Novamente a fundação esotérico-científica está na mídia: as pessoas e seus delírios



Ciência e fé: se cada uma ficar em seu lugar, é possível desenvolver uma espiritualidade de maneira positiva e buscar uma compreensão do Universo. Fonte: Shutterstock

Novamente aquela fundação esotérico-científica está em alta, sendo mencionada em alguns portais de notícia. O motivo? Supostamente, há uma nova parceria entre essa fundação e a Prefeitura de São Paulo.

Para quem não é meteorologista e não está por dentro do que está acontecendo, preciso primeiro fazer um breve ‘dossiê’ da tal fundação esotérico-científica. Vou tentar poupar links para o site da fundação e vou ao máximo evitar mencionar nomes. Os nomes em questão aparecerão em prints. Não quero ser responsável por encontrarem certos materiais em mecanismos de busca a partir de meu bloguinho lindo.

Então vamos começar.

A Fundação Cacique Cobra Coral (FCCC)

Eu já mencionei essa fundação em outros posts e talvez o mais completo seja esse. No post, destaco como a organização do Rock ‘n’ Rio de 2015 contratou a FCCC para evitar que chovesse durante o evento. Isso mesmo que vocês leram: evitar que chovesse. E não há nenhum tipo de tecnologia que evite a ocorrência de chuva em um lugar. Quer dizer, a não ser que você fizer esse evento em um local fechado.

Parem tudo, acabei de desenvolver uma nova tecnologia! 

E a não ser que contratassem a linda Ororo Munroe:

Sem mais zé-gracisses, o que seria a FCCC? Copiando as informações do próprio site:

A Fundação Cacique Cobra Coral foi criada para intervir nos desequilíbrios provocados pelo homem na natureza. Fundada por Ângelo Scritori e tendo a frente sua filha Adelaide Scritori também médium que incorpora o espírito e mentor Cacique Cobra Coral que também já teria sido de Galileu Galilei e Abraham Lincoln. Ângelo Scritori, morreu aos 104 anos, no ano de 2002.

 

Esse tal cacique pode desviar frentes frias, evitar chuvas e minimizar as catástrofes ocasionadas pelo desequilíbrio que o homem provoca na natureza, conforme é afirmado no próprio site. Bom, pelo menos eles parecem compreender as causas antropogênicas das mudanças climáticas, rs.

Ainda no site, eles se gabam dos convênios firmados com diversas prefeituras de municípios brasileiros. Esses convênios, segundo eles afirmam, são gratuitos. Entretanto, há uma área de doações no site. E quando a gente se envolve com política, sempre é possível uma troca de influências e favores. Não estou dizendo que é o que acontece nesse caso (até porque eu não sei), mas sabemos que tais trocas são comuns no meio político.

FCCC na mídia e o debate ciência x fé

Recentemente, a FCCC re-apareceu pois teria firmado um convênio com a Prefeitura de São Paulo. Na notícia, constam pérolas como essa:

São Paulo vai exigir mais esforço e empenho pessoal do cacique. É muito mais difícil atuar para dispersar as chuvas por ser uma cidade mais plana. No Rio, o relevo ajuda, pois tem como desviar as nuvens para regiões montanhosas ou o mar. O objetivo será atuar para que as precipitações que acabam provocando enchentes na capital paulista se concentrem no Vale do Paraíba, junto à Serra da Cantareira, para permitir um aumento do volume de água nos reservatórios que atendem Rio e São Paulo. A situação nesses reservatórios melhorou este ano após a estiagem de 2014/2015, mas ainda não voltou aos níveis antigos— disse o porta-voz da Fundação Cacique Cobra Coral, Osmar Santos.

E claro que isso é pura pseudociência. Quando você contrata uma consultoria séria de um meteorologista, ele vai explicar a metodologia utilizada. Talvez explique em linhas gerais, mas as ferramentas disponíveis estão bem documentadas e publicadas em artigos acadêmicos. Os meteorologistas trabalham todos mais ou menos da mesma maneira, seguindo todo o conhecimento técnico que aprenderam na academia e claro, também vão utilizar a experiência adquirida ao longo dos anos de exercício da profissão.

Num dado momento da notícia que destaco acima, é ainda dito que  a ajuda espiritual se dá também com o apoio da tecnologia. Ora gente, assim fica fácil afirmar que a ajuda espiritual funciona.

Quem não tem familiaridade com o que estou apresentando e não compreende do que estou falando, seria a mesma coisa que procurar um pajé ou um curandeiro para tratar um grave problema de saúde.

Alguns dirão “ah, mas que mal tem procurar um pajé para ajudar no tratamento, fulano está desenganado”. Ok, mas e o desperdício de tempo? Sem contar que certas substâncias (mesmo que forem chás e plantas!) não tem uma documentação científica, descrevendo como elas agem no corpo humano. Os remédios e o tratamento prescritos pelo médico passaram por testes diversos, foram publicados, os experimentos foram reproduzidos por diversas equipes, etc. Apenas após uma série de procedimentos detalhados e liberações é que o remédio chega até o paciente.

A fé é importante no tratamento de uma doença, acredito que ela ajuda no estado de espírito do paciente. Se ele se  torna mais “otimista” ou mais receptivo ao tratamento médico, a fé torna-se uma importante aliada. Mas evidentemente não é sábio abandonar o tratamento médico convencional e lidar apenas com a fé. Ou seja, o próprio “cacique” conta com a ajuda da meteorologia. Inclusive há pelo menos um meteorologista renomado que atua como consultor da FCCC.  Vou postar um print que tirei do site, onde o trabalho para o Rock ‘n’ Rio de 2011 é mencionado (eu achava que o cacique tinha trabalhado apenas na edição de 2015 do festival):

Aqui você vê um nome importante da Meteorologia, um famoso meteorologista que foi até professor de uma renomada Universidade. Ele deu aulas de Meteorologia Sinótica, uma importante disciplina para quem pretende trabalhar com previsão do tempo operacional.  Observe que na análise dele (no print do site, que destaco acima), ele usa uma descrição científica adequada até um certo ponto do texto. Lá pelo final do texto, ele começa a falar que “inexplicavelmente” a frente fria deteve-se. No final desse texto, ele escreve:

Em conclusão, podemos afirmar que verificou-se no Rio de Janeiro no período considerado, uma situação meteorológica fenomenal e “inexplicável”, que do ponto de vista técnico merece registro especial, pois contraria todas as previsões, e mesmo a lógica da natureza, visto que se a frente fria tivesse se deslocado como esperado, chuvas fortes teriam começado  já durante a tarde do dia, muito antes do ocorrido. Na verdade, na nossa vivência, constitui-se este num dos casos mais evidentes da eficácia das intervenções de forças “espirituais” sobre os fenômenos atmosféricos, ainda que desconheçamos sua Explicação cientifica.

Pessoal, pensem no absurdo dessa frase em um relatório científico. Até destaquei no meu perfil do Facebook que como cristã, seria a mesma coisa que o seguinte diálogo ocorresse em meu trabalho:

– Sra Samantha, você poderia me dizer se há chances de chover em Janeiro? Minha filha vai casar e eu gostaria de saber.
– Minha amada, ore a Deus! Ele vai ser misericordioso e vai impedir chuvas no dia do casamento de sua filha. Receba.

No meu íntimo, posso até me simpatizar pela situação dos outros e fazer uma oração, pedindo que Deus interceda a favor do casamento da filha. No meu dia a dia profissional, devo usar aquilo que é prático e funciona mesmo se a pessoa não tiver a mesma fé que eu. Em outras palavras, devo apresentar o conhecimento científico.

Não é necessário ser ateísta para ser cientista, como ouço muitos cientistas dizerem. A ciência não é ateísta, como observo muitos religiosos afirmarem. Religião e ciência tem competências diferentes, apenas isso.

Ainda sobre esse ex-professor de uma renomada Universidade que faz essa consultoria para a FCCC, deixo abaixo uma reportagem de um jornal de 1990 que digitalizei:

O próprio chefe do departamento onde esse professor trabalhava ressalta que ele deveria fazer uma análise científica. Sinceramente? O chefe do departamento foi bem suave, digamos assim. Eu acredito que ele deveria ter agido com mais firmeza (firmeza, não grosseria!) para aproveitar a oportunidade e falar do absurdo que é misturar ciência e fé/religião. E fazer com que o jornalista responsável pela elaboração da matéria deixasse isso bem claro. Mas sabemos como a tal politicagem funciona inclusive no meio acadêmico. As pessoas muitas vezes ficam com receio de se posicionarem de maneira firme, pois sabem que podem precisar daqueles que elas estão criticando no momento.  Além disso, a gente também precisa levar em consideração que isso era um texto de um jornal impresso, com limite de caracteres e foi escrita por um profissional que talvez não compreendesse a importância de defendermos o conhecimento científico.

Situações incomuns ou inexplicáveis surgem quando observamos a natureza. A atmosfera, com sua natureza caótica, nos presenteia com fenômenos que frequentemente temos dificuldades para explicar. Isso não significa que eles tenham uma explicação sobrenatural. Na verdade, significa que elas tem uma explicação que os cientistas desconhecem naquele momento.

No caso específico da meteorologia, toda vez que acontece um fenômeno incomum (por exemplo, o Furacão Catarina), os pesquisadores precisam analisar os dados disponíveis, gerar simulações computacionais e analisá-las, analisar a área de ocorrência do fenômeno, etc. Dessa maneira, poderão chegar a algumas conclusões e compreender como o fenômeno pode ter acontecido. Podem inclusive comparar o fenômeno em questão com outros casos já documentados.

Vejam, no íntimo de cada um, podemos dar interpretações espirituais aos fenômenos. Pessoalmente, eu tenho uma opinião muito semelhante a de Mayim Bialik, que ela declara no vídeo abaixo:

Eu vejo Deus na explicação do fenômeno, vejo Deus nas equações, vejo Deus nas maravilhas incríveis da natureza que testemunho diariamente. Eu não devo escrever isso em um relatório técnico porque essa é minha interpretação pessoal.

Acredito sim que Deus é misericordioso e poderoso. Mas o que penso a respeito disso é da minha conta e não pode interferir no meu trabalho. No meu íntimo, eu até posso orar a Deus e pedir para ajudar alguém, interceder. Mas no meu dia a dia profissional, devo usar aquilo que é prático e funciona mesmo se a pessoa não tiver a mesma fé que eu. Em outras palavras, devo apresentar o conhecimento científico.

Os relatórios técnicos, por outro lado, valem para qualquer pessoa, independentemente da opinião pessoal sobre religião. É por essa razão que na minha opinião, a ciência tem um papel de união entre os povos. É uma linguagem universal. A curiosidade já nasce com a gente, é manifestada ainda quando somo muito pequenos. Essa curiosidade é comum a todas as crianças, de todos os povos e culturas e ela dá origem ao conhecimento científico.

Sendo assim, se soubermos colocar cada coisa em seu devido lugar (me refiro a fé e ciência), todos saem ganhando. A ciência prospera, as pessoas que assim desejarem experimentam um crescimento espiritual e as pessoas conseguem conviver de maneira harmoniosa e mais tolerante.

Resultado de minhas colocações na Internet: uma triste constatação 

Como meteorologista, me posicionei mais uma vez contra a FCCC:

Muitos colegas de profissão concordam comigo e foram simpáticos a essa publicação. Muitos inclusive a compartilharam. Muitos escreveram coisas parecidas, como foi o caso da minha amiga e colega de profissão Cátia Braga. O fato chegou a SBMet (Sociedade Brasileira de Meteorologia), que está tomando as providências possíveis. Acredito que essa questão tem sido discutida nos departamentos de Meteorologia das Universidades que contam com esse curso de graduação.

Em outras palavras, muita gente compreendeu, seja do ponto de vista de defesa do profissional ou do ponto de vista de defesa da ciência. No entanto, teve gente que fez disso um conflito político. Você leu direito! Para entender o que aconteceu, você precisa saber que eu deixei a publicação que destaquei acima em aberto (público) no Facebook, justamente para que colegas de profissão que eu não conheço pessoalmente e outras pessoas que me acompanham nas redes sociais e não são minhas amigas pudessem tomar conhecimento desse absurdo contra nossa profissão e contra a ciência.

E quando você deixa uma publicação em aberto, acaba atraindo todo tipo de gente maluca. Ok, talvez você tenha amigos malucos rs. Mas de um modo geral, se as pessoas te conhecem pessoalmente e convivem com você, acredito que elas vão se comportar melhor ao comentarem em suas redes sociais.

Eu vou colocar alguns prints aqui de parte da discussão gerada por minha publicação:

 

 

 

Não, eu não borrei nomes e nem fotografias porque a publicação é aberta para todos [*]. Observem principalmente o trecho em que destaco em roxo. O sujeito identificado pela cor vermelha acredita que criticar a parceria da FCCC com a Prefeitura de São Paulo é uma tramóia estúpida da esquerda!

Lendo toda a discussão você vai perceber que esse sujeito que nem me conhece pessoalmente e nunca tinha comentado nada em minhas redes sociais (portanto, concluo que não sabe nem o que penso sobre política) concluiu por exemplo que:

– Eu não cobrava o ex-prefeito Haddad

– Eu preciso procurar o que fazer (risos)

– Eu não estou vendo as coisas boas que o Doria já fez (gente, o cara não está nem há 2 meses no cargo!)

– Eu desrespeito as crenças do Doria (?)

– Eu sou de esquerda

Felizmente eu notei que meus amigos também viram a opinião do cara como algo absurdo, sem sentido nenhum. Eu só estava defendendo minha categoria profissional e o conhecimento científico! Algumas pessoas não tem a maior noção da importância dessas duas coisas. Esse individuo provavelmente é contra o PT (o que é completamente justificável, diga-se de passagem) e LOGO é contra TUDO RELACIONADO COM A ESQUERDA. Dessa maneira, em sua mente completamente binária, não restou outra alternativa a apoiar loucamente tudo o que faz oposição ao PT e assim, passou a apoiar o PSDB incondicionalmente. INCONDICIONALMENTE. Mesmo que a atual gestão da Prefeitura de São Paulo decida contar com médiuns para evitar desastres naturais.

Para completar a piração, ainda fui acusada de mentirosa em uma publicação da fanpage do blog:

A vontade de defender o político do partido predileto é tão grande que o indivíduo apela para um suposto ceticismo.  Ok, talvez o cara tenha achado essa notícia tão absurda que não quis acreditar e achou que eu caí no golpe da notícia falsa. Infelizmente não é o caso. A triste verdade é que a Prefeitura de São Paulo tem uma parceria com a FCCC, por mais absurdo que isso seja para a mente de pessoas sãs e que compreendem a importância do conhecimento científico.

Estamos falando de prejuízos anuais de milhões de reais. Estamos falando de vidas que são anualmente perdidas devido enchentes e deslizamentos. Estamos falando de problemas sérios de falta de segurança hídrica. Estamos falando da saúde da cidade de São Paulo. Volto aos questionamentos que fiz anteriormente: se você estivesse com uma doença grave, procuraria um pajé ou o mais renomado especialista na área? Por que com a medicina e com questões diversas de saúde essa conclusão é tão fácil de ser obtida e para com outras áreas do conhecimento, o raciocínio parece ser mais difícil?

Deixo esse vídeo do Ceticismo.net para refletirmos: o brasileiro odeia ciência?

As pessoas estão tratando política com mais fervor do que tratam religião. Defendem certos nomes com mais força do que defendem o nome de Jesus. A defesa feita é tão intensa que o sujeito passa por cima de questões lógicas óbvias ou deixa de ouvir pessoas que podem contribuir com aquela área. Virou religião, sem dúvidas!

Qual a diferença entre um bolsominion e um religioso que bate na sua porta as 8h da manhã para dizer que você vai para o inferno? Nenhuma!

Por que isso está acontecendo? Será que as pessoas estão tão desesperadas, estão procurando uma verdade para se ancorar e estão se esquecendo de pensar? Outro dia, a Kerol, do Aqui só tem História publicou esse desenho que nos faz pensar sobre esse mundo da pós verdade em que estamos vivendo.

[*] Mudei de ideia e decidi borrar os nomes. Eu acredito que não faz diferença, mas não quero expor ninguém ou dar vazão para que algum eventual ‘justiceiro de internet’ atue.

UPDATE (21/01/2017) 

Recentemente eu estive conversando com uma prima/amiga que é funcionária pública de área mais “administrativa”, ou seja, ela entende um pouco de contratos. Ela ressaltou algo que eu não mencionei aqui no texto e eu achei extremamente relevante.

Por mais que o convênio com a fundação esotérico-científica seja gratuito para a prefeitura, bom, ele não é exatamente gratuito na verdade.  O que quero dizer? Houve gasto de tempo, gasto de papelada e um (ou mais) funcionário da prefeitura precisou redigir um contrato referente ao convênio. É para se pensar …