O consumismo e a infância



Quem nasceu nos anos 1980, como eu, lembra-se das propagandas de brinquedos e outros produtos voltados para crianças nos comerciais das atrações infantis. Eu lembro da Xuxa degustando um Danoninho durante o programa e sugerindo para que o telespectador mirim fosse até a geladeira de sua casa e pegasse um também. Claro, o produto não estava presente em todas as geladeiras brasileiras. E naquele tempo, era muito mais difícil comprar as coisas. Eu até falei um pouco sobre esses aspectos de minha infância nesse post.

Meus pais não tinham nenhum receio ou medo de me falar NÃO. No supermercado, ouvir não era rotina. Nunca ganhamos brinquedos “caros”, com exceção do video-game (eu tive apenas um Master System, porém meu pai já tinha um Atari e um Telejogo antes de eu nascer, ele sempre gostou de jogos como entretenimento). Em meados dos anos 1990, meu pai também comprou um computador, mas não como um brinquedo. Lembro que foi bem caro e objetivo dele era que pudéssemos ter acesso a enciclopédias via CD, para que pudéssemos fazer nossos trabalhos escolares e para que futuramente, pudesse “instalar a internet”.

Eu ouvia tanto NÃO que com o passar dos anos, eu deixei de pedir algumas coisas. Eu já previa um NÃO. Meu cérebro aprendeu a operar dentro dos parâmetros que nos foram impostos.

Se eu tenho trauma disso? De maneira alguma. Os NÃO que ouvi me ajudaram a encarar o mundo de maneira mais realista e me ajudaram a compreender que bens materiais não são tudo nessa vida. Claro que é gostoso comprar algo novo ou ter acesso a um bem material bacana. Mas eu aprendi que devo comprar para usufruir e não para acumular. Eu devo muito aos meus pais.

Não sei se eles descobriram a fórmula certa para criar filhos. Até porque eu acredito em “fórmulas certas”, há diversas maneiras de criar os filhos e isso depende de cada cultura familiar. Mas eu acredito que em todas as “fórmulas certas” há ingredientes em comum. O amor e a imposição de limites claros são alguns desses ingredientes.

A propaganda voltada para criança mudou muito nos últimos 30 anos. Hoje há mais cuidado e a própria publicidade se autorregula através do CONAR. Aparentemente, as pessoas também ficaram mais conscientes. Entretanto, apesar de tudo isso, a publicidade ainda mira as crianças e chega até elas de maneira direta, muitas vezes sem que os pais possam perceber. E eu tenho observado vários pais se endividando, porque não conseguem dizer NÃO para as crianças.

Vejam, não sou dona da verdade. Mas acredito que posso contribuir sim com minhas opiniões, da mesma maneira que aprendo demais com textos e vídeos que vejo por aí.

Ainda sobre o consumismo infantil, recomendo esse documentário.

O Youtube: cuidado! 

Eu estava conversando com um colega que tem uma filhinha de uns 5 anos. Ele me contou que teve que comprar um tablet, pois a menina não saia do celular da mãe. No tablet, a garotinha fica vendo vídeos de outras crianças que tem canais onde mostram brinquedos caríssimos.

Em outras palavras, mesmo que você controle a TV (lá em casa, por exemplo, só assistimos Netflix e então não há propagandas), a internet é uma ferramenta que sabemos que é um potente meio de nos apresentar produtos. Nós, adultos, caímos nas armadilhas da publicidade pela internet diariamente.

Não entregue seu gadget caro para que seu filho fique com ele a vontade, sem regras ou sem critério. Eu já falei minha opinião sobre isso no Instagram (veja aqui). Se o seu filho é muito pequeno, sugiro inclusive que você baixe os vídeos e os aplicativos e remova o acesso a internet. E claro, deixe estipulado um tempo limite para o uso do equipamento. Outro dia deixei meu filho “a vontade” no youtube e quando notei, ele estava vendo vídeos de uma garotinha de uns 6 anos que fazia vídeos mostrando brinquedos caríssimos! Ele tem apenas 18 meses, mas é importante deixar os limites bastante claros. Outra coisa que procuro fazer é dar o exemplo. Eu evito ficar pendurada no celular na frente dele. Isso faz bem para mim e para o meu relacionamento com ele.

Por isso, cuidado com o Youtube. Felizmente o serviço impede que vídeos com conteúdo impróprio (pornografia, por exemplo), mas isso não é garantia de vídeos bons. Tem youtubers teens que não ensinam nada que agrega, tem muita incitação ao consumismo e muita coisa veiculada que talvez não tenha a ver com o projeto de vida que você pretende para o seu filho ou filha.

Eu “tive que comprar” e o NÃO

Esse mesmo colega que mencionei anteriormente disse que teve que comprar uma boneca Baby Alive para sua filha. Meu colega tem um orçamento modesto, é de classe média. E teve que parcelar a boneca em 5x. Não tenho nada a ver com o projeto de educação que ele pretende para sua filha, não tenho nada a ver com seu orçamento doméstico e nem pretendo julgá-lo. Mas eu vou falar o que eu faria no lugar dele. Eu não compraria a boneca. E fim.

Meu pai era assim quando eu era criança. Ele dizia que não ia comprar porque não tinha dinheiro. Porque a quantia X poderia ser um valor irrisório para outra família, mas para nossa família era um dinheiro que faria falta. Até hoje meu pai é assim, direto e reto. Ele dizia que nós não tínhamos dinheiro para aquilo e meu irmão e eu aceitávamos aquela resposta. O não era recorrente. Ele não deixava eu ir naquela festa daquela pessoa cuja família ele não conhecia. Ele não deixava eu ir no show ou na balada. Simplesmente, não.

Quando somos crianças e adolescentes, a gente não consegue entender as coisas e precisa sim de alguém para direcionar nossos caminhos. Eu não entendia que a compra de um brinquedo caro iria comprometer o orçamento familiar e iria impossibilitar uma viagem para a praia nas férias. Eu precisava que meu pai e minha mãe me explicassem isso, eu precisava que eles me encaminhassem. Eu também não compreendia que aquela balada XYZ não era um local adequado para uma adolescente de 17 anos frequentar, não compreendia que aquilo era contrário ao projeto de vida que eles pensaram para mim. Por isso eu precisava deles para me dizer NÃO, diretamente, com clareza e sem rodeio

Escolha outra coisa porque isso não é possível.

Não, você não vai.

E a gente nem questionava. Talvez no início questionássemos, mas aprendemos que ISSO ERA INEGOCIÁVEL.

Acho que como resultado dessa postura aprendi que o NÃO é sempre uma resposta possível, independentemente da situação. Cresci sem achar que o mundo deve moldar-se as minhas expectativas. Cresci aprendendo a controlar meu orçamento e priorizar meus gastos.

Seu filho toma a Vitamina N? Pois deve tomar:


Dica final (que tem um pouco de relação com o que abordei aqui)

Se você planeja uma festa de aniversário para o seu filho,  recomendo refletir sobre esses pontos. Mesmo que você não seja cristão, mas se você repudia esse consumismo desenfreado que vivemos, com certeza vai concordar com diversos pontos do texto.