O que esperar como meteorologista?

Se você está concluindo a graduação em Meteorologia, provavelmente tem muitas dúvidas e inseguranças. E isso é absolutamente normal, acredito que seja um sentimento comum a qualquer pessoa que esteja prestes a concluir sua graduação, independentemente da área.

Meteorologistas podem trabalhar em diversas áreas, inclusive em Estações Meteorológicas. Na image, uma colega de profissão que faz exatamente a mesma coisa que eu, por isso escolhi essa imagem para ilustrar o post. Cortesia de Shutterstock

Outros meteorologistas, por outro lado, trabalham com análise de dados. Saber programação e ter interesse em sempre se atualizar nessa área é um grande diferencial, que pode permitir que o profissional atue também em outras áreas. Cortesia de Shutterstock.

Raramente (pelo menos aqui no Brasil) os apresentadores da previsão do tempo são Bacharéis em Meteorologia. Normalmente são profissionais da área de comunicação, que leem os boletins e tem acesso a todo o material digital (imagens, esquemas, etc) que são previamente preparados por Meteorologistas. Inclusive muitos desses profissionais de Comunicação acabam fazendo cursos de extensão para se atualizar e aprender mais sobre Meteorologia. O contato com o Meteorologista é diário. Cortesia de Shutterstock.

Somos pressionados a “ter sucesso” constantemente. E a sociedade em geral mede o sucesso através do sucesso financeiro, através da “ostentação” de viagens e bens materiais. Com as redes sociais, muitas vezes somos levados a acreditar que a grama do vizinho é mais verde e isso gera sentimentos de inferioridade e frustração.

Esses sentimentos são vividos por muitas pessoas que estão com seus 20 e poucos anos, concluindo seu curso universitário e ainda com dúvidas sobre a vida adulta. Eu poderia ficar horas escrevendo sobre isso, usando evidentemente minha experiência pessoal e minhas opiniões. Vez ou outra deixo minhas opiniões escaparem aqui no blog e é claro que elas não são “verdades absolutas”. São apenas minhas opiniões, com as quais meus leitores podem ou não concordar.

Um de meus posts mais populares  na comunidade meteorológica é o Valeu a Pena Cursar Meteorologia? Esse post foi citado por diversos colegas meus, recebi vários elogios e algumas críticas construtivas bastante positivas. O objetivo do post é ajudar a pensar. Sim, aqui no blog eu não dou respostas prontas para essas dúvidas profissionais. Eu procuro informar e fornecer ferramentas para que cada futuro profissional possa tomar suas próprias decisões.

Eu recebi um comentário no post em questão que me inspirou a escrever mais a respeito. O Gustavo escreveu o seguinte:

Eu estou prestes a me formar em Meteorologia, e ainda não tenho confiança com relação a previsão propriamente dita. Como muitos colegas que aqui comentaram, achei também muito falho da minha graduação o aprimoramento e dedicação as aulas práticas, com desenvolvimento e utilização de programas para a previsão. Minha dúvida é: para quem não pretende seguir fazendo Mestrado, e Doutorado, o que se pode esperar dessa área, e quais campos de trabalho eu devo apostar? Tenho uma vantagem de ter inglês fluente e ter participado de um intercâmbio durante a graduação (se é que isso conta). Obrigado desde de já.

Acredito que muitas das perguntas feitas pelo Gustavo podem sim ser respondidas no post que mencionei, mas eu gostaria de fazer alguns comentários sobre as palavras do Gustavo. Primeiro vou falar de minha experiência e em seguida vou colocar um depoimento de uma colega e opiniões de outros colegas.

Bom, eu passei por diversas fases ao longo da minha graduação. No primeiro e no segundo ano, eu achei que eu deveria trocar de curso. Ao final do segundo ano, achei que deveria concluir e meteorologia e depois fazer outra graduação. No terceiro ano, com o Programa de Iniciação Científica, concluí que a área acadêmica era o meu lugar e decidi que faria mestrado. E foi o que fiz: fiz mestrado. E me arrependi.

😱

Como assim? Bom, vou explicar melhor. Eu gostei de fazer mestrado e sei que eu tenho um título importante, pelo qual me esforcei bastante. Sou muito grata a minha orientadora pela oportunidade e pelos conhecimentos que ela compartilhou comigo.

A questão é que eu acho que não deveria ter feito mestrado naquele momento. Eu deveria ter ido enfrentar o mercado de trabalho e refletir melhor sobre a possibilidade de dar continuidade à carreira acadêmica. Se eu tivesse feito isso, teria feito meu mestrado com muito mais maturidade. Talvez eu teria escolhido outra área, talvez algo mais voltado para o mercado de trabalho, com uma aplicação mais direta. Talvez eu teria feito uma pós graduação lato sensu (especialização) e não stricto sensu (mestrado e/ou doutorado). Bom, falei sobre a diferença das pós-graduações nesse post, para quem quiser saber mais.

A questão é que eu era muito nova e não tinha vivência nenhuma. Eu não tinha os horizontes expandidos, como tenho hoje. Eu nunca tinha nem viajado para fora do país. Eu não tinha experiência fora da Academia. Minha vida era estudar loucamente para conseguir passar nas matérias. Eu não tinha a menor ideia do que o mundo reservava. Eu era imatura e ignorante acerca de muitos aspectos da vida.

Durante o Mestrado, minha ficha foi caindo e fui vendo que o Mestrado foi uma tentativa de adiar o inadiável. E é aí que eu chego com o primeiro conselho para você: ingresse em um programa de pós graduação, principalmente stricto sensu, apenas se você tiver muita certeza do que está fazendo. Apenas se você tiver gostado muito de sua experiência em um Programa de Iniciação Científica ou estágio semelhante. Se você ganhou algum prêmio nesse sentido durante a graduação,  se você realmente tem prazer em investigar e pesquisar, é muito provável que você tenha o perfil para a carreira acadêmica. Não entre no Mestrado apenas com o objetivo de “adiar o inadiável”, ou seja, de adiar o ingresso no mercado de trabalho convencional. Não faça isso!

Saia, enfrente “a vida real”, procure emprego na área. Mas procure ser um profissional versátil e tenha muita criatividade. Não mande currículo apenas para empresas de consultoria de Meteorologia. Procure empresas da área de energias renováveis, consultoria ambiental e até em instituições financeiras. Sei que pode parecer frustrante imaginar-se trabalhando em uma área totalmente diferente da sua área de formação, como em uma instituição financeira, mas você vai aprender a linguagem corporativa, vai ter uma noção de hierarquia, vai aprender a cultura de uma empresa, etc. Isso tudo agrega bastante, é muito bom para o currículo e te ajuda a pensar em sua carreira de maneira mais ampla.

Minha opinião pessoal é de que essas empresas privadas de consultoria em Meteorologia não vão conseguir absorver todos os profissionais que se formam. Por isso convoco vocês a pensarem fora da caixinha. Não tenham medo de enfrentar o mercado de trabalho, organizar currículo, atualizar o Linkedin. No caso do IAG-USP (uma das instituições onde há o curso de Bacharelado em Meteorologia), acredito que o curso infelizmente não se preocupava tanto com preparar o aluno para o mercado de trabalho (o foco era mais acadêmico, pelo menos na época em que cursei a graduação). Tanto que não havia (no meu tempo de graduação, pelo menos) disciplinas com esse foco na grade curricular do curso. Soube que recentemente tentaram organizar palestras nesse sentido. Acho uma iniciativa louvável, até porque a academia também não consegue absorver todo mundo e nem todos tem o perfil para a vida acadêmica.

Na mensagem, o Gustavo fala que tem uma experiência fora do Brasil. Com certeza isso é algo que conta ao seu favor, já que muitas empresas valorizam esse tipo de experiência. Há inclusive programas de trainee que valorizam candidatos que tiveram a oportunidade de fazer um intercâmbio.

Outra possibilidade é pensar em empreender. Se você tem interesse nisso, procure cursos na área. O Sebrae tem alguns. Se for fazer cursos fora do Sebrae, procure cursos bem indicados, pois sei que há alguns vigaristas nessa área. Há todo um mercado de empreendedorismo, com palestras-espetáculo-culto-religioso ministradas por pessoas que nunca empreenderam.  Por isso, cuidado! Faça cursos sérios, que realmente vão ensinar como empreender. Sei que empreender no Brasil não é fácil, mas é uma possibilidade para se pensar.

Faça cursos, se reinvente. Se for o caso, faça outra graduação, tentando eliminar disciplinas na grade curricular usando as que vocês cursou no Bacharelado em Meteorologia. Está difícil para todo mundo, o Brasil vive uma crise que atinge diversos setores. Por isso, se reinventar é tão importante. Pense fora da caixinha, é o que tenho a dizer. E quem sabe isso não norteará sua pós-graduação? Vendo as necessidades do mercado de trabalho, você vai poder perceber o que o mercado precisa e investir nisso.

Bom, após minhas opiniões, acho válido mencionar a opinião de uma amiga que trabalha em uma empresa privada na área de Meteorologia. Ela fez graduação no Brasil e mestrado em outro país. Achei o depoimento dela muito bom (coloquei algumas observações minhas entre parênteses):

Não é assim! Não adianta seguir mestrado e doutorado se ele não está pensando em seguir uma carreira acadêmica. Não adianta fazer porque “tá ali” e parece o caminho “mais fácil” enquanto você não sabe o que fazer. O que esperar dessa área (meteorologia) é o que esperar de muitas áreas: você sai para mercado de trabalho e a área que estiver melhor naquele momento vai te absorver. Quando eu entrei na graduação todo mundo se formava e ia trabalhar em banco, aí deu um boom do mercado financeiro e foi todo mundo trabalhar com risco, depois foi todo mundo pra energia (área de energia). Ele (o Gustavo, no caso) tem que descobrir o que ele gosta mais de fazer, programar, ou lidar com o publico, ou análise de dados e focar nisso. Algumas empresas privadas desenvolvem pesquisa também. As empresas de energia tem uma verba que tem que ser aplicada em pesquisa e essa é uma das razões da existência de alguns parques/pólos tecnológicos. Em um desses pólos, no setor de uma empresa de previsão do tempo, tem umas 20 pessoas que mesmo trabalhando numa empresa (privada) de previsão (previsão do tempo),  trabalham com pesquisa e não sabem fazer previsão (…) porém, para atuar na área de pesquisa no Brasil também tem que ter uma certa sorte (caso contrário a pessoa fica a vida inteira com bolsas de pesquisa de valores relativamente baixos, contando com a possibilidade de sempre renovar o contrato).

Outro amigo meu, que trabalha em banco (fez mestrado e doutorado em meteorologia) e tem uma visão um pouco mais pessimista e direta da vida (risos), foi direto e reto:

Se não tem vocação para pesquisa nem vá (fazer mestrado) só para ter bolsa.

Mais uma vez, é aquilo que falei: não adianta adiar o inadiável. Uma hora você vai ter que sair da Universidade e enfrentar o mundo real. Eu diria que essa experiência é ótima mesmo se você no futuro mudar de ideia e resolver seguir carreira acadêmica. Um professor que teve experiência no mercado de trabalho e sabe das necessidades e dificuldades é muito importante, pois transmite ao aluno muito mais do que conhecimento da Academia.

Outra questão levantada por alguns colegas é que alguns cursos de meteorologia do país precisam de uma atualização, uma maior preocupação com áreas vitais e que são carro-chefe de nossa profissão, como é o caso da previsão do tempo. Assim como o Gustavo, meus colegas também se sentiram inseguros com relação aos seus conhecimentos em previsão do tempo (Meteorologia Sinótica, principalmente). Eu também me senti assim e logo senti o baque quando saí do Mestrado e fui trabalhar em uma empresa de previsão do tempo. No entanto, a gente só aprende previsão do tempo na prática, trabalhando, metendo a “mão na massa”, estudando os casos do dia a dia. Embora a ciência (Meteorologia) evidentemente seja a mesma, alguns procedimentos podem variar de empresa para empresa. Sendo assim, é natural que o aprendizado seja realmente consolidado apenas na prática. A atmosfera nos surpreende diariamente e o aprendizado é enquanto durar sua vida profissional.

Gustavo, espero ter te ajudado. E espero também ter ajudado outras pessoas na mesma situação que você.