O que são rios atmosféricos?

Floresta Tropical (na foto, a floresta do Khao Yai National Park, na Tailândia). Nas áreas tropicais do planeta, é onde há a maior concentração de vapor d’água na atmosfera. E é nas zonas tropicais onde ‘nascem’ os rios atmosféricos. Cortesia de Shutterstock

Os rios atmosféricos são regiões relativamente longas e estreitas na atmosfera – como rios no céu – que transportam a maior parte do vapor de água fora dos trópicos. Estas colunas de vapor se movem com o tempo, levando uma quantidade de vapor de água aproximadamente equivalente ao fluxo médio de água na foz de um rio. Quando os rios atmosféricos “desaguam” em algum lugar, liberam frequentemente esta enorme quantidade de água sob a forma da chuva ou da neve.

A maior parte do vapor d’água da atmosfera está nos trópicos. A razão é bastante simples: é na zona tropical do planeta que as temperaturas são mais elevadas. É a região mais favorecida e termos de radiação solar incidente, por isso é mais quente. Com elevadas temperaturas, temos maiores taxas de evaporação.

Distribuição média de vapor d’água na atmosfera (água precipitável). Média de 1988-1999. Observem como os trópicos contam com uma maior quantidade de vapor d’água na atmosfera. Fonte: Cooperative Institute for Research in the Atmosphere, Colorado State University.

Os rios atmosféricos podem apresentar diversas formas e tamanhos. Eles contribuem na redistribuição de água pela atmosfera e podem causar chuvas intensas e até inundações em bacias hidrográficas já vulneráveis. Um grande exemplo disso é o chamado Pineapple Express. Vamos falar desse rio atmosférico a seguir.

Pineapple express não é um termo técnico, mas é ótimo!

Embora não seja um termo técnico, o pineapple express é um rio atmosférico que transporta água dos trópicos (proximidades do Havaí, nesse caso) para a costa oeste dos EUA. Ele é responsável por muitas vezes provocar chuvas intensas na Califórnia.

O nome Pineapple Express é uma alusão a sua origem, já que o abacaxi (pineapple) é uma fruta tropical.

 

Dados do satélite GSM: precipitação acumulada de 7 a 10 de janeiro de 2017. Destaque para a formação do “Pineapple express”, o rio atmosférico responsável pelo aguaceiro. Neve e chuva foram registradas em diversas localidades da Califórnia. As inundações tem sido as piores desde 2005.

De acordo com a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA), os rios atmosféricos mais potentes podem transportar uma quantidade de vapor de água equivalente a 7,5 a 15 vezes o fluxo na foz do rio Mississipi, o maior rio da América do Norte. Entre 30 e 50 por cento da precipitação anual no oeste dos EUA vem de apenas alguns eventos atmosféricos desse rio, conforme informações do EO-NASA.

As chuvas foram tão intensas que encheram os rios californianos, provocando enchentes e através de imagens de satélite, podemos ver a carga de sedimentos depositados por esses rios no oceano, conforme podemos ver na imagem a seguir, do dia 27 de fevereiro de 2017:

Imagem do satélite EO-1, de 27 de fevereiro de 2017. Destaque para a Baía de Monterey (Califórnia) e as manchas de sedimentos depositados no oceano pelos rios. A Califórnia passou por um período de seca intensa nos últimos 2 anos. Em janeiro e fevereiro de 2017, as chuvas foram intensas e foram registradas enchentes. Fonte da imagem: EO-NASA

A imagem é do satélite EO-1, da NASA e mostra uma grande quantidade de sedimentos fluviais depositados no mar. São indicados por essas manchas marrons na imagem acima, bem na foz dos rios. O “Pineapple Express” foi bastante intenso, provocando cheias em rios e inundações ao longo de seus percursos.

Há uma extensa literatura sobre rios atmosféricos e no caso dos EUA em particular, o “Pineapple Express” é o mais referenciado. A imagem abaixo é um infográfico da NOAA a respeito desse fenômeno e algumas informações que apresentei no texto vieram desse material:

Infográfico da NOAA sobre rios atmosféricos. Aqui não é mencionado, mas o infográfico trata do exemplo do Pineapple Express. Fonte: NOAA

Observe que muitas chuvas na costa da Califórnia são explicadas pelo Pineapple Express. O vapor d’água condensa-se ao subir as montanhas, gerando muita neve e precipitação.

Os rios atmosféricos se movimentam junto com os sistemas meteorológicos atuantes. Se a corrente de jato, por exemplo, estiver forte, ela pode carregar o rio atmosférico.

Rios atmosféricos no Brasil

Graças a uma enorme campanha de divulgação científica, os rios atmosféricos por aqui ficaram conhecidos como rios flutuantes ou rios voadores. A divulgação científica foi feita através desse excelente site, que é uma parceria entre diversas empresas e instituições de ensino.

Eu falei um pouco sobre o assunto nesse post.

Uma grande quantidade de umidade vem da Região Amazônica e é canalizada pelos Andes chegando até o Paraguai, norte da Argentina, Região Sul, oeste da Região Sudeste e sul Região Centro-Oeste. Esse fenômeno chama-se Jato de Baixos Níveis (JBN) e é uma caracerística da circulação em diversas regiões do planeta, onde há uma grande fonte de umidade e a presença de cadeias de montanhas que canalizam o vento. Em 2004, eu ainda estava na graduação, e estudei o JBN em um trabalho de Iniciação Científica (IC). Veja a publicação aqui. Confesso para vocês que me arrependo muito de não ter continuado esse trabalho no mestrado.

Diagrama Explicativo sobre os Rios Voadores. Fonte: Projeto Rios Voadores

No diagrama explicativo acima, observe como a umidade da Floresta Amazônica é distribuída pela América do Sul, canalizada como um rio voador com a colaboração da Cordilheira dos Andes (que atua como uma “barreira” nesse canal de transporte de umidade).