Vou ajudar pessoas sendo meteorologista?

Meteorologistas tem muitos dados e informações para processar. Profissionais da área de Computação ajudam muito. Cortesia de Shutterstock

Eu recebi mais um e-mail com dúvida profissional. Vou transcrever o e-mail aqui para vocês lerem e em seguida, vou fazer comentários a respeito da mensagem:

Bom dia. Meu nome é ________, tenho 31 anos e sou morador  ___________.
Trabalho como analista de suporte em ERPs em uma rede de supermercados, e sempre trabalhei com processamento de dados, além de dar aulas de informática. Apesar da idade e de, talvez, ter uma profissão que possa me trazer conforto, não estou satisfeito com minha vida profissional.
Ainda não possuo graduação; passei por engenharia de produção (4 semestres) e atualmente estudo computação(3º semestre). Sempre trabalhei voltado para o “big market” ajudando pessoas a enriquecer, e isso não me agrada mais. Quero fazer algo que possa ajudar as pessoas. Estou muito tentado em começar o curso de meteorologia. Tenho intensão em seguir carreira acadêmica, mas tenho receio de minha idade atrapalhar. Não sei se teria algum impedimento em começar a estudar, fazer iniciação científica, estágios e tudo mais. Não sei se aconteceria algum tipo de preconceito por conta de minha idade, algo do tipo; não conseguir estágios por ser velho demais ou não ser acolhido pra iniciação científica. Gostaria de uma opinião e esclarecimento. Desde já agradeço.

Eu decidi omitir o nome de meu leitor e sua cidade para manter sua privacidade e dessa maneira eu me sinto mais a vontade para escrever a respeito.

Vou tentar ajudar meu querido leitor tratando de cada assunto mencionado separadamente. O primeiro é com relação a idade, que é uma das primeiras informações que ele forneceu e depois diz ter receio de a idade atrapalhar. Não tem nenhum “problema” em começar a estudar Meteorologia (ou qualquer curso universitário) depois dos 30 anos, mas precisamos levar algumas coisas em consideração.

Nesse post, mencionei exemplos de pessoas que conheço e que começaram a estudar Meteorologia bem depois dos 30 anos. E ao longo desse texto, vou contar outros dois exemplos de duas grandes amigas que tiveram histórias parecidas. Claro que há mais desafios quando você é mais velho. Por exemplo, se eu voltar a estudar no momento eu preciso levar em conta que tenho um filho para criar e uma casa para cuidar. Quanto mais idade, mais compromissos (em geral). Além disso, há um choque de gerações, digamos assim. Quando ficamos mais velhos, em geral ficamos mais maduros e acabamos tendo interesses completamente diferentes de pessoas de 20 e poucos anos. Então, sendo mais velho, talvez você tenha dificuldade em socializar com seus colegas de faculdade. Porém muito provavelmente, exatamente por ser mais velho, você já não tenha tanto essa necessidade de socializar exageradamente.

Com relação a idade e carreira acadêmica, a priori isso não é um impedimento. Mas eu já soube de uma pessoa que teve uma bolsa de pos-doc negada sob a alegação de essa pessoa ser velha demais (a pessoa tinha mais de 70 anos). Mas nesse caso, a pessoa era realmente bem mais velha e tinha outras questões que a impediram (ela não sabe inglês, por exemplo). Mas isso não se aplica ao seu caso, já que você tem 31.

Eu tenho uma grande amiga que concluiu o mestrado e depois o doutorado com quase 40 anos. Ela passou em um concurso público e hoje é professora em uma Universidade. Tenho também outra amiga, a meteorologista Cátia Braga, que também começou a estudar Meteorologia mais velha e foi muito bem, concluiu o mestrado e atuou como coordenadora técnica do Cemtec. Atualmente ela é professora e contou toda sua história nesse texto. Os dois casos de minhas amigas são exemplos de mulheres muito batalhadoras, que fizeram um enorme esforço e contaram com o apoio da família e amigos. Esse apoio é muito importante. Não só o apoio moral, mas também o suporte financeiro.

Se quiser seguir carreira acadêmica, no entanto, prepare-se para uma vida de pouco dinheiro e incertezas. Eu imagino que com seu trabalho atual você receba um salário razoável. Se for fazer Iniciação Científica, depois Mestrado e depois Doutorado, saiba que sua vida vai mudar substancialmente. Você vai depender de bolsas, que com certeza pagam bem menos do que seu atual salário. Você vai ter que mudar toda a dinâmica de sua vida financeira e vai viver com muito menos. Alguns luxos que talvez já façam parte de sua vida, talvez deverão ser abandonados. E falo de luxos bobos aqui, como por exemplo: a barbearia descolada, a cerveja importada bacana, aquele café espresso na hora que quiser, etc. Além disso, depois de concluir o doutorado, você vai ter que esperar abrir um concurso em sua área. Isso pode significar meses ou até anos de espera. Você está preparado para recomeçar sua vida com um emprego registrado e estável apenas depois dos 40 anos? Se você tem o apoio de sua família, tudo bem. Mas se você for arrimo de família ou se estiver pensando em constituir família nesse meio tempo, as coisas podem ficar complicadas.

Em outras palavras, a questão da IDADE em si não é um problema. Não acho que uma pessoa mais velha vá sofrer preconceito por ser mais velha. A carreira acadêmica pauta no mérito. Se você mostrar interesse e competência, você vai ir bem!  Ou seja, se o que te impede de cursar meteorologia é APENAS a idade, deixe isso de lado. Claro, você só tem que ter em mente os desafios que irão surgir, conforme mencionei. Porém, a questão FINANCEIRA pode pesar muito mesmo! Pense muito bem a respeito disso. MUITO BEM.

Agora vamos a seguinte questão que indiretamente aparece no e-mail do meu leitor. A questão é: vou ajudar pessoas sendo meteorologista? Bom, para saber isso foi perguntar para alguns amigos e colegas de profissão.

Um de meus amigos, que faz doutorado e trabalha como consultor em projetos disse que você só ajudaria pessoas diretamente se trabalhasse como meteorologista da Defesa Civil. E por “ajudar diretamente”, meu amigo se refere a ajudar as pessoas na linha de frente. Como se estivéssemos falando de uma guerra e o meteorologista da Defesa Civil atuasse na linha de frente.

No entanto, um meteorologista pode ajudar as pessoas indiretamente. Desenvolvendo produtos e ferramentas para melhorar a previsão, por exemplo. Ou melhorando suas habilidades de comunicação para poder transmitir de maneira mais eficiente a informação sobre o tempo.

Eu tenho a opinião de que podemos ajudar a sociedade e as pessoas de um modo geram se agirmos com honra, dignidade e respeito. Se você agir com profissionalismo e ética dentro de sua empresa, vai ajudar ajudar a sociedade. O Brasil precisa de pessoas éticas e dignas em todos os campos de trabalho. Se você é ético e trabalha bem, tenho certeza que dessa maneira está inspirando outras pessoas e está sim ajudando a sociedade. Você também mencionou que é professor. Quer trabalho mais nobre? Como professor, você tem o potencial para transmitir muito mais do que conhecimento técnico.

Talvez o meu leitor esteja com alguma “crise existencial”, digamos assim. Acho que todo mundo já passou e/ou passará por isso. No caso, ele conta estar trabalhando em uma função onde “ajuda outras pessoas a enriquecer”. Talvez não seja o caso de empreender (no SEBRAE há cursos sobre o tema)? Empreendendo você estará sendo o responsável pelo seu enriquecimento (e aqui não falo apenas de dinheiro) e quem sabe poderá criar vagas de emprego para ajudar outras pessoas. No entanto, leve em conta os desafios e riscos de empreender. Não quero desmotivar ninguém, mas eu sempre procuro ressaltar o lado bom e o ruim das questões para ajudar na tomada de decisão.

Há inúmeras maneiras de ajudar as pessoas, você não precisa fazer isso dentro de sua atividade remunerada. Você pode se juntar a um grupo de pessoas que faz o bem, pode se unir a uma ONG séria dentro de uma área na qual você tenha afinidade. Como você é da área de tecnologia de informação, pode dar cursos gratuitos para jovens carentes. Pode escrever um blog, compartilhando dicas e informações importantes sobre sua área, para assim disseminar o conhecimento.

Quando dou conselhos para as pessoas, acabo imprimindo meus próprios conceitos e minha vivência.  Tem gente que não gosta disso. Mas eu não espero que as pessoas “sigam” o que estou falando, apenas quero apresentar uma opinião que pode ajudar o outro. É como se fosse uma pequena vela na escuridão, que pode se apagar ou você pode abandonar assim que encontrar uma vela melhor ou uma lanterna.  Por isso eu digo para vocês, na minha opinião não tem como viver sem dinheiro. É frustrante e ficar sem dinheiro! Não ter grana acaba te impedindo de realizar seus próprios sonhos. E a gente se acostuma com conforto, então se você tem um emprego legal agora (que paga bem) e pretende deixá-lo, pense várias vezes antes de fazer isso. Programe-se, organize sua vida financeira e faça uma reserva.  Tendo dinheiro, a gente pode inclusive ajudar outras pessoas. Eu acho hipócrita esse discurso de “ah, dá para viver sem dinheiro”. Quem fala isso, certamente tem dinheiro para atender ao menos necessidades básicas e garantir conforto mínimo. Fale para alguém em situação de rua ou de vulnerabilidade em geral que dá para viver sem dinheiro “de boas”. Não dá! Vamos encarar isso e aprender a viver com o que temos. Claro que não devemos cultuar o dinheiro e trabalhar apenas para acumular bens, sem usufruir ou aproveitar.  Mas é possível sim chegar em um equilíbrio, porém sem idealizações irreais!

Outra coisa que preciso dizer ao meu leitor. Você me conta que começou a cursar duas graduações: uma você deixou e a outra você cursa no momento. Isso não é um sinal de alerta? Acredito que você tem que buscar meios de entender por que isso aconteceu. O que te fez deixar a primeira graduação e está te tentando a deixar a segunda? Não seria melhor, até pela sua satisfação pessoal, concluir a graduação que você está cursando no momento? Eu observo que quando a gente “fecha” ciclos, a gente se sente melhor. Dá uma sensação bacana de vitória! Um curso universitário não é 100% estimulante, porque há matérias que são enfadonhas, professores que não ensinam tão bem, há o cansaço da correria do dia a dia, etc. Entenda que mesmo cursando Meteorologia ou qualquer outro curso, você também vai enfrentar essas situações. Por isso, talvez seja interessante que você conclua essa graduação e encare isso como uma importante meta a ser cumprida.  Eu também acho que concluir a graduação na área de computação pode te abrir muitas portas e você pode inclusive vir a procurar emprego na área de Meteorologia. Nós dependemos muito de profissionais qualificados da área de Computação. Você pode começar a trabalhar com meteorologistas e talvez fazer um mestrado na área, por que não? Nesse post, alguns de meus colegas mencionaram a importância de saber programação. Ou seja, de repente você já está em um caminho muito promissor, só que por estar nessa “crise existencial”, não está percebendo! E é normal, quando estamos irritados, cansados e em crise, não conseguimos enxergar o caminho que estamos trilhando.

Uma outra dica que pode ser interessante: procure um hobby. Procure uma atividade para fazer aos fins de semana ou nos poucos momentos de descanso que você tem durante a semana. Se for uma atividade ao ar livre, melhor ainda. Isso vai te ajudar a pensar na vida e a pensar em sua carreira. Pode parecer bobagem, mas um simples passeio em um parque ajuda a clarear as ideias, além dos benefícios incomparáveis que isso traz a saúde.

E para finalizar, querido leitor, desculpe pela resposta enorme e pela demora em responder seu e-mail (já tem uns 15 dias ou mais que está em minha caixa de e-mails). Eu li, pensei bastante, conversei com amigos e fui escrevendo com o coração. Eu realmente quis ser uma “velinha” que vai te ajudar a trilhar esse caminho profissional.