Imagem do leitor: nuvem colorida (irisação)

O João Carlos, um querido amigo que estudou comigo no Ensino Fundamental postou uma foto incrível e eu pedi autorização para comentá-a aqui no blog:

Ele fez o registro na região do Vale do Paraíba. Vocês conseguem ver as nuvens coloridas? O fenômeno responsável por esse belo colorido é a irisação e normalmente chamamos essas nuvens de nuvens iridescentes.

Eu falei sobre o fenômeno nesse post, porém vou repetir algumas informações para novos leitores:

Na verdade, as nuvens iridescentes não são um tipo especial de nuvens (como as nuvens mesosféricas ou nuvens noctilucentes): são apenas nuvens que sofreram o processo de iridescência, independentemente de sua classificação, embora o fenômeno normalment é observado associado a nuvens altocumulus, cirrocumulus, cirrus e nuvens lenticulares (Altocumulus lenticularis).

A iridescência é um fenômeno de difração, causado pelas gotículas d’água e cristais de gelo que compõe a nuvem. Cada um desses elementos desvia a luz individualmente. Em nuvens Cirrostratos, os cristais de gelo são um pouco maiores e temos um fenômeno de difração um pouco diferente, que são os halos.

Denomina-se difração o desvio sofrido pala luz ao passar por um obstáculo, com as bordas de uma fenda ou um anteparo (veja mais aqui).

Esse fenômeno normalmente ocorre quando a nuvem está próxima do disco solar e é mais fácil de ser visto quando o disco solar está oculto.

A nuvem fotografada pelo João é uma nuvem Cirrostratus (Cs), que é uma nuvem alta, formada principalmente por cristais de gelo. Conforme explicado acima, cada um desses cristais de gelo desvia a luz individualmente, causando o fenômeno de irisação. Normalmente o fenômeno ocorre em nuvens que possuem cristais de gelo e gotículas d’água de tamanhos diferentes.

Quando temos cristais de gelo um pouco maiores em nuvens Cs e todos mais ou menos com o mesmo formato e tamanho, se essa nuvem Cs forma u lençol contínuo no céu com o disco solar abaixo da nuvem, normalmente um outro  fenômeno meteorológico que se forma: o halo. Se a nuvem Cs não for um lençol contínuo no céu, poderemos ter um halo parcial ou um sundog  ou sol falso, que é outro fenômeno meteorológico de natureza óptica no qual um ou dois pontos brilhantes se formam a uma distância angular de 22° do disco solar.

 

Sundog, fenômeno meteorológico já mencionado algumas vezes aqui no blog. Em outra ocasião, poderei descrevê-lo melhor.
Cortesia de Shutterstock.

Nuvens iridescentes registradas em montanhas com neve. Não sei a localidade em que essa foto foi tirada, mas evidentemente não é no Brasil. Cortesia de Shutterstock

Mas voltando ao fenômeno de irisação, que é o assunto do post, apesar do fenômeno ser incomum, ele não é raro. Frequentemente vemos notícias que destacam fotografias do fenômeno, como por exemplo:

Achei importante a gente destacar que o fenômeno ocorre em diversos locais do Brasil e do mundo também (nesse post, por exemplo, mostro uma linda imagem do Quênia). Caso você tenha fotografado uma nuvem iridescente, saiba que você teve sorte em observar um fenômeno lindo como esse. No entanto, é importante a gente destacar que trata-se de um fenômeno meteorológico completamente explicado pela ciência, apesar de poder ter um significado pessoal metafísico para cada um.

Eu gosto de fazer essa distinção, pois trabalho com observação e dados meteorológicos há 8 anos. E nesse período de tempo, acompanhei casos de pessoas que ao observarem algo incomum no céu, apelaram para o sobrenatural e até tentaram explicar o fenômeno com alguma “teoria ufológica”. Pessoalmente acho isso preocupante, uma vez que já existe a explicação correta para esse fenômeno e ela é mais bonita e mais interessante do que essas elucubrações. Fenômenos atmosféricos são excelentes maneiras de fazer as pessoas se interessarem por ciência, para então sanar o analfabetismo científico e despertar uma característica que muitas vezes está adormecida dentro de nós: a curiosidade, aquela curiosidade que temos quando somos crianças.