Arte e Meteorologia: Os gênios da lâmpada e os dust devils



Gênios (ou jinna, em árabe) sempre fizeram parte do imaginário. Mil e Uma Noites e a história de Alladin e a Lâmpada Mágica são muito populares no Ocidente. O que eles tem a ver com meteorologia? Vamos falar de arte e dust devils. Cortesia de Shutterstock

Na mitologia árabe pré-islâmica, um gênio (jinn, em árabe) é uma entidade sobrenatural, que pode ser boa ou ruim. O mundo ocidental teve acesso  a obra As Mil e Uma Noites através de uma tradução francesa, que posteriormente foi base para outras traduções. Na obra, gênios são mencionados em diversas ocasiões. Lembro de uma passagem em particular onde um homem está comendo frutas na beira de um rio e joga os caroços na água, displicentemente. Um desses caroços atinge o filho de um gênio (que consequentemente é gênio também), que acaba morrendo e o pai fica furioso.

Há outra história ainda mais conhecida d’As Mil e Uma Noites, que é quando um pescador encontra uma lâmpada. Vou reproduzir abaixo essa história:

Havia uma vez um pescador muito velho e muito pobre que vivia com sua mulher e seus três filhos. Todos os dias, ele jogava sua rede no mar apenas quatro vezes e sempre conseguia colher alguns peixes para o seu sustento.

Mas houve um dia em que ele jogou a rede por três vezes, sempre clamando o nome de Deus, e das três vezes só conseguiu retirar das águas um burro morto, um pote velho e algumas garrafas. Na quarta vez em que jogou sua rede, sentiu que ela tinha ficado presa no fundo. Com dificuldade, conseguiu retirar a rede e viu que ela trazia uma garrafa de boca larga, de cobre dourado e que estava fechada com chumbo e trazia o selo do grande rei Salomão.

O pescador se alegrou, pois pensou que poderia vender a garrafa por um bom preço. Mas, sentindo que ela estava muito pesada, resolveu abri-la para ver o que continha.

Com sua faca forçou o chumbo, virou a garrafa para baixo e agitou-a para ver o que ia sair. Mas não saiu nada. O pescador colocou-a na areia e então começou a sair de dentro dela uma fumaça, que foi se avolumando até chegar às nuvens e foi tomando a forma de um gigante, que o pescador percebeu logo que era um gênio.

Morto de medo, ele começou a tremer.

E tinha razão para ter medo, porque o gênio saudou-o e disse:

– Alegra-te, pescador, que vais morrer e podes escolher de que maneira!

O pescador, apavorado, tentou acalmar o gênio:

– Mas por que queres me matar, se fui eu que te tirei do fundo do mar, fui eu que te tirei de dentro desta garrafa onde estavas preso?

O gênio então contou ao pescador a sua história.

Há mil e oitocentos anos, no tempo do rei Salomão, ele, o gênio, se havia revoltado contra o rei e, como castigo, havia sido preso nesta garrafa e atirado no fundo do mar.

Durante cem anos, ele havia jurado que faria rico para sempre aquele que o libertasse.

Cem anos se passaram e o gênio permaneceu na garrafa.

Durante mais cem anos o gênio jurou:

– Darei a quem me libertar todos os tesouros da terra

Cem anos se passaram e o gênio continuou prisioneiro da garrafa.

Encolerizado, ele tornou a jurar:

– Agora, se for libertado, matarei aquele que me soltar e deixarei que ele escolha como quer morrer.

O pescador implorou de todas as formas que o gênio o perdoasse, pois, dizia ele, “desta maneira, encontrarás quem te perdoe”.

Mas o gênio não se deixou comover.

Aí o pescador teve uma ideia:

– Já que eu vou morrer mesmo, quero que me respondas a uma pergunta. Como é possível que estivesses dentro da garrafa, sendo tão grande como és? Não posso acreditar nisso, a não ser que veja com meus próprios olhos.

O gênio, desafiado, converteu-se novamente em fumaça e pouco a pouco foi entrando na garrafa. Quando o pescador viu que ele estava inteirinho lá dentro, mais do que depressa fechou a garrafa com o selo. E disse ao gênio:

– Vou jogar-te de volta ao mar e vou construir uma casa aqui. Toda vez que alguém vier pescar, vou avisá-lo para que não te liberte. Desta maneira, enquanto eu for vivo, não sairás de dentro desta garrafa.

O gênio então lamentou-se e implorou ao pescador que o perdoasse. Mas o pescador respondeu:

– Eu também te pedi que me perdoasses, que alguém te perdoaria. Mas assim mesmo quiseste me matar.

O gênio jurou que não lhe faria mal e que lhe daria meios para que vivesse com fartura o resto de seus dias, se o deixasse sair. O pescador se convenceu e libertou o gênio, que lhe mostrou uma lagoa rica de grandes peixes, onde o pescador pôde pescar o resto de sua vida.

Ruth Rocha. Histórias das mil e uma noites. FTD.

Eu diria que essa é a maior referência de gênio e lâmpada. Foi a partir dessa história que diversas representações artísticas de gênios surgiram: quase todas as representações foram inspiradas nessa história. Quando a gente vê o gênio e a lâmpada em desenhos animados (no Pica Pau, por exemplo), em filmes, séries, etc, pode ter certeza que a inspiração veio desse conto de As Mil e Uma Noites.

Os relatos originais sobre a aparição de gênios sempre envolviam a presença de “fumaça que sobe até as nuvens” ou um redemoinho de poeira. Bom, vamos nos colocar no lugar das pessoas que vivem em regiões secas e quentes dos desertos, onde dust devils são comuns. Dust devils são “demônios de poeira” ou redemoinhos são pequenos vórtices de poeira, que tem um diâmetro de aproximadamente 3 a 92 metros e altura de aproximadamente 152 a 305 metros. Em inglês, também são conhecidos como dustnados, pela semelhança com os tornados e por levantarem dust (poeira).

Em nosso folclore, os redemoinhos estão relacionados com a presença do Saci Pererê. Para mais informações sobre dust devils e sua relação com folclores diversos, recomendo muito o post do Vinícius, do Monolito Nimbus. E de antemão, já quero agradecê-lo por me inspirar a fazer esse post. Ele sabe que gosto muito de arte, principalmente arte e meteorologia e foi ele quem me apresentou esse texto, que serviu como inspiração para minha pesquisa para este post.

Ilustração de Will e Frances Brundage (1893), casal de ilustradores norte-americanos

Na ilustração acima, o gênio parece muito com um anjo e não parece muito com as descrições de gênios que lemos em As Mil e Uma Noites, por exemplo. É um retrato do encontro do pescador com o gênio, conto que reproduzi anteriormente.

Embora lembre um anjo, o gênio tem um olhar “maligno”, olhos meio avermelhados e o pescador parece atordoado. Com os braços abertos, é como se ele tivesse acabado de soltar a lâmpada pois tomou um susto enorme. Como se a lâmpada tivesse dando choque.

Uma curiosidade sobre os autores da ilustração, é que Frances Brundage (nome de solteira: Lockwood) fazia ilustrações de cartões de Natal e calendários. Em suas ilustrações, frequentemente apareciam crianças fofinhas. Se você colecionou papel de carta, é muito provável que tenha reproduções de Frances Brundage ou de obras inspiradas no trabalho dela.

Ilustração de René Bull (1912). O ilustrador se destaca por diversos trabalho, incluindo ter ilustrado uma edição de As Mil e Uma Noites.

De acordo com o desenhista e ilustrador Scott M. McDaniel, essa ilustração do gênio tem um forte aspecto racista. O estilo em que Bull desenhou o gênio usa a linguagem visual da época, particularmente caricaturas de pessoas de ascendência africana. Em alguns desenhos animados antigos, a gente observa a mesma linguagem visual.

O foco dessa imagem é o gênio e a frase que acompanha o quadro é: “Ah! Respondeu o pescador, por que você me mataria? “Aqui o pescador está claramente implorando por sua vida, ou pelo menos tentando prevenir o inevitável. Ou seja, bem de acordo com a narrativa.

Vemos primeiro o gênio, mas depois seguimos seu olhar até o pescador. Observando as rochas atrás, que parecem mais distantes, podemos perceber que o gênio está mais próximo, num primeiro plano. Em outras palavras, o gênio é realmente gigantesco e tem esses olhos perturbadores.

Outra coisa a se notar é a nuvem de fumaça/poeira que sobe até o céu, exatamente como na narrativa.

 

Edmund Dulac, 1907

Dulac é conhecido por ter ilustrado as primeiras edições dos livros das irmãs Brontë. Em sua retratação do gênio, podemos ver também a coluna de fumaça/poeira do chão até o céu, exatamente como na narrativa. O gênio também é enorme e tem um aspecto assustador. O rosto do pescador nem é observado. Ele esconde o rosto com o braço, típica postura de quem tem medo.

Outras ilustrações de gênios, focando nessa cena do pescador encontrando o gênio, podem ser encontradas aqui. Observe que todas as ilustrações do link e as ilustrações que destaquei aqui são trabalhos de ilustradores ocidentais. Ou seja, acabam de alguma maneira retratando estereótipos ou se misturando com nossa própria mitologia e com nossas próprias crenças.  Se observarmos ilustrações árabes, otomanas ou persas, vemos que os gênios tem uma cara completamente diferente:

Ilustração otomana do século XVIII, na qual gênios são responsabilizados por dores de dente.
Gênio, pelo mestre otomano Mehmed Siyah Kalem (entre o século XV e século XVI). O gênio tem uma cara animalesca.

Para outros exemplos de gênios retratados por artistas do oriente médio, veja aqui.

Observo que boa parte dos trabalhos artísticos do Oriente Médio envolvendo gênios foram “traduzidos” usando elementos da cultura ocidental. Então onde havia um gênio, para um ocidental que traduziu a obra há na verdade um dragão ou um demônio, quando gênios na verdade não são como os demônios que conhecemos da cultura cristã. Os gênios não são completamente maus ou completamente bons, na verdade eles tem essas características misturadas, como os humanos.

Confira o post do Vinícius em que ele fala sobre gênios, sacis e redemoinhos. O post dele está excelente e tem tudo a ver com o que falamos ao longo do texto. Aproveito para agradecer ao Vinícius por esse presente de inspiração, pois foi através dele que tive a ideia de escrever esse post.

Fazendo uma relação com o post de ontem, em que falo sobre incêndios florestais, sabiam que existe o redemoinho de fogo? Em inglês, o termo é fire whirlAqui no Meteorópole, já falei desse fenômeno em duas ocasiões: registro do fenômeno na Austrália e registro do fenômeno em Araçatuba.

Podem ocorrer redemoinhos de fogo quando o calor intenso do incêndio e condições de vento turbulento se combinam para formar turbilhões de ar. Esses redemoinhos podem se contrair em uma estrutura parecida a de um tornado, que suga e queima  detritos que encontra pela frente. Pode até alimentar ainda mais o incêndio, se sugar material combustível. Cortesia de Shutterstock