Balões meteorológicos podem ser confundidos com UFO’s?

Quem não sonha com homenzinhos verdes? Se você é fã de literatura de ficção científica que envolve seres de outros planetas, certamente sabe um pouco sobre ufologia. Cortesia de Shutterstock

Objetos Voadores Não Identificados (OVNI’s) ou Unidentified Flying Objects (UFO’s) é alguma coisa vista no céu que o observador não identifica logo de cara, ou seja, ele não consegue classificar o que vê comparando com os registros mentais de coisas que conhece. Muitas pessoas, ao avistarem um OVNI, logo procuram as autoridades ou a imprensa para reportar o que foi visto.

Um documento elaborado por pesquisadores da Universidade do Colorado (sob direção científica do físico nuclear Dr. Edward Condon e financiado pela Força Aérea dos Estados Unidos – USAF) é o documento público mais famoso que descreve a metodologia de como agir no caso do avistamento de um OVNI. O documento goi endossado pela Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos em 1969 e você pode consultá-lo aqui. E por que é tão importante estudar os OVNI’s? Será que os EUA estão preocupados com vida extra-terrestre? Bom, talvez até estejam mas essa não e nem de longe a maior das preocupações.

Essa preocupação com OVNI’s aumentou depois das Grandes Guerras, principalmente durante o período da Guerra Fria, pois foi durante o período da Guerra Fria que a quantidade de voôs (civis e militares) aumentou e a rede de sensoriamento remoto também aumentou. Dessa maneira, ficou mais fácil monitorar maiores porções do céu. Durante as guerras e durante o período da Guerra Fria, sempre houve uma tensão no ar. E até hoje os EUA se preocupam com seu espaço aéreo, pois ainda há o receio de um ataque aéreo. Em outras palavras, um brilho no céu pode ser um míssil intercontinental, por exemplo. Por isso qualquer relato mais abrangente (visto por várias pessoas em diferentes localidades, por exemplo) de OVNI é investigado de maneira séria. Pois esse OVNI pode vir a ser identificado e então pode-se concluir que trata-se de uma séria ameaça militar. E é até por essa razão que muitas investigações sobre OVNI’s são sigilosas, já que evidentemente por questões de estratégia militar, os EUA não querem que seus inimigos “saibam o que eles sabem”.

Balões Meteorológicos

Balões meteorológicos são importantes aliados na compreensão da atmosfera e de seus fenômenos. A imagem trata-se de um selo comemorativo neozelandês, exaltando as pesquisas desse país na Antártica. No selo (que é de aproximadamente 1984), temos a imagem de um pesquisador lançando um balão meteorológico. Cortesia de Shutterstock

Um balão  meteorológico é um tipo de balão que transporta instrumentos que mede e envia informações sobre a pressão atmosférica, temperatura, umidade e velocidade do vento por meio de um dispositivo de medição pequeno e descartável chamado radiossonda. Para obter dados de vento, eles podem ser rastreados por radar, localização de rádio ou sistemas de navegação (como o Sistema de Posicionamento Global – GPS). Balões de altitude constante, que ficam responsáveis por monitorar o que ocorre em uma única altitude, são chamados de transossondas. Essas transossondas foram utilizadas, por exemplo no final da década de 1950, para verificar a presença de radioatividade na alta atmosfera em decorrência do lançamento das bombas atômicas.

Os balões meteorológicos convencionais (que para facilitar, também chamamos simplesmente de radiossondas) vão subindo e ao logo de sua subida, vão fazendo as medições e as transmitem automaticamente para um receptor em terra firme.

O primeiro cientista a usar um balão meteorológico provavelmente foi o meteorologista francês  Léon Teisserenc de Bort. Em 1896, ele lançou balões de seu observatório em Trappes, na França. Esses experimentos permitiram que ele descobrisse a tropopausa e a estratosfera.

Lançamento de uma radiossonda. Fonte: NOAA/COMET-UCAR

A imagem acima foi usada nesse post que explica como é feita a previsão do tempo e fala da importância da observação da atmosfera para termos uma previsão do tempo de qualidade.

O balão normalmente é feito de latex ou cloropreno. Tratam-se de materiais flexíveis, que podem ser inflados. O gás utilizado para inflá-los pode ser hélio ou hidrogênio, que são gases mais leves do que a mistura de gases que compõe a atmosfera. Dessa maneira, eles consegue subir livremente e realizar o monitoramento e observação meteorológica em diferentes alturas.

Alguns balões, além de medirem temperatura, umidade relativa, pressão e vento, podem medir a concentração de poluentes ou a concentração de ozônio. Esses balões mais específicos em geral não são usados operacionalmente: são usados apenas em campanhas científicas com período de duração pré-determinado.

Balões meteorológicos que medem temperatura, umidade relativa, pressão e vento são lançados diariamente em aeroportos e institutos de pesquisa por todo o mundo. Existem cerca de 800 locais no mundo onde esse lançamento é feito rotineiramente, duas vezes por dia, normalmente as 00:00 UTC e 12:00 UTC (entenda esse ‘UTC’ nesse post). Além desses dois lançamentos diários, alguns locais também fazem lançamentos esporádicos quando notam uma mudança muito grande na atmosfera, como a aproximação de uma tempestade, por exemplo. A maior parte dos dados obtidos nas radiossondagens são divulgados mundialmente, em sites como esse.

Balões Meteorológicos e OVNI’s

Um balão meteorológico pode ser confundido com um OVNI, principalmente se ele já estiver bem alto no céu, expandido e refletir a radiação solar. Cortesia de Shutterstock

Os balões meteorológicos começaram a ter seu uso mais difundido a partir da segunda metade do século XX. Conforme os balões sobem na atmosfera, eles se expandem. Como normalmente o latex ou cloropreno tem uma coloração branca ou bege (para não absorver radiação solar e prejudicar os instrumentos e a própria estrutura e velocidade de vôo do balão), em um dia ensolarado, o balão vai refletir parte da radiação solar. Imagine então um objeto claro, em pleno voo e refletindo radiação solar. Ele fica brilhante e facilmente pode atrair a atenção e até assustar um observador.

Se o balão estiver voando a noite, pode também refletir a luz da Lua ou até mesmo a luz artificial da superfície da Terra ou de uma aeronave. E mais uma vez, isso pode assustar! Se você desconhece a existência dos balões meteorológicos e de seu lançamento, pode se assustar. E um balão meteorológico pode ser avistado mesmo em uma localidade um pouco distante de onde foi lançado, pois ele pode ser transportado pelo vento.

Ano passado, um caso muito típico ocorreu na Austrália. Um balão meteorológico especial, maior e designado para fazer observações prolongadas da atmosfera, foi lançado na Nova Zelândia. Alguns moradores da Austrália conseguiram ver o balão. Ele era grande e subiu bastante, chegou até a estratosfera. Logo correu a notícia de que se tratava de um OVNI, mas em seguida ele foi identificado como um balão.

No vídeo abaixo, há o caso de outro balão meteorológico que foi filmado em Barcelona. Um desavisado, poderia acreditar que trata-se de algo sem identificação. E como nossa mente adora o misterioso e o fantástico, poderiam pensar que trata-se de uma nave alienígena:

O caso mais famoso envolvendo OVNI, o Caso Roswell, concluiu-se que era o avistamento de um balão meteorológico. Porém eu gosto de acreditar que eram Quark, Rom e Nog, chegando na Terra do século XX com a nave caindo aos pedaços do primo Gaila😂 .

Assistam o episódio Little Green Men, de Star Trek: DS9. É fantástico!

No blog Monolito Nimbus, o Vinícius fez uma compilação de casos que ele chamou de Mistérios Explicáveis do Céu. Além dos balões meteorológicos, fenômenos meteorológicos diversos podem ser confundidos com ‘coisas de outro mundo’.

Penso que quem tem interesse em estudar OVNI’s com seriedade (e isso pode ser possível), vai certamente aprofundar seus estudos em Meteorologia e Astronomia para compreender que alguns dos OVNI’s não passam de fenômenos naturais e portanto não são OVNI’s por definição. Também vai procurar saber mais sobre aeronaves e armamentos para entender que esses muitas vezes podem também ser confundidos com OVNI’s. Todas as causas naturais e humanas precisam ser descartadas antes de classificar o que foi visto como um OVNI e como potencialmente algo de outro mundo.

Vamos supor que um OVNI foi realmente avistado, pois nada pode explicar aquele objeto avistado. Todas as possibilidades foram esgotadas. Será que todas foram esgotadas mesmo? Muitas vezes esbarramos na barreira de nossa ignorância. Além disso, precisamos levar em conta que diversas nações conduzem atividades militares sem divulgar, então um OVNI pode ser um teste de uma nova aeronave, por exemplo. Em outras palavras: não é porque é OVNI que é de outro mundo!

Nesse post, falei sobre viés de confirmação e penso que há pessoas que acreditam tanto em OVNI’s que selecionam apenas as partes da informação que ajude a moldar e reforçar suas crenças iniciais. O viés de confirmação é um tipo de falácia de cherry picking ou de supressão de evidências. Ou seja, quando colhemos frutas, digamos, cerejas, selecionamos no pomar as cerejas mais bonitas e apetitosas, ignorando todas as outras. Observe que muita gente seleciona apenas os argumentos que confirmam sua hipótese original, descartando todos os outros. Muitos ufólogos agem dessa maneira, misturando até ufologia com esoterismo.