Registro de redução de temperatura em decorrência do Eclipse



Figura 1: Representação Artística de um Eclipse Solar Parcial. Cortesia de Shutterstock

Vocês viram o eclipse do último domingo? Bom, eu não vi nada. E não, eu não estava alucinada e fora de mim devido ao carnaval. Foi mais uma vez a Meteorologia trollando a Astronomia. Estava muito nublado em São Paulo-SP  e vizinhanças no dia do eclipse. Nessa reportagem, uma pessoa de Santo André conseguiu observar o fenômeno, entre nuvens. A nebulosidade foi presente em diversas regiões do país onde o Eclipse foi visível (principalmente Região Sudeste e Região Sul, prejudicando a observação.

Como a Lua estava em seu apogeu (ponto mais distante da Terra), tivemos um Eclipse Solar Anular. O tamanho do disco solar e do disco lunar no céu da Terra é mais ou menos o mesmo. No entanto, se a Lua está em seu apogeu , o disco lunar fica ligeiramente menor no céu, pois está mais distante. O efeito, nas regiões de sombreamento total (umbra, veja na figura 4) será o de um anel de fogo no céu, como na Figura 2, que mostra um eclipse anular total em Xiamen, na China, em 20 maio de 2012.

Figura 2: Eclipse Anular na zona de umbra em Xiamen, China. Esse eclipse foi observado em 20 de maio de 2012 e está aqui apenas para exemplificar o Eclipse anular. A seguir, vou mostrar mais imagens que deixarão isso bem claro. Cortesia de Shutterstock

Existe também o Eclipse Solar Total, que é quando a Lua esta em longe do apogeu, em seu perigeu ou perto dele (eu explico os termos perigeu e apogeu nesse post). Em situações assim, o tamanho do disco lunar é um pouco maior e sua sombra consegue cobrir totalmente o disco solar. Dessa maneira, não fica nenhum (ou quase nenhum) anel de fogo aparente e só é possível ver o brilho referente a coroa solar, conforme o exemplo da Figura 3.

Figura 3: Eclipse Solar Total, no qual não é possível ver nenhum “anel de fogo” definido. O brilho que vemos é na verdade uma manifestação da coroa solar. Cortesia de Shutterstock.

Acontece que a Terra é uma esfera (tem gente que acredita na Terra plana, mas aí é outra história, das mais deprimentes). Então o sombreamento será total (ou quase total, como no caso do Eclipse Solar Anular) apenas em uma pequena região do planeta, chamada de região de umbra (veja na representação da Figura 4). Nas regiões de penumbra (veja na representação da Figura 4), o eclipse será parcial. Isso acontece tanto para o caso do Eclipse Solar Total quanto para o caso do Eclipse Solar Anular (veja representação na Figura 4).

 

Figura 4 –  Representação do Eclipse Solar Total (parte de cima da figura) e do Eclipse Solar Anular (parte de baixo da figura). Nos dois casos, teremos uma região de máximo sombreamento (umbra) e uma região de sombreamento parcial (penumbra). O eclipse que tivemos no último domingo foi um Eclipse Solar Anular Parcial. E quando falo parcial, digo que foi parcial aqui para nós da Região Sul e Região Sudeste do Brasil). Em partes da Argentina e do Chile, o Eclipse Solar Anular foi completo, no sentido de que o anel de fogo ficou “perfeitinho”, conforme a Figura 4 mostra. Fonte dessa imagem: Wikimedia Commons

O eclipse que tivemos no último domingo foi um Eclipse Solar Anular parcial. E quando falo parcial, digo que foi parcial aqui para nós da Região Sul e Região Sudeste do Brasil). Em partes da Argentina e do Chile, o Eclipse Solar Anular foi completo, no sentido de que o anel de fogo ficou “perfeitinho”, conforme a Figura 5 mostra em uma imagem feita no Chile. Em outras palavras, estivemos na zona de penumbra do eclipse, enquanto alguns chilenos e argentinos estiveram na zona de umbra (mais uma vez, veja a Figura 4 para se familiarizar com esses termos).

Figura 5: anel de fogo “perfeitinho” no céu. Essa foto do Eclipse Solar Anular na zona de umbra foi obtida em Puerto Chacabuco, no Chile e foi feita por Cesar Briseno & Kathy Vivas e divulgada na Sky and Telescope.

A figura a seguir (Figura 6) possui mais uma representação didática de como um eclipse se forma. Na figura 6, não é feita nenhuma distinção entre Eclipse Total e Eclipse Anular, porque a mecânica celeste é basicamente a mesma. A única diferença é que no Eclipse Anular a lua está em seu apogeu, conforme explicado anteriormente.

É importante também a gente destacar uma ‘confusão’ entre os termos, que vi em diversos sites de notícias. Muitos chamam o Eclipse Anular de “total” nas regiões em que o anel de fogo fica “perfeitinho ” (como indicado na Figura 5).

Figura 6: Mais um nfográfico explicando o Eclipse Solar. Cortesia de Shutterstock

 

Agora que me delonguei falando bastante sobre Eclipse Total e Eclipse Anular, como uma maneira de explicar para quem veio até esse post buscando essa informação, vou falar especificamente do eclipse do último domingo (26 de fevereiro de 2017).

Na sexta-feira que antecedeu o eclipse, meu marido e eu fomos até uma loja de material de construção procurar vidro de máscara de soldador. Embora eu tivesse visto que a previsão do tempo não era animadora ou favorável para a visualização do eclipse, sou brasileira e não desisto nunca.

Eu não sei se o nome técnico é esse, vidro de máscara de soldador, porém se você fizer uma busca na internet com esse termo, vai encontrar o produto que me refiro. Trata-se de uma maneira segura e barata de se enxergar um eclipse solar. No entanto, o produto precisa ser da tonalidade 14 para cima. É um produto bem barato, vi por R$1,20 nesse link e na loja em que eu ia comprar (estava esgotado), custava R$3,50. Há também filtros específicos para observação solar, esses encontrados em lojas de produtos para telescópios. Óculos solares não são indicados!

Observar o Sol a olho nu, nem pensar! Galileu Galilei que o diga. Um dos pioneiros na observação solar, Galileu acabou ficando cego de tanto observar o astro.

E quem acompanha a fanpage do blog, viu a postagem que compartilhei, com informações sobre o eclipse fornecidas pelo Prof. Dr. Roberto Costa, do Departamento de Astronomia do IAG-USP (Figura 7). Nas informações, ele ressalta a importância da observação correta do fenômeno.

Figura 7: importantes informações sobre eclipses, focando principalmente na maneira correta de observá-los. Imagem organizada pelo Prof. Dr. Roberto Costa, do Departamento de Astronomia do IAG-USP. 

 

E para ver a área em que o eclipse foi visível, veja esse link.

Em 21 de Agosto de 2017, teremos um novo eclipse solar. Porém dessa vez ele será visível apenas no norte da Região Norte. Então já organize a compra de seu pacote turístico e não se esqueça que costuma chover todos os dias nessa região.  Mais uma vez, a Meteorologia pode trollar a Astronomia!

A Astronomia trollando a Meteorologia

Um dado muito interessante, informado a mim pelo meu colega e amigo meteorologista Felipe Vemado foi a respeito de uma estação meteorológica na Sertório, em Porto Alegre, que registrou uma ligeira queda de temperatura (0,8°C) durante o eclipse.

A informação foi fornecida pela empresa de meteorologia MetSul e esse registro só foi possível porque essa estação meteorológica registra dados a cada 30s. Essa ligeira queda de temperatura foi registrada no ápice do eclipse, por volta das 11h11min. Com o sombreamento momentâneo de parte do disco solar, a Terra deixou de receber parte da energia. Dessa maneira, por alguns instantes, perdeu mais energia do que recebeu. Por isso foi registrada essa queda de temperatura. Veja no gráfico abaixo (Figura 8), mostrado a mim pelo Felipe e de responsabilidade da MetSul.

Figura 8: dados de temperatura de 26/fevereiro/2017, obtidos em uma estação meteorológica localizada em Porto Alegre. Na imagem, o pessoal da MetSul destaca a redução de 0,8°C no ápice do eclipse. 

 

Claro que para essa conclusão ser possível, o sensor de temperatura deve estar calibrado e funcionando adequadamente. E claro, a observação também só foi possível porque trata-se de uma estação automática com alta amostragem temporal (dados a cada 30s). Dessa maneira, a única explicação plausível é o eclipse.

Quando o Sol é encoberto, a temperatura diminui!

Não trata-se de nenhuma novidade. Quando o disco solar é encoberto, a temperatura diminui. Mesmo que ele seja encoberto por uma camada de nuvens, situação completamente comum, nós sentimos redução de temperatura.

Nos dias que ficam completamente nublados, a amplitude térmica é menor. Amplitude térmica significa a diferença entre a temperatura máxima e a temperatura mínima. Sabe aquele dia em que você sai de casa com casaco e lá por volta das 11h tem que tirá-lo? Em dias assim, a amplitude térmica é elevada. Por outro lado, naqueles dias que ficam  completamente nublados e meio “garoentos”, talvez você não sinta a necessidade de tirar o seu casaco. Em dias assim, a amplitude térmica é baixa. Para ilustrar ainda melhor, vou postar o gráfico abaixo em que é possível ver a situação de dois dias específicos. O dia 19 de janeiro de 2017 estava bastante nublado, enquanto o dia 09 de janeiro de 2017 estava com céu com menos nuvens. Veja como os gráficos (Figura 9) tem amplitudes diferentes.

Figura 9: comparação de dados de temperatura em um dia nublado (linha azul, dia 19/01/2017) e um dia parcialmente nublado (linha vermelha, dia 09/01/2017). Dados de São Paulo-SP, da Estação Meteorológica do IAG-USP. )

Os dados do gráfico acima (Figura 9) são da Estação Meteorológica do IAG-USP, portanto referem-se a dados de São Paulo-SP.

Há também situações de erupções vulcânicas, em que a emissão de uma imensa quantidade de material piroclástico e fuligem acabam deixando o céu obscurecido. Enquanto essas partículas estiverem em suspensão, o disco solar fica sombreado e a temperatura diminui. Foi o que aconteceu no ano de 1816, o ano sem verão.

Analogamente, o mesmo ocorre em explosões nucleares (inverno nuclear). E também ocorre caso a Terra seja atingida por um meteoro extremamente massivo ou por um asteroide e pode ser que isso tenha acontecido na grande extinção do Cretáceo-Paleogeno, quando os dinossauros foram extintos.