O aquecimento global é “coisa da esquerda”?



Aquecimento global, um assunto discutido dentro e fora do ambiente acadêmico. Será que as pessoas estão falando coisas que fazem sentido? Cortesia de Shutterstock

Eu tenho observado por parte de algumas pessoas “da direita” a propagação de uma ideia extremamente equivocada. E qual seria? A ideia de que o aquecimento global seria algo “da esquerda”. Vamos falar sobre esse assunto.

O aquecimento global, de acordo com o Oxford English Dictionary é um aumento gradual na temperatura média da superfície da Terra geralmente atribuído ao efeito estufa causado por níveis aumentados de dióxido de carbono, CFC’s e outros poluentes. De acordo com essa definição, o termo aquecimento global geralmente é utilizado para se referir ao aquecimento global antropogênico.  No entanto, o termo aquecimento global também pode ser utilizado para se referir a aquecimento global natural (causado por mudanças naturais, ou seja, que não tem relação com a ação do homem no ecossistema).

O aquecimento global não é algo novo no planeta. A Terra passou por outros períodos de aquecimento e até de resfriamento. A questão é que antes as causas para o aquecimento eram apenas naturais (mudanças na atividade solar, variações orbitais da Terra, emissão de gases vulcânicos, etc). Entretanto, hoje observa-se que o homem também tem um papel nessas mudanças climáticas, através da mudança de uso do solo, emissão de gases de efeito estufa, etc.

Eu já escrevi alguns textos sobre aquecimento global e mudanças climáticas. E é muito provável que eu venha a escrever mais textos a respeito. Recomendo alguns:

 

Não vou dar mais detalhes técnicos sobre o aquecimento global nesse post pois o objetivo dele é falar sobre essa “disputa” política. Vocês vão entender melhor nos parágrafos seguintes.

Consenso de 97% da comunidade científica

Atualmente há um consenso de 97% da comunidade científica de que o aquecimento global observado no último século tem relação com a atividade humana. Sobre esse ponto, vou apenas linkar esse texto em que explico essa questão do consenso de 97%.

Tá, e aí?

Até aqui entendemos que o aquecimento global antropogênico é um consenso na comunidade científica. Observem: na comunidade científica. Os cientistas publicam suas conclusões em revistas científicas (falei a respeito disso nesse post) e o público em geral (incluindo por exemplo tomadores de decisão e líderes de ONG’s)  vão utilizar essas informações. E aqui, por tomadores de decisão, quero dizer o governantes.

É assim que políticas de vacinação em massa são implantadas. É assim que novos protocolos médicos para o tratamento de doenças são implantados. Foi assim que o Protocolo de Montreal foi implantado com sucesso e os CFC’s foram banidos. Dentre outros exemplos.

Em outras palavras, com relação ao aquecimento global, os cientistas tem suas conclusões e as apresentam para a sociedade. O que o público não-cientista vai fazer com a informação científica, daí é outra história.

Sim, temos algumas ONG’s da área ambiental falando e fazendo um monte de bobagem, interpretações totalmente equivocadas de conclusões científicas. E não é apenas na área de Meteorologia. Alguns biólogos já comentaram a mesma coisa. E dentre essas ONG’s, algumas provavelmente seguem uma agenda política que se assemelha aos ideais da esquerda. E claro, muito provavelmente essas pessoas com a agenda política vão ‘pinçar’ apenas a parte das conclusões que coadunam com essa agenda.

Além disso, claro que há cientistas que se posicionam politicamente. E vejam, não há problema em se posicionar politicamente. A questão é quando essa posição política passa a exercer influência negativa naquilo que você produz e no caso da produção científica, essa influência negativa é a parcialidade. Ou seja, vamos imaginar que um cientista seja tão engajado politicamente para o lado da “esquerda” que só vai apresentar conclusões que tenham a ver com sua posição.

Vamos imaginar um exemplo. Imagine um cientista chamado Marxildo Engels. Marxildo é um pesquisador, doutor em ciências atmosféricas. Ele é totalmente contra a industrialização (com o nome Engels, mas tudo bem rs), diz que polui o ambiente e tem que ser banida. Marxildo também é vegano, freegano, anda de bicicleta pra cima e pra baixo, escreve em linguagem neutra, etc. Se Marxildo for tão influenciado pelos seus posicionamentos a ponto de torná-los dogmas de vida, ele talvez mostre apenas conclusões e argumentos que defendam seu estilo de vida.  Por fazer parte da elite intelectual, ele vai influenciar outras pessoas a pensarem como ele.

No entanto, um único cientista não representa toda a comunidade científica. Talvez esse cientista acabe tendo atitudes pseudocientíficas, divulgando apenas conclusões que corroborem suas crenças políticas de alguma maneira. Eu dei aqui o exemplo do Marxildo Engels, mas poderia ser um cara chamado Mises Olavette que pegou birra da esquerda e agora quer derrubar todo e qualquer fato mencionado por alguém da esquerda, mesmo que esse fato faça sentido.

Além disso,  já falei em mais de uma ocasião que a ciência se autorregula. Será necessário avaliar a produção científica desse cientista em questão para saber se ele está produzindo artigos científicos e qual o impacto desses artigos. Ir nas redes sociais, em programas de entrevista e causar furor com declarações polêmicas é realmente mais fácil do que pesquisar e produzir artigos, acredite!

Um cientista competente tem que ser alguém tolerante e que sabe conviver com os outros (ciência não é feita num porão escuro por um cientista maluco). Tem que ser uma pessoa que sabe pensar fora da caixinha da qual está acostumada, muitas vezes abrindo mão de seus dogmas. Todo nome da ciência atual que se destaca tem essa qualidade. E quando falo aqui em destaque, falo em produção científica e não em total de aparições em talk shows ou cliques em blogs.  E realmente lamentável que muitas vezes um cientista acreditado tenha menos espaço do que um fanfarrão polêmico. A razão é que a mídia de massas vive de dinheiro, publicidade. E o público em geral adora polêmica, adora ver coisas extraordinárias e ‘verdades definitivas’.

Talvez algumas pessoas ainda argumentem: ah, mas e a verba que financia o cientista? Vamos supor que uma empresa do ramo de combustíveis fósseis resolva financiar uma pesquisa  sobre mudanças climáticas e acabe favorecendo trabalhos com conclusões que minimizem os efeitos do aquecimento global. É por isso que os artigos científicos passam por revisão por pares, é por isso que um experimento ou observação ganha mais força quando diversos grupos independentes de cientistas chegam em conclusões semelhantes, etc. Não se faz ciência com uma única fonte ou com um único artigo.

Concluindo: o aquecimento global não é coisa de esquerda ou de direita. O aquecimento global é um fato científico, como tantos outros fatos científicos que existem em diversas áreas do conhecimento. Um conselho que eu dou a todo mundo que escolheu um lado nessa discussão esquerda x direita: suba em cima do muro.  Aprenda a observar as ideias dos dois lados. Se a ideia apresentada pode ser comprovada por dados e observações, leia a respeito. Procure diversas fontes independentes. Não “pegue birra” de uma ideia ou fato simplesmente porque ela foi apresentada pelo lado adversário da discussão. Estude, analise e tente determinar se essa ideia faz sentido.  Se você estiver cheio de dúvidas sobre uma ideia, entenda que é natural, porque e difícil, para não dizer impossível, ter certeza absoluta sobre as coisas. Não permita que essa dicotomia que vivemos atualmente impeça que você observe o horizonte todo.