interestelares. E eles também sabem que a maioria de seus leitores sabem disso.

Aparentemente, o primeiro escritor a evitar conscientemente este problema foi E. E. Smith, na década de 1920 – provavelmente porque ele também foi o primeiro escritor a fazer muito com o conceito de viagem interestelar, em suas conhecidas séries Lensman e Skylark. Ele resolveu esse problema das viagens interestelares dizendo que as naves  poderiam ser feitas a partir da tecnologia Inertialess Drive. Inércia é um conceito que a gente já conhece da mecânica clássica: a inércia.

A inércia é uma propriedade geral da matéria (e segundo a Relatividade, também da energia). Considere um corpo não submetido à ação de forças ou submetido a um conjunto de forças de resultante nula; nesta condição esse corpo não sofre variação de velocidade. Isto significa que, se está parado, permanece parado, e se está em movimento, permanece em movimento em linha reta e a sua velocidade se mantém constante. Tal princípio, formulado pela primeira vez por Galileu e, posteriormente, confirmado por Newton, é conhecido como primeiro princípio da Dinâmica (1ª lei de Newton) ou princípio da Inércia.{x}

Para que um corpo fique “sem inércia” (ou inertialess), em princípio, sua massa deve ser reduzida a zero. Na relatividade clássica e na relatividade geral, os corpos sem massa são obrigados a se mover sempre exatamente à velocidade da luz  (a velocidade dos fótons no vácuo). O já mencionado autor E. E. Smith explorou esse tema, que foi depois empregado por outros autores (como Robert A. Heinlein e Alastair Reynolds). Os autores seguintes acabaram tentando dissecar mais sobre como essa condição se ausência de inércia poderia ser obtida

Escritores posteriores procuraram evitar estes e outros problemas com a Física. Então buscaram soluções como o hiperespaço, que é um espaço com mais de 3 dimensões espaciais. O conceito de hiperspaço é explicado de maneira muito simples pelo renomado físico Kip Thorne, no vídeo abaixo:

Após falar do conceito hiperespaço, vou falar da dobra espacial. Esse foi o recurso utilizado por Roddenbery e seus roteiristas ao pensarem em Star Trek. No universo ficcional de Star Trek, a dobra espacial é uma forma de propulsão mais rápida que a luz.Geralmente, ela é representada como sendo capaz de impulsionar uma espaçonave ou outros objetos a muitos múltiplos da velocidade da luz, ao mesmo tempo que evita os problemas associados a dilatação do tempo {x}.

Observem que apesar de as naves poderem viajar mais rápido que a luz em Star Trek, o tempo de viagem ainda continua longo. Em Star Tre: DS9 lembro de alguns episódios em que falam sobre tempo de viagem. Para alguns lugares dentro do próprio quadrante alfa, a viagem pode demorar semanas. E lembrando do exemplo óbvio de Star Trek: VOY, em que a Capitã Janeway pode demorar 70 anos para retornar para casa!

A teoria de viagem através de dobra espacial baseia-se no conceito acima e na Teoria da Relatividade de Albert Einstein, a qual afirma que as grandes massas de gravidade aglomeradas criariam fendas no espaço-tempo, que concentrariam não só massa e energia, mas o próprio tempo junto. Essas curvaturas seriam imperceptíveis aos nossos olhos, assim como a curvatura da Terra é para quem está nela. Essa teoria também sugere um universo multidimensional, com pelo menos 3 dimensões de espaço e 1 de tempo. Baseando-se nisso, a Teoria da Dobra Espacial sugere que aplicação de certa força poderia criar uma “ponte” entre duas partes dessa fenda por uma “quarta dimensão” e, assim, “dobraria” o espaço.

Para executar a dobra espacial, um propulsor de dobra criaria uma espécie de funil, estreito à sua frente e largo à suas costas, e logo depois dilataria sua frente, comprimindo suas costas, pelo qual passaria a espaçonave envolta em sua bolha de dobra. Quando a nave adentrasse na dobra espacial (Buraco de Minhoca), ela seria automaticamente impulsionada pela dobra espacial e atravessaria quase que automaticamente para o outro lado do buraco de minhoca {x}.

O conceito da dobra espacial como meio de propulsão tem sido tema de discussão teórica entre alguns físicos. O mais conhecido deles é Miguel Alcubierre, frequentemente mencionado em fóruns de trekkers. Atualmente, o Dr. Harold “Sonny” White, chefe do Tema de Propulsão Avançada do Engineering Directorate da NASA, tem pesquisado esse tema.

Dessa maneira, hiperspaço e dobra espacial seriam maneiras de viajar mais rápido do que a luz. No entanto, isso não é tão simples assim, principalmente pelas razões envolvendo fontes de energia, que já foram mencionadas anteriormente.

Fontes: