Simpatias para mudar o tempo



Exalte o tempo para os seus amigos e combine um programa maravilhoso ao ar livre, como um passeio no parque. Segundo a Lei de Murphy, vai chover no exato dia do passeio. Cortesia de Shutterstock

Você acredita em simpatias? Eu não acredito, mas há quem seja fiel adepto das simpatias ou mandingas. São receitas para ganhar dinheiro, atrair a vitória de seu time em uma competição, atrair a pessoa amada e até para fazer chover. Isso mesmo: fazer chover! E no post de hoje, vou falar sobre essas simpatias para mudar as condições meteorológicas.

Apesar de não ser praticante de simpatias, acho o mecanismo do pensamento mágico bastante curioso. Sem contar em todo o ritual ou até mesmo uma quest para adquirir todos os itens necessários para o encantamento.

Como cristã, minha “mandinga” é orar, mas eu acredito que minha oração tem limites muito claros: os limites da vontade de Deus.  Como eu acho que orar de certo modo é uma mandinga, não me sinto confortável criticando o sagrado alheio. Apenas fico triste quando vejo charlatanismo, ou seja, quando alguém obtém vantagens com a fé ou credulidade alheia.

Meu objetivo aqui é falar das simpatias e dos mecanismos por trás do pensamento mágico. Não quero ofender ou criticar quem tem fé e pratica simpatias. Até porque acredito que todos nós, em maior ou menos grau, somos adeptos do pensamento mágico.

Simpatias para mudar o tempo

É inegável que uma seca prolongada prejudica a agricultura e a nossa saúde (dissemina alergias e deixa o céu poluído). Então quando fica muito tempo sem chover, fica todo mundo torcendo por chuva. Sabe aquela história de deixar Santo Antônio de cabeça para baixo dentro de um copo d’água? Eu achava que essa mandinga era apenas para conseguir um relacionamento amoroso,  mas ao que parece, tem quem acredite que dessa maneira a chuva também pode chegar. Nessa reportagem, a aposentada Nilce Pavarina ainda menciona que a simpatia também funciona com outros santos. Ela conta que já “deu banho” em diversos santos de seu altar. Pelo o que entendi, ela lava as imagens de seu altar e dessa maneira, ela acredita que vai atrair a chuva.

Entre outras simpatias para atrair chuvas, temos:

  • Colocar sal grosso em um prato: essa é especialmente curiosa. O sal é higroscópico, ou seja, tem afinidade com a água e absorve o vapor d’água contido na atmosfera. É por essa razão que o sal do saleiro fica “grudento” e não sai pelos buraquinhos quando o tempo está muito úmido. Para evitar esse inconveniente no saleiro, é prática normal a colocação de arroz dentro do saleiro. O arroz vai absorver parte dessa umidade que iria para o sal, deixando os grãos soltos e não te chateando quando você for temperar sua salada.
  • Mandar as crianças buscarem água da bica
  • Mudar a imagem de Santo Antônio de lugar dentro do altar ou dentro de casa
  • Apelo à Lei de Murphy: ligue para o seu amigo favorito e combine um programa ao ar livre. Pode ser um churrasco, um jogo de futebol, uma ida ao parque, etc. Na conversa por telefone, exalte o tempo ensolarado e seco! Pode ter certeza que vai chover muito no dia do compromisso.
  • Faça desenhos de nuvens no chão
  • Faça uma reza: há rezas específicas para atrair chuva
  • Aprenda a fazer a dança da chuva: você pode improvisar, hahaha. Se não atrair a chuva, pelo menos vai se divertir.
  • Sair na rua com o guarda-chuva aberto, mesmo que esteja super ensolarado: eu já ouvi várias pessoas falarem isso. Como é costume meu sair por aí com a sombrinha aberta quando está ensolarado (gosto de me proteger do Sol), eu devo estar atraindo muita chuva e não sei.
  • Concentre vários meteorologistas no mesmo lugar: essa era uma brincadeira que sempre fazíamos nos Congressos de Meteorologia. Normalmente os congressos são organizados em cidades muito bonitas, algumas próximas ao mar. Todo mundo quer aproveitar a viagem e escapar para a praia assim que uma folguinha surgir. Mas então chove e os planos dos meteorologistas vão por água abaixo.
Papai Pig faz uma importante observação para o Sr. Canguru: “Se quiser que chova por essas bandas, basta fazer um churrasco”

Reparem que mencionei apenas algumas simpatias, principalmente relacionadas com crenças brasileiras. Cada povo tem sua maneira de lidar com o wishful thinking.  Um exemplo estrangeiro é o dia da marmota: para alguns norte-americanos, se a marmota sair da toca no início de fevereiro, significa que o inverno está indo embora. Veja, em alguns casos, a simpatia e/ou o wishful thinking podem realmente ter algum fundamento científico (mesmo se procurarmos lá no fundo). Em outros casos, não há nenhum fundamento científico e nenhuma relação causal.

A ciência do pensamento mágico

A questão é que normalmente acreditamos que essas mandingas funcionam porque o ser humano é um grande adepto do viés de confirmação (mencionei esse conceito rapidamente nesse post). Em outras palavras, temos a tendência de se lembrar apenas de informações que confirmam nossa crença inicial. Ou seja, eu vou me lembrar apenas das vezes em que coloquei o sal grosso no prato e choveu no dia seguinte. Eu não vou me lembrar com a mesma intensidade de todas as vezes que fiz isso e não choveu.

É o fenômeno do goleiro: basta o goleiro fazer um frango colossal uma única vez e ninguém vai se lembrar de suas inúmeras defesas espetaculares.

Além de se lembrar apenas de fatos que confirmam a hipótese inicial, é provável que eu pegue toda informação que já tenho sobre o tema e a organize de maneira a confirmar minha hipótese inicial, ou seja, de maneira tendenciosa. Em outras palavras, é uma lembrança seletiva de informações.

Somos seres vaidosos e que gostam de “ter a razão” sempre. Gostamos de dizer “eu avisei”. Eu penso que o viés de confirmação reforça essa vaidade, por isso todos nós estamos sujeitos a pensar assim.

Claro que esse tipo de raciocínio de tendência de confirmação é danoso em uma pesquisa científica. Eu não posso interpretar meus dados observados apenas de forma a confirmar minha hipótese inicial. Por vaidade, muitas vezes alguns cientistas se esquecem de questionar a metodologia, os dados e até mesmo a formulação de sua hipótese inicial.  Em conclusões de um artigo científico é perfeitamente possível e saudável atestar que a hipótese inicial era falha. Isso pode acontecer e por isso o cientista deve ser vigilante e questionador. A vaidade não pode tomar conta do cientista, pois deve haver uma incansável busca pela imparcialidade.

Por outro lado, acredito que a imparcialidade total é algo muito difícil por parte do ser humano. Tendemos a ser tomados por nossas emoções e nem sempre somos totalmente imparciais. Experiências pessoais, principalmente quando o assunto é fé e religião, são muito valorizadas e eu acredito que não há nenhum problema nisso. Temos apenas que tomar cuidado e compreender até onde podemos chegar com essa tendência de confirmação, de maneira que ela não traga prejuízos para você mesma ou para outras pessoas.

No trabalho, seja ele uma atividade científica ou não, é muito importante deixar a razão “dominar” e impedir que a emoção fale mais alto. Quando agimos norteados pela razão, chegamos mais perto da imparcialidade.

Há, por outro lado, situações em que a emoção toma conta. É o que ocorre em uma experiência religiosa, por exemplo. Sabendo “domar” a emoção e aprendendo a utilizá-la apenas nas situações em que ela é chamada, podemos aprender a controlar nossa natureza e experimentar uma existência mais sadia.

Sisko é um cara que sabe usar a emoção e a razão nos momentos certos. #euacho