Meteorologia e Folclore: Santos Católicos e o tempo



As festividades cristãs até hoje ajudam a determinar nosso calendário. Alguns santos são relacionados com determinadas condições meteorológicas. Vamos falar sobre isso nesse post. Cortesia de Shutterstock

Indiretamente ou diretamente, já mencionei as variadas ligações entre Meteorologia e folclore em outros textos daqui do Meteorópole. Na verdade, acho que seria possível escrever um blog apenas sobre esse tema, que praticamente é inesgotável. Cada lugar do mundo tem seu folclore particular e em um país como o Brasil, por exemplo, há lendas e histórias típicas de cada região, de modo que provavelmente há lendas urbanas de Manaus que sejam completamente desconhecidas para mim, moradora de São Paulo, por exemplo.

Folheando um livro que sempre recomendo, o Previsão do Tempo e Clima, de A.G. Forsdyke (falei desse livro aqui), reli um capítulo que trata apenas de folclore. O primeiro parágrafo do capitulo diz algo muito importante sobre o assunto:

“Algumas dessas tradições são apenas lendárias, outras são o produto de superstição, estas tendo pouco valor, a não ser pelo seu pitoresco. Certos ditados, porém, derivam de uma longa experiência e de uma observação astuta por parte de pastores, fazendeiros, marinheiros e outros cujas ocupações têm lugar ao ar livre. Os estudos meteorológicos têm revelado, em muitos casos, que eles tinham bases sólidas”

Nesse post, vou procurar falar sobre o folclore relacionado aos santos católicos. E vamos começar com uma tradição britânica puramente lendária e que está relacionada com o Dia de São Swithin. O dia desse santo britânico ocorre em 15 de julho e segundo a tradição popular, as condições meteorológicas desse dia vão determinar as condições meteorológicas dos 40 dias seguintes após a data. Por exemplo, se o dia 15 de julho for seco e quente, os próximos 40 dias terão as mesmas características. Intuitivamente, já é possível concluir que essa lenda não tem nenhum fundamento. No entanto, a tradição da data inspira as pessoas e até hoje há quem acredite ou queira acreditar nessa relação. O autor David Nicholls esreveu o premiado romance One Day (que foi adaptado para o cinema) onde o dia 15 de julho tem um papel importante na trama.

Detalhe do Alto-relevo de São Swithin (ou São Swithun) na Catedral de Winchester, na Inglaterra. Cortesia de Shutterstock

São Swithin não é o único santo relacionado com Meteorologia. Na verdade, até hoje o calendário ocidental é organizado levando em conta as festividades cristãs. Para muitos católicos, o santo do dia (calendário hagiológico) é diariamente lembrado e reverenciado. Em algumas partes da Itália, se você tem nome de santo, você praticamente faz dois aniversários por ano: o do dia que você nasceu e o do dia do santo que tem seu nome. Por exemplo, se o seu nome é Giuseppe (José) e você faz aniversário 22 de fevereiro,  no dia 19 de março (dia de São José) é bem provável que te parabenizem também. No passado, era comum que a pessoa recebesse o nome do santo relacionado ao dia do batismo na Igreja.

E por falar em São José, devemos lembrar que o dia de São José é muito levado em conta pelos sertanejos. Mencionei o fato nesse post, mas vou repeti-lo:

O sertanejo morador da região mais setentrional do polígono das secas costuma dizer que se não chover até o dia de São José (19 de março), significa que não vai chover mais

Há muitas crenças que relacionam dias de um determinado santo com ocorrências meteorológicas. Apesar de hoje bem documentado pela ciência, a origem do termo El Niño também é religiosa (veja aqui), pois o nome é uma alusão a chegada do menino Jesus no período de dezembro.

Como mencionei antes, saber o santo do dia é uma forma de conhecer o calendário. Além disso, por se tratarem de santos, claro que há aquela ligação com o sobrenatural ou metafísico. E quando o assunto é calor, os santos aparecem novamente. Destaco um trecho do post que escrevi sobre veranico:

O veranico é um fenômeno típico do Brasil meridional, onde a gente consegue ter uma distinção melhor entre as estações do ano. Por essa razão, vocês vão notar que a maioria dos trabalhos brasileiros nessa área são publicados por pesquisadores que atuam nas regiões Sul e Sudeste.  Locais próximos do Equador não tem veranico, já que a amplitude térmica anual não é muito grande, ou seja, não há um “inverno” propriamente dito para se comparar.

Em Portugal, também há veranico. O nome dado por lá é verão de São Martinho e o fenômeno ocorre em Novembro, entre o outono e o inverno. O nome do santo tem a ver com a época: o dia de São Martinho é em 11 de novembro. Na França e na Espanha, embora haja  termos técnicos (été indien e veranillo, respectivamente), temos também termos populares com referência ao santo.

O termo veranico é empregado também no Uruguay e na Argentina. Em alguns países da América do Sul, utiliza-se a expressão Veranillo de San Juan, uma referência ao dia de São João (24 de junho).

Ainda om relação ao calor, o calor fora de época no Reino Unido em meados de outubro, por muitos é relacionado com o dia de São Lucas (18 de outubro). No passado a Igreja Católica tinha muito mais influência é é extremamente natural que as pessoas fizessem essa associação, já que muitas pessoas eram analfabetas e adquiriam boa parte de seu saber oralmente, muitas vezes propagado por religiosos.

Saindo um pouco dessa parte religiosa (mas vamos voltar a ela daqui a pouco), vamos falar de tentativas em conseguir uma descrição científica a partir de observação.  No Reino Unido, no final do século XIX um meteorologistas escocês chamado Alexander Buchan resolveu examinar registros de temperatura da Escócia. Ele chegou a conclusão de que havia uma tendência para a ocorrência de períodos anormais de calor e frio em determinados dias do ano. As conclusões de Buchan foram as seguintes:

  • Frio:  7 a 14 de fevereiro; 11-14 de abril, 9-14 de maio; 29 de junho a 4 de julho; 6-11 de agosto; 6-13 de novembro
  • Calor: 12-15 de julho; 12-15 de agosto; 3-14 de dezembro

No final do século XIX, Buchan ficou famoso por essas datas. A imprensa britânica destacou as datas e havia quem até apostasse ou as usasse como referência. No entanto, hoje se sabe que essas datas não são de confiança para se realizar uma previsão do tempo baseada nelas. Claro que há tendências de ocorrências de períodos anômalos de frio ou calor (ou seja, frio ou calor fora de época, fora do período de inverno ou verão). Mas não é possível fixar-se em datas exatas, já que há características interanuais (como o El Niño é uma aqui para a América, por exemplo) que fazem com que um ano seja mais chuvoso ou mais quente que o outro, por exemplo.

Apesar dessas considerações, as datas de Buchan tem um certo fundamento e trataram-se de um esforço de tentar deixar a questão mais “científica”. Por exemplo, o período de 9-14 de maio, que de acordo com o levantamento de Buchan era de frio fora de época, é um período em que costumam acontecer geadas que prejudicam a safra de frutas. Vejam que maio já é um mês considerado quente no Hemisfério Norte. Então o produtor de frutas pode pensar que não precisa mais se preocupar com os danos causados pelo frio, porém houve registro de geadas em maio que prejudicaram a safra em diversos anos.

Esse período próximo de 9-14 de maio coincide o período que alguns europeus chamam de período dos Ice Saints (Santos do Gelo) e é um conhecido período em que pode acontecer frio fora de época. Os santos do gelo são um nome dado os santos dos dias 11 a 13 de maio, um período em que costuma acontecer frio fora de época. Claro que não é uma certeza, já que um ano é diferente do outro, porém há grande probabilidade de isso ocorrer. Essa crença nos Santos do Gelo, principalmente no norte da Europa, pode ter uma forte origem pagã relacionada a chegada de ‘homens de gelo’ que trariam frio inesperado.