Resenha de Luz e Sombra, novo romance de Anaté Merger

Mês passado, eu divulguei um release a respeito do novo romance da escritora franco-brasileira Anaté Merger. Pouco mais de um mês depois, venho aqui escrever uma resenha e minha opinião sobre o romance.

Eu diria que o livro é um bom exemplo de romance histórico. Trata-se da história de Virgílio, homem bonito, rico e bem-sucedido de 2016, mas que vive com a impressão de que não pertence a esse tempo. Ele passou a ter essa impressão depois de um acidente de barco, pouco tempo antes dos acontecimentos do início do livro, enquanto comemorava o casamento de um amigo.

A impressão de não pertencer a esse tempo é manifestada em uma paixão. Ele é apaixonado por uma mulher que aparece em seus sonhos e delírios, porém são sonhos muito vívidos e reais. Ele sabe detalhes e conhece as feições de sua paixão.

Um homem muito culto, refinado e apaixonado por antiguidade e história, acaba se interessando por um imóvel especial. Uma fazenda no interior do Rio de Janeiro chamada Inocência. Quando entra na fazenda, o local o atrai magneticamente. Através de uma linda obra de arte chamada Gêmeas em Flor, ele logo identifica a mulher de seus sonhos. Ele sabe que o que vive é incomum, é loucura para quase todo mundo. Mas o que ele sente é real, é uma paixão que o consome.

Apesar de ter um relacionamento completamente atribulado com Clara, uma linda e fútil mulher, ele sente que aquilo é passageiro. Ele sabe que ela não é a mulher de sua vida e isso fica evidente quando ele olha para a obra de arte e quando Clara tem um acesso de fúria que quase arruína completamente o quadro.

Virgílio fica por algum tempo hospedado na fazenda, enquanto sai a documentação e se desenrola todo o processo para adquiri-la. Seu irmão Augusto percebe que há algo errado com o irmão, que não ousa revelar que está apaixonado por alguém inatingível, que viveu em outro tempo. Através de pesquisas, conversando com Marie (atual proprietária da fazenda) e conversando também com Helena, uma descendente dos antigos proprietários da fazenda, Virgílio descobre que as gêmeas idênticas do quadro chamam-se Olympia e Olívia e eram filhas do dono da propriedade. Mulheres belíssimas e encantadoras, com personalidades completamente diferentes. A paixão de Virgílio é dirigida a Olympia.

O incrível é a escolha do nome: Olympia. Não sei se foi intenção da autora, mas o Monte Olimpo é a morada dos deuses na mitologia grega. É um local inacessível para a maioria dos mortais. Virgílio quer algo impossível: quer viver um amor com uma mulher que viveu há mais de 100 anos atrás. Quer viver não: ele sente, em seu âmago, que viveu esse amor.

Outro ponto, precisamos lembrar que o título do romance é Luz e Sombra. O nome Clara dá a ideia de luz, iluminação. No entanto, é exatamente o contrário, parece uma espécie de ironia da autora. Clara é uma mulher linda, porém muito fútil e agressiva.

E o próprio nome Virgílio, que tem a mesma raiz da palavra virgem. Virgílio portanto significa puro, inocente. Não que o moço seja um padre, nada disso. Na verdade por ser belo e rico, ele não te dificuldades nessa área. Mas ele nunca sentiu o amor verdadeiro. Além disso, precisamos lembrar que o nome da fazenda que ele quer comprar é Inocência. Ou seja, certamente a escolha do nome não foi mera coincidência. Adoro esses jogos com os significados dos nomes.  A autora fez o mesmo em Amor em Jogo.

Quando Clara quase destrói a obra de arte, Marie e Virgílio chamam Tito, um antiquarista, para restaurá-la. Na moldura do quadro, descobrem algo espetacular.  Uma caixinha lacrada, que após aberta, mostrou um importante segredo: uma longa carta e duas jóias. A caixinha e a carta eram do século XIX. Já as jóias (um anel de formatura e uma medalha de batismo) eram direto do século XX. Virgílio ficou impressionado quando constatou que as jóias eram dele (ele as havia perdido no acidente de barco), o que foi provado pelas gravações nas jóias. Então o mistério ficou:

Como as jóias que Virgílio perdeu no mar, anos antes, foram parar em uma caixinha lacrada do século XIX?

A carta explicava tudo. Porém algumas páginas da carta foram surrupiadas pelo prefeito da cidade, amigo de Marie. Ninguém sabe os objetivos desse homem até aquele momento, o que é revelado apenas depois.

A partir desse momento, o romance histórico ganham fortes contornos de ficção científica ou especulativa. De uma maneira muito hábil, somos transportados para um cruzeiro intercontinental do século XIX onde estão as gêmeas Olympia e Olívia. E o mistério é todo revelado pois o leitor passa a conhecer uma história de amor impossível. Impossível pelo tempo e impossível por todo cerceamento de liberdade que as mulheres tinham no passado.  Através do livro, podemos conhecer um pouco sobre a vida dos ricos no século XIX. O mundo dos marqueses, dos barões, dos jovens ricos e mimados perdidos em apostas, das mulheres ricas e virginais esperando um bom casamento, das escravas damas de companhia, etc.

Através do romance, conheci a história de Joaquim Nabuco e Eufrásia Teixeira Leite.  Eufrásia era uma mulher a frente de seu tempo e por ser muito rica, não tinha a obrigação de se casar (até tinha, mas podia contornar isso). Queria se mudar do Brasil, se estabelecer em Paris, onde poderia ser mais livre. No percurso de sua vida, encontrou Joaquim Nabuco e não teve vergonha de assumir um romance. Ficaram juntos por 14 anos, sem se casar. Bom, agora a Sra. Anaté Merger fez com que eu colocasse mais um livro na minha lista de leituras futuras, obrigada.

Anaté é uma hábil narradora descritiva. Ela descreve locais, cheiros e aromas de maneira espetacular. Eu já tinha comentado a respeito dessa sua característica de estilo narrativo em outras resenhas. Ela descreve habilmente a fazenda, os ambientes do navio e a casa de Helena, por exemplo. Aromas e sabores são sua especialidade. Fiquei com fome ao ler a descrição de um café colonial em uma determinada passagem do livro.

Outra coisa incrível que ela faz em Luz e Sombra é a descrição das cenas de paixão e amor. A entrega dos amantes é muito bem descrita e nos sentimos quase que voyeurs. Ela descreve cenas de amor mais delicadas e cenas de paixão com uma enorme delicadeza e respeito, de maneira que realmente nos inspiram cá na “vida real”. O erotismo é tratado com muita naturalidade e respeito, sem apelar ou sem parecer negativamente apelativo.

Eu diria que é o melhor livro da Anaté que li até agora (esse é o quarto livro da escritora que li até então, veja lista a seguir). Talvez porque eu goste de assuntos relacionados ao Segundo Império e porque dessa vez ela se superou em seu estilo descritivo (que não é nada maçante). Uma leitura agradável e leve, para o fim do dia. Aquele livro para ler a noite, depois de um dia cheio de trabalho.  A propósito, acho que daria uma ótima novela de época (Rede Globo, presta atenção aqui).

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 Outros trabalhos da autora resenhados no Meteorópole: