La Niña x El Niño

Figura 1 – Anomalia na altura da superfície do mar (em mm) no dia 18 de janeiro de 2016 (esquerda) e no dia 4 de novembro de 2016 (direita). Fonte: EO-NASA

 

Anomalia na altura da superfície do mar e El Niño

Antes de falar sobre a figura acima, acho importante a gente relacionar temperatura da superfície do mar e altura da superfície do mar.

Um dos indicativos para a presença do El Niño é o fato de as águas da superfície do Oceano Pacífico na costa da América do Sul estarem com temperatura acima da média. Existe uma variável, usada por meteorologistas e oceanógrafos, chamada temperatura da superfície do mar ou sea surface temperature (SST). É possível que vocês já viram mapas e esquemas que ilustram o fenômeno El Niño nos quais essa variável é apresentada.

O El Niño talvez seja o exemplo mais conhecido do impacto que a mudança da temperatura da superfície do mar tem sobre o nosso clima. A cada três a sete anos, este aquecimento das águas oceânicas superficiais no Pacífico tropical oriental traz secas de inverno e incêndios florestais mortais na América Central, na Indonésia, na Austrália e no Sudeste da África, e tempestade devastadoras no Equador e no Peru. O El Niño afeta milhares de pessoas em todo o mundo, além dos bilhões de dólares em impacto econômico. A irmã de El Niño, “La Niña”, ocorre com menor freqüência e tem o efeito oposto – o resfriamento das águas oceânicas superficiais.

Como bem destacou o Rodrigo nesse guestpost, o nome completo do fenômeno El Niño é El Niño Oscilação Sul (ENSO) e corresponde a um fenômeno que se desenvolve simultaneamente no oceano Pacífico e na atmosfera da mesma região. Também já falamos sobre esse evento nesse outro post, que fala dos impactos do fenômeno pelo mundo.

Mas a mudança de padrões na temperatura da superfície do mar tem implicações mais amplas do que apenas os ciclos de El Niño e La Niña. As mudanças na SST são o indicador mais importante de mudança climática. O calor é um dos principais motores do clima global, e o oceano é um enorme reservatório de calor. Os primeiros 2m de profundidade do oceano (contando da superfície em direção ao fundo do mar) tem o potencial para armazenar a mesma quantidade de calor contida em toda a atmosfera. O oceano tem uma capacidade elevada de armazenamento de calor e como as correntes de oceano movem quantidades tremendas de água sobre distâncias vastas, o calor armazenado no oceano é transportado por todo o planeta. Esse transporte de calor tem um papel super importante no clima, tanto em escala local quanto em escala global. Um exemplo simples disso e muito repetido aqui no blog é a diferença entre os climas de Lisboa e Nova York, por exemplo (veja aqui).

É por esta razão que os oceanos são chamados de “memória” do sistema climático da Terra. O monitoramento da temperatura da superfície do mar como uma variável durante longos períodos de tempo, bem como operacionalmente, é crítico para o desenvolvimento de modelos climáticos e previsões meteorológicas cada vez melhores.

Os dados da altura da superfície do mar também podem fornecer pistas para estudar a temperatura do oceano. A água morna expande, aumentando a altura da superfície do mar. Inversamente, a água fria se contrai e reduz a altura da superfície do mar. Assim, as medidas da altura da superfície do mar podem fornecer informações sobre o conteúdo de calor do oceano. A altura pode dizer-nos quanto calor é armazenado na coluna de água do oceano abaixo de sua superfície.

El Niño forte e La Niña fraca

Agora podemos falar da Figura 1, que abre esse post.

Há um ano, as partes central e oriental do Oceano Pacífico tropical estavam bem quentes e como resultados tivemos um El Niño forte. Foi considerado o segundo mais forte desde 1966 e recebeu basante destaque da imprensa (veja aqui, por exemplo). As águas do Pacífico Oriental ficaram quentes e como consequência, tivemos uma anomalia positiva na altura da superfície do mar (veja na Figura 1, lado esquerdo).

Um ano mais tarde, estamos com um episódio de La Niña mais “fraca” (Figura 1, lado direito) e segundo os especialistas, ela não vai ficar por muito tempo.

Enquanto El Niño enfraquece os ventos alísios de leste e empurra água quente do Pacífico ocidental para as Américas, a La Niña puxa água fria das profundezas do Pacífico Oriental, fortalece os alísios de leste e empurra a água quente de volta em direção à Ásia. As regiões que muitas vezes ficam encharcadas com chuva e neve durante o El Niño, podem ficar secas durante os eventos de La Niña e vice-versa. Para termos uma ideia do que é uma La Niña “fraca”, veja a Figura 2:

Figura 2 – Anomalia na altura da superfície do mar (em mm) no dia 30 de dezembro 1998 (esquerda) e no dia 28 de dezembro de 2016 (direita), representando uma La Ninã forte (direita) e uma La Niña Fraca (esquerda) Fonte: EO-NASA

Tanto a Figura 1 quanto a Figura 2 foram obtidas a partir de dados das seguintes missões: TOPEX/Poseidon, que foi substituída pelas missões Jason-2 e Jason-3. Leia mais aqui. Os mapas foram obtidos no site do Earth Observatory, da NASA (dessa postagem) e algumas informações técnicas foram obtidas no Science Beta, da NASA.

A La Niña ‘forte’ de 1998 ocorreu depois de um El Niño também ‘forte’, um dos mais estudados pelos climatologistas (o famoso El Niño 1997/1998). A La Niña ‘fraca’ que estamos encontrando agora na atmosfera mostra que um El Niño ‘forte’ não é garantia de ser seguido por uma La Niña ‘forte’. Não há um padrão e cada episódio de El Niño e La Niña tem suas próprias peculiaridades, como destacou o  climatologista Mike McPhaden da NOAA para o Earth Obseavtory.