Charles Fort: o colecionador de fatos insólitos



Fort foi um dos pioneiros na ideia de abdução alienígena. Cortesia de Shutterstock

Há um escritor de ficção científica norte-americano que viveu entre o final do século XIX e início do século XX chamado Charles Fort. Ele foi provavelmente o primeiro escritor a abordar a possibilidade de que, para outros extra-terrestres, nós humanos não passemos de animais de estimação.

Além disso, Fort não tinha a pretensão de dar uma explicação coerente para os fenômenos apresentados em seus escritos. Por isso, alguns talvez nem o classifique como ficção científica. Normalmente, na ficção científica, o que vemos são escritores que de alguma forma tentam explicar o fenômeno apresentado, nem que precisem inventar uma teoria científica ou uma tecnologia que não conhecemos (falei disso por exemplo nesse post em que menciono o hiperespaço). Fort, por outro lado, queria confundir os cientistas e até embaraçá-los, de certo modo. Por essas razões, Fort é frequentemente tido como um escritor de realismo fantástico.

Charles Fort, por volta de 1920. Fonte: Wikimedia Commons

O colecionador fatos insólitos (ou anômalos)

Fort nasceu em 1874, em uma próspera família de Albany, interior do Estado de Nova York. Ele é considerado o pioneiro nos estudos de fatos insólitos e anômalos. Em outras palavras, ele foi um dos primeiros a se interessar pelos mistérios do oculto, do sobrenatural e do paranormal. Nos anos 1990, com o sucesso da série Arquivo X, tenho certeza que muitos nerds passaram a se interessar por fatos misteriosos.

Os estudos de Fort incluíam eventos de poltergeist, combustão humana espontânea, relâmpago bola ou esférico (reza a lenda que o termo ball lightning foi criado por ele), chuva de sapos, levitação, objetos voadores não identificados (UFO ou OVNI), etc. Ele colecionava objetos relacionados a acontecimentos misteriosos e provavelmente foi o primeiro a pensar na hipótese de abdução alienígena para explicar o desaparecimento de pessoas. Em outras palavras, podemos dizer que ele foi o “Fox Mulder real.

Fox Mulder: Scully, since we’ve been away, much of the “unexplained” has been explained. The “Death Valley Racetrack”? Turns out it was just ice formations, moving the rocks around as it melted. Yeah, ice. Humility prevents me from recounting how I once thought it had something to do with a series of mysterious sightings of a rock-like creature in Colorado which turned out to just be a publicity stunt by a local landscaping business. It’s amazing, going through these archives with fresh – if not wiser – eyes, how many of these cases, whether it’s “The Amarillo Armadillo Man” or “The Hairy Whatsit of Walla Walla” can be explained away as fraternity pranks, practical jokes or people making stuff up simply because they’re bored and or crazy. And if that doesn’t explain it, well then it was probably just ice.

Dana Scully: Mulder, have you been taking your meds?

Fox Mulder: [pulls pencils out of the “I Want to Believe” poster]

Fox Mulder: Scully, Charles Fort spent his entire life researching natural and scientific anomalies, which he published in four books, all of which I know by heart. And at the end of his life, Fort himself wondered if it hadn’t all been a waste. I get it. I’m a middle-aged man, Scully. No, I am, I am. I’m thinking maybe it’s time to put away childish things: the Sasquatches and mothmen and… jackalopes. I thought it’d be great to get back to work. But is this really how I want to spend the rest of my days? Chasing after monsters?

Dana Scully: We’ve been given another case, Mulder… It has a monster in it.

Diálogo do E3:S10 de X-files (Mulder & Scully Meet the Were-Monster). Nesse diálogo, Mulder se declara um forteano convicto. Como se duvidássemos.

 

Alguns consideram que Fort foi o fundador de duas “áreas do conhecimento”: a ufologia e a criptozoologia. Evidentemente essas disciplinas não são reconhecidas pela ciência, já que não há evidências que explicam as alegações dos estudiosos e certos fenômenos e experimentos nunca foram bem documentados ou de possível reprodução. No entanto, toda ‘ciência Forteana’ é uma imensa fonte para saciar a imaginação de fãs, escritores e admiradores de ficção científica e fantasia.

Uma curiosidade sobre a biografia de Fort é que a vida financeiramente confortável de sua família possibilitou que ele pudesse viajar pelo mundo. Ainda muito jovem, aos 18 anos, viajou os EUA de costa a costa, foi para a Europa e para a África. Sustentou-se em parte com empregos temporários. Ou seja, o que muito mochileiro faz nos dias atuais, já representava o estilo de vida de Fort no final do século XIX e início do século XX. Envolveu-se com todo tipo de trabalho, teve contato com diversas culturas e folclores locais. Fazia diversas anotações a respeito do que vivenciava e isso proporcionou material para sua vida como escritor.

Aos 24 anos, Fort decidiu deixar de ser mochileiro. Foi se estabelecer em Nova York, onde acabou se casando. Tornou-se jornalista e escritor nas horas vagas. Escreveu mais de 10 novelas de ficção científica.

Seu interesse por fatos insólitos apenas aumentou. Como jornalista, escrevia a respeito de fatos inusitados. Viajava para o local onde o fato havia ocorrido, colhia entrevistas, etc. Depois, ele escrevia sobre os acontecimentos.

Será que ele escrevia no estilo Notícias Populares?

Fort chegou a catalogar mais de 60 mil ocorrências inexplicáveis, envolvendo toda sorte de acontecimentos relacionados ao oculto, sobrenatural e paranormal. Chuvas bizarras, desaparecimentos no Triângulo das Bermudas, aparições de fantasmas, criaturas de outros planetas, possessão demoníaca, criaturas/animais nunca antes vistos, etc. Charles escreveu sobre isso tudo! Ou seja, se você foi um nerd fã de Arquivo X e leitor da Revista UFO nos anos 90, era um forteano e talvez nem soubesse!  Havia um fanzine contemporâneo a Fort chamado “Science and the Unknown” (Ciência e o desconhecido) e muito do material coletado por Fort era fonte para essa publicação.

Fort era figura conhecida em sociedades ocultistas da época. Mesas de “sessões espíritas” eram populares nem sua época e Fort sempre estava presente nas apresentações em sua região.  Em 1925, Fort mudou-se para Londres e continuou suas pesquisas. Passava horas vasculhando a biblioteca do Museu Britânico, procurando mais fatos insólitos para sua coleção.

Suas pesquisas originaram livros que até hoje são cultuados por forteanos. O mais famoso deles é The Book of Damned, lançado em 1919. Frequentemente Fort desafiava cientistas para que desvendassem a natureza dos fenômenos apresentados em seus escritos. E claro, os cientistas não conseguiam vencer esse desafio. Acontece que a prova é uma obrigação do indivíduo que apresenta as evidências extraordinárias. É o que chamamos de ônus da prova.  O que Fort propunha era uma inversão do ônus da prova, o que é consiste em uma falácia lógica.

Para saber mais sobre a vida e a obra de Fort, recomendo esse post do Mundo Tentacular.

Conheça também o Charles Fort Institute.

Livro recomendado: Charles Fort: The Man Who Invented the Supernatural, de Jim Steinmeyer.  Veja amostra do livro aqui.

E quem não tem idade para ter acompanhado a saga do bebê diabo e ficou curioso com a imagem que postei, clique aqui para conhecê-la.